Lojas com caixa e convicção ficam fechadas

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Sem sufoco financeiro, muitas empresas preferem aguardar a queda do contágio e investem nas vendas online
Fernanda Perrin

Uma mulher branca de vestido preto está no plano de fundo da foto, à frente de uma arara de roupas. No primeiro plano, à esquerda, há parte de um manequim com uma roupa verde estampada
A empresária Rebeca Salem decidiu não reabrir sua loja de roupas, Dona Frida, localizada no Brooklin (zona sul de São Paulo) apesar da liberação da prefeitura – Bruno Santos/Folhapress – 18.jun.2020

Alguns comerciantes têm optado por manter as portas fechadas, apesar da autorização para reabertura em vigor desde o dia 10 de junho em São Paulo.

A principal razão é o temor de que o movimento seja precipitado e contribua com a disseminação do novo coronavírus. Entre os dias 10 e 16, o número de casos diários confirmados na cidade passou de 2.431 para 4.228 (os dados para os dias 17 e 18 estão incompletos por uma falha no sistema de notificação do Ministério da Saúde).

No mesmo período, o número de óbitos confirmados pela doença subiu de 159 para 167.

Além da preocupação sanitária, os empresários questionam a vantagem de reabrir considerando as restrições impostas (a liberação é para apenas 4 horas por dia e proíbe o uso de provadores, por exemplo) e uma expectativa de clientela reduzida.

Não menos importante nesse cálculo é a situação financeira razoável dos negócios — não fosse isso, eles admitem que se veriam obrigados a reabrir. Por essa razão, não condenam as lojas que, diferentemente deles, estão reativando seu atendimento presencial.

“O meu negócio é pequeno e eu posso me dar ao luxo de manter fechado, preservando quem eu posso preservar, mas eu entendo que essa não é a realidade de grande parte dos empresários”, afirma Rebeca Salem, 38, proprietária da loja de roupas Dona Frida, localizada no Brooklin.

Segundo a empresária, antes da pandemia 40% de suas vendas vinham da loja física e o resto era feito online. O fechamento da loja levou a uma queda brusca do faturamento em março, mas em abril a marca conseguiu recuperar as vendas só com o ecommerce.

Mesmo que decidisse reabrir agora, ela aponta outro impedimento: as oficinas que fabricam as peças estão com dificuldades e as entregas estão sendo feitas com atraso. “Não adianta eu querer abrir a porta sendo que toda engrenagem está trabalhando num outro ritmo”, diz.

O motoboy da empresa está atualmente afastado com suspeita de covid-19, o que tem acontecido também com costureiras das oficinas. “Agora é o primeiro momento que começo a sentir o vírus mais perto de mim. Eu penso mais do que nunca não é o momento de voltar.”

Alberto Ribeiro, 38, sócio da Livraria Simples, localizada na Bela Vista, faz raciocínio semelhante. O negócio não tinha loja virtual antes da pandemia e precisou montar a operação às pressas, mas no mês de abril já conseguiu alcançar um faturamento melhor do que o obtido no mesmo período do ano passado e em linha com o de fevereiro deste ano.

“Decidimos continuar fechados por conta do número de pessoas que ainda estão morrendo na cidade. Então se para nós é possível nos manter fechados, a gente vai ficar. Mas se a situação financeira tivesse apertada, a gente abriria com certeza”, afirma Ribeiro.

Tanto a decisão de fechar em março, antes mesmo do decreto da prefeitura, quanto a de não reabrir agora tiveram um impacto positivo sobre a imagem da livraria, que recebeu diversos comentários positivos em suas redes sociais, destaca o empresário.

Beto Ribeiro, sócio da Livraria Simples, decidiu manter seu negócio fechado, mesmo com a reabertura liberada em São Paulo – Gabriel Cabral/Folhapress

“Temos um público predominantemente de esquerda, que está muito mais preocupado com a saúde das pessoas do que com a economia. Mesmo que a gente abrisse agora ia demorar para o público retornar”, avalia Ribeiro.

Apesar do posicionamento contrário à reabertura, que julga precipitada, ele afirma não condenar as livrarias que decidiram voltar a funcionar. “O que estamos vivendo não tem precedentes. Talvez eu esteja falando um monte de bobagem e no futuro a gente veja que poderia ter reaberto agora e teria ficado tudo bem. Pelo sim e pelo não, eu prefiro ficar fechado, porque é a única coisa que tem funcionado no combate ao vírus”, diz.

A preocupação com a saúde dos funcionários foi o motivo para Georgia Halal, 36, decidir fechar a loja de roupas que leva seu nome, localizada em Pinheiros, dias antes da determinação municipal.

Acompanhando o noticiário sobre a pandemia, ela já se preparou para a quarentena, reorganizando os estoques, reduzindo despesas e planejando uma nova estratégia comercial. “Mesmo com a loja aberta o movimento já tinha caído muito na semana anterior ao fechamento”, diz.

Agora, a empresária não só decidiu continuar fechada como avalia reestruturar seu modelo de negócios, priorizando o ecommerce em vez da loja física –ela cogita funcionar no futuro apenas com hora marcada ou até mesmo fechar o ponto.

Halal afirma que o faturamento da loja online ainda não alcançou o que ela obtinha com as vendas físicas –boa parte vindo do fluxo de pessoas que trabalham e circulam nas proximidades da Rua dos Pinheiros– mas que vê na internet uma oportunidade para ampliar seu mercado.

Além da aposta no online, a empresária também atribui a decisão de não reabrir agora às limitações ao funcionamento do comércio determinadas pela prefeitura. “A questão do horário reduzido, a pessoa se deslocar até a loja e não poder provar… Acho melhor não reabrir e evitar que as pessoas saiam de casa de forma desnecessária”, avalia.

Halal teme ainda que uma segunda onda de contaminação obrigue o comércio a fechar as portas novamente. “Eu acho que não vale o esforço reabrir agora, tirar o foco do meu online que tá engrenando, para ter que fechar de novo depois.”

Esse foi o caso de Alessandra Barros, 47, proprietária da empresa de locação de bicicletas ARDB Brasil, com sede em Botucatu.

No dia 3 de junho a região foi enquadrada no plano do governo do Estado de combate à pandemia na categoria amarela, na qual é permitido o funcionamento de comércio não essencial, salões de beleza, bares e restaurantes.

Uma semana depois, entretanto, a região foi reclassificada na categoria laranja –a mesma na qual a capital se encontra hoje–, que estabelece regras mais rígidas em face de sinais de retomada do crescimento do número de casos de covid-19.

O reenquadramento levou a uma briga na Justiça. No dia 12, a prefeitura de Botucatu entrou com uma medida cautelar junto ao TJ de São Paulo para voltar à categoria amarela.

Barros afirma que chegou a se preparar para o retorno das atividades, mas com o recuo na abertura determinado pelo governo, teve que voltar atrás.

A empresária pretende usar as bicicletas numa operação de delivery de encomendas, compras no supermercado e produtos para festa em parceria com comerciantes locais.

“Imagina, eu abro a porta hoje, trago os funcionários, me preparo para receber o público e daqui dois ou três dias preciso fechar de novo. É delicado esse abre e fecha. Estamos lidando com muita incerteza”, afirma.

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