Cineasta paulista Karoline Maia produz filme para mostrar influência da senzala no ‘quartinho da empregada’

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Durante a pandemia do novo coronavírus, a situação de empregadas domésticas no Brasil entrou no debate após relatos de profissionais que foram expostas ao vírus pelos patrões ou acabaram dispensadas sem pagamento
Por Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

A cineasta paulista Karoline Maia. Foto: Camila Izidio/Divulgação

A experiência da mãe como trabalhadora doméstica é o ponto de partida para a cineasta paulista Karoline Maia, de 26 anos, contar a história de outras mulheres como ela no documentário Aqui Não Entra Luz. O longa-metragem, atualmente em fase de montagem, faz um paralelo entre as senzalas usadas no período da escravidão com os quartos de empregada. Para concluir a produção, a diretora e roteirista organiza uma campanha de financiamento coletivo que já arrecadou cerca de R$ 100 mil.

Segundo Karoline, a ideia do filme, que terá narração em primeira pessoa, surgiu em 2016, após observar por anos o trabalho da mãe e, assim como ela, ser vítima de racismo.  No seu caso, aconteceu quando a cineasta já trabalhava no meio audiovisual e uma ex-chefe a mandou “dormir na senzala”.

Para contar as histórias, além de utilizar imagens de arquivo da própria família, a diretora percorreu cinco Estados brasileiros – São Paulo, Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais – a fim de mostrar a estrutura da casa grande no período da escravidão, até chegar aos quartos destinados às empregadas domésticas que existem nas residências brasileiras até hoje.

Durante a pandemia do novo coronavírus, a situação de empregadas domésticas no Brasil entrou no debate após relatos de profissionais que foram expostas ao vírus pelos patrões ou acabaram dispensadas sem pagamento. A primeira morte causada pela covid-19 no Rio de Janeiro, por exemplo, era uma trabalhadora que pegou o vírus após a patroa voltar de uma viagem à Itália. No mês passado, ganhou repercussão nacional o caso de Miguel, uma criança de cinco anos que foi deixada sozinha no elevador pela patroa da mãe e caiu do nono andar de um edifício em Recife (PE).  

O contexto fez com que Karoline buscasse uma forma de financiar o filme de forma independente para que ele pudesse fazer parte da discussão. Até esta segunda-feira, 6, foram arrecadados R$ 102 mil por meio de um site de financiamento coletivo. A meta é R$ 130 mil até o próximo sábado, 11.

“Vimos que o filme precisava ir para a rua logo para colaborar com essa discussão toda que está acontecendo. Enquanto a gente faz a campanha, ele já colabora de alguma forma porque muitