Cabelos brancos, pouca make e zero esmalte: como será a beleza pós-pandemia?

Scroll down to content

Influenciadoras e especialistas analisam hábitos de consumo e vaidade feminina durante isolamento social
Talita Duvanel

Ana Fonte, atriz: 'grisalhando' aos 35 anos Foto: Guilherme Nabhan
Ana Fonte, atriz: ‘grisalhando’ aos 35 anos Foto: Guilherme Nabhan

A franja da atriz Ana Fonte, de 35 anos, começou a ficar grisalha em meados de janeiro. Na época, o coronavírus parecia restrito à China, e ela nem sonhava que se isolaria em casa, em Ubatuba, no litoral de São Paulo, com o marido e a filha de 4 anos. O desejo de se libertar da tinta, usada mensalmente desde os 20, vinha de longe, mas alguma coisa em 2020, daquelas tipo resolução de ano novo, a fez ter coragem de abandonar o hábito. Algumas semanas depois, o vírus se instalou no Brasil e Ana conseguiu completar os primeiros três meses — considerados os mais difíceis de se acostumar — do processo de “grisalhar”.

Já sentia o cabelo mais sedoso e começou a curtir o que via no espelho; criou o perfil @anagrisalhando no Instagram e fez a conta “bombar”. Num processo semelhante ao da atriz, por questões econômicas, sociais ou comportamentais, muitas mulheres começaram a repensar a beleza durante a quarentena. Lá fora, esse fenômeno já ganhou um nome: JOLGO (Joy of Letting Go, algo como “alegria de deixar rolar”). Por causa da Covid-19, o “New York Times” sentenciou que a FOMO (Fear of Missing Out, medo de perder algo diante de tantos acontecimentos na vida da nossa rede de contatos) acabou para dar lugar a essa nova mania. Ou seja: se você sempre quis se libertar de pressões, a hora é essa.

“Minha rede social cresceu muito na pandemia. As pessoas estão mais dispostas a se descobrir. Muitas agradecem por eu estar retratando essa transição, outras vêm falar que não estão aguentando, que está sendo sofrido. Cada uma tem o seu tempo”, conta Ana. “Digo: ‘Segura um pouco. Depois de três meses sem pintar, se ainda não estiver feliz, não é para você’. Isso não pode ser mais um padrão imposto”, completa a atriz, que aboliu a tinta, mas não a vaidade. “Comecei a fazer coisas tipo olhar mais para a pele. Tenho tido reencontros comigo mesma em rituais de autocuidado.”

A saída do piloto automático, o redescobrimento do significado da beleza para além da estética e a conexão com o bem-estar são efeitos da pandemia percebidos de forma quase unânime por especialistas e grandes nomes do setor. “Antes, ninguém tinha tempo de dar uma quarentena ao corpo. Agora, cuidar de si própria e permitir um cabelo branco é um conceito importante”, diz o dermatologista Victor Bechara, do Rio. O médico acredita que, na dermatologia do pós-pandemia, devem-se acelerar as propostas de prevenção para além da intervenção, tipo o uso cada vez mais cedo (a partir dos 25 anos) de produtos antioxidantes. Eles ajudam a conter a ação dos radicais livres presentes nos raios ultravioletas, poluição e outros agentes estressores da vida moderna.

Dentro dessas considerações sobre estética versus conforto, num momento de tanta pressão física e emocional, comportamentos se transformam e ultrapassam determinados arquétipos. Além de millennials que estão mais conectados com movimentos on-line de discussão de padrões, há gerações mais velhas na mesma toada. É o caso da produtora de eventos Carla de Brito, de 54 anos, que abandonou o hábito de fazer as unhas e escova no cabelo semanalmente. Isso aconteceu não só porque os salões estavam fechados, mas porque “deu na telha”: “Não quero mais esse trabalho e essa despesa”. Outro exemplo é o da estilista Tondelei Morandi, de 64 anos, que deixou de pintar os fios nessa quarentena e assim pretende seguir. “A pandemia trouxe muita reflexão: o que eu realmente preciso, o que eu quero?”, questiona ela. A vice-presidente de marca da Natura, Andrea Alvares, concorda que o período ajuda na mudança de determinados paradigmas: “A Covid-19 colocou por terra escolhas inerciais, que não questionávamos”. Agora, nada é por acaso, mas fruto de algumas ponderações.

Uma das maiores influenciadoras digitais do Brasil, Camila Coutinho (2,6 milhões de seguidores no Instagram) já vinha adotando um esquema de beleza mais minimalista há dois anos. O isolamento confirmou o estilo, que pretende manter. Mesmo com uma agenda lotada de lives e parcerias, ela passou os últimos três meses com um look menos montado. Deixou o secador de cabelo de lado e abandonou de vez o gel da unha. “Recentemente, fiz uma live sem um pingo de maquiagem. Há um tempo, isso seria impossível. Hoje, na minha estética, gosto de um resultado mais natural ”, conta Camila. A pernambucana, de 32 anos, também tem incrementado os momentos de autocuidado. “Rituais de beleza são essenciais para a pessoa se curtir mais. Fala-se muito em meditar, mas me maquiar e fazer meu skincare funcionam como meditações. Meu banho é um momento sagrado. Encontrar prazer nessas coisas é importante.”

