Apresentações individuais e interativas de opera são feitas por telefone

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Iniciativa da On Site Opera é uma forma de romper a distância entre músicos e ouvintes
Corinna da Fonseca-Wollheim, The New York Times

O pianista David Shimoni e a soprano Jennifer Zetlan Foto: On Site Opera

Uma carta de amor chegou na minha caixa de entrada, na semana passada.

“Sinto terrivelmente a sua falta”, começava. “Cada dia sem você é como um dia sem respirar.”

O escritor(a) prosseguia lamentando a dor da separação, falou de braços doloridos pela falta de um abraço, de canções de amor escritas como buscando companhia nestas longas noites de solidão. Depois, marcava um encontro: a determinada hora, no dia seguinte, eu receberia um telefonema e ouviria as canções cantadas exclusivamente para mim.

O e-mail era a introdução de uma produção jocosamente ardente e íntima de An die ferne Geliebte de Beethoven, um ciclo de canções sobre o poder da música que transcende o tempo e o espaço. Apresentado pela On Site Opera com o título Ao Meu Amado Distante, o conceito proporciona apresentações individuais interativas ao vivo por telefone até o dia 6 de julho. Os textos do dramaturgo Monet Hurst-Mendoza acrescentam um toque de extravagância contemporânea, e me convidam a alimentar a ilusão de que essa coletânea de canções escritas em 1816 se destinava pessoal, apaixonada e pandemicamente apenas a mim.

“Meu amor! É você mesmo?” Na noite seguinte, pude ouvir pelo telefone a voz da soprano Jennifer Zetlan, perplexa e emocionada. (Os que adquirem o ingresso podem escolher entre a sua interpretação, com o marido, o pianista David Shimoni, e outra do barítono, Mario Diaz- Morentrsco, acompanhado por Spencer Myer.) Eu me senti um pouco constrangida quando ela começou a me fazer perguntas. Quanto tempo passou, ela indagava, como referindo-se a uma lembrança do passado. Eu estava bem? Onde eu estava naquele exato momento?

Temia que a apresentação exclusivamente pessoal me fizesse sentir incomodada. A perspectiva trouxe de volta instantes do passado com serenatas indesejadas ao acordeão e violinistas tocando por uma gorjeta nos terraços de restaurantes europeus. E embora eu estivesse disposta a desempenhar o meu papel na conversação que tinha certo tom de flerte, estava plenamente consciente da clara advertência da On Site Opera aos detentores de ingressos para que realizassem “uma experiência artística no pleno respeito de todos”. A última coisa que eu queria era experimentar uma espécie de brincadeira que pudesse se transformar em algo assustador.

Mas embora as canções de Beethoven (com textos de Alois Jeitteles) falem da separação de amantes românticos, naquela noite soaram autênticas em um plano diferente. Enquanto eu mergulhava na minha poltrona favorita perto da janela, com o telefone colado ao ouvido, fiquei pensando que a pandemia do coronavírus havia separado músicos e amantes da música: um relacionamento alimentado por uma intensidade própria, que agora gerava uma espécie de dor fantasma. Afinal, horas antes do meu telefonema, o Carnegie Hall e o Lincoln Center haviam anunciado que permanecerão fechados até o fim do ano.

Nas canções de Beethoven, nuvens, brisas e a música em si tornam-se canais cruzando o espaço entre duas almas. Naquele momento, quando a soprano Zetlan começou a cantar, o telefone foi a linha sutil que uniu a artista e a ouvinte. O fato de o som adquirir uma pátina de estática granulada só contribuiu para tornar a música mais frágil e preciosa, e a experiência mais comovente.

De fato, o volume da voz da soprano muitas vezes soava como se estivesse espremida em um corpete apertado e o piano como debaixo d’água. Mas os resultados foram claramente graciosos contornos melódicos e rajadas de sentimentos impetuosos que conferiram a este ciclo de 20 minutos um peso operístico.

Em uma época em que a internet está repleta de lives de alta fidelidade, a produção da On Site Opera nos brinda com uma experiência musical totalmente personalizada, embora frágil e imperfeita. Os versos finais convidam o ouvinte a cantar as canções “com intensidade, autenticidade / consciente apenas da saudade”.

Desse modo, o poeta promete: a distância que nos separa / dará lugar a estas canções / e meu amoroso coração chegará até / você, tão cara para mim.

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