Carla de Brito: cansaço de salão Foto: Guilherme Nabhan
Carla de Brito: cansaço de salão Foto: Guilherme Nabhan

Fazer projeções no meio do furacão é difícil, mas crises passadas mostram que a indústria da beleza, se comparada com a da moda, por exemplo, sofre menos depois de períodos traumáticos, como pós-guerras e pandemias, principalmente por seu poder de reinvenção. Clotilde Perez, professora de Semiótica e Publicidade da USP, que este mês lança o livro “Há limites para o consumo?”, exemplifica dois momentos históricos para comprovar a tese: o lançamento de perfumes no pós-guerra por grandes grifes (produtos muito mais baratos do que as roupas de luxo) e a expansão da linha de esmaltes da Chanel, depois da crise de 2008. A estratégia das marcas vai ao encontro do desejo dos consumidores represados. “Num primeiro momento, veremos compras mais imediatistas, principalmente numa situação de depressão psicológica. Haverá um crescimento para aplacar nossas angústias”, diz a professora.

Dona do Instagram @bonitadepele, com quase 300 mil seguidores, a paulista Jana Rosa, de 34 anos, tem acompanhado de perto os movimentos sobre o assunto neste período em que, inegavelmente, estamos ainda mais conectados do que antes. Seu discurso vai de encontro ao de Clotilde: tem percebido que a audiência busca informação sobre novidades e rituais de beleza até como forma de diversão. “Não podemos mais ir a uma festa, a um bar, então nos dedicamos a tratamentos caseiros”, diz ela, confessando ter se surpreendido com tamanha demanda, mesmo numa crise de saúde.

Jana Rosa, do @bonitadepele: 'Não podemos mais ir a uma festa, a um bar, então nos dedicamos a tratamentos caseiros' Foto: Guilherme Nabhan
Jana Rosa, do @bonitadepele: ‘Não podemos mais ir a uma festa, a um bar, então nos dedicamos a tratamentos caseiros’ Foto: Guilherme Nabhan

A análise de gigantes da indústria mostra que, nas primeiras semanas da Covid-19, houve uma queda de interesse pelo tema — afinal, insegurança e consumo exagerado de informações sobre coronavírus ditavam o nosso fluxo de ideias. Mas, à medida que os dias foram passando, a brasileira voltou a se reconectar com outros assuntos, inclusive como forma de manutenção da saúde mental. Sendo o país o quarto maior consumidor de beleza do mundo, foi natural que o tema voltasse a ter espaço na vida das pessoas. “Beleza, para a consumidora, tem papel relacionado à autoestima. Ela entendeu que sentir-se bem nesse momento também é importante”, diz Patricia Borges, chefe de marketing da L’Oréal Brasil.

Suyane Ynaya, stylist: 'O olhar será o nosso portal de criatividade de beleza' Foto: Guilherme Nabhan
Suyane Ynaya, stylist: ‘O olhar será o nosso portal de criatividade de beleza’ Foto: Guilherme Nabhan

No entanto, não dá para esperar que o volume e a forma de consumo sejam como antes. A crise econômica é uma realidade, e o segmento, como todos os outros, será afetado. Segundo projeções da agência de tendências Euromonitor, haverá, em 2020, uma queda de 5% nas vendas de cosméticos. “A instabilidade vai forçar a cliente a ser mais assertiva, racional. Com a menor disponibilidade de renda, procurará produtos que ofereçam maior custo-benefício. Mesmo assim, muitas irão em busca de bem-estar”, diz Elton Morimitsu, consultor de beleza e cuidados pessoais da Euromonitor.

Além do preço e do conforto, outros dois fatores guiarão a beleza do pós-pandemia. O primeiro é a segurança. Uma doença que afeta milhões de pessoas no mundo acende um alerta na cabeça do consumidor. Ele precisa estar mais atento ao que coloca no corpo, seja em termos de higiene e beleza, ou alimentação. Por isso, ingredientes antissépticos e antibacterianos estão e continuarão muito presente nas fórmulas.

O segundo fator é a multifuncionalidade, que cai como uma luva na cesta enxuta de uma mulher com as finanças abaladas, como sinaliza Luiza Nolasco, uma das diretoras da empresa de pesquisa WGSN. E quem se aproveitará muito disso é o segmento de maquiagem, até agora o mais abalado pela pandemia e que já vinha, há algum tempo, otimizando os produtos. Como as máscaras de proteção não têm data para cair em desuso, o setor vai investir pesado em novidades para olhos e sobrancelhas e desacelerar a produção de batons e glosses, uma vez que não poderemos vê-los. “O olhar será o nosso portal de criatividade de beleza. Outro dia, passei gloss e esqueci que ia sair de máscara”, diz a stylist paulistana Suyane Ynaya, de 30 anos, que, antes da pandemia já andava questionando alguns paradigmas, como várias millennials. No seu caso, o da depilação: “Eu me raspo quando quero.”

Tondelei assumiu os fios brancos na pandemia Foto: Guilherme Nabhan
Tondelei assumiu os fios brancos na pandemia Foto: Guilherme Nabhan

Coexistindo com posturas conservadoras, as contestações continuarão. Quem aposta no minimalismo dividirá espaço com o desbunde. “A beleza é um vai e vem da sociedade. Há naturalidade e extravagância, movimentos que tinham oscilações históricas mais marcadas”, reflete Aline Mori, diretora de marketing de produto de O Boticário. “Agora, eles convivem mais. Enquanto nas décadas do século XX havia um determinado padrão, com o digital e a pulverização da mídia, passamos por mais realidades e contextos.”

Ao que tudo indica, a pluralidade veio para ficar.

Edição de moda: Patricia Tremblais. Produção de moda: Matheus Martins. Agradecimento: Amorphophallus

2 Replies to “Cabelos brancos, pouca make e zero esmalte: como será a beleza pós-pandemia?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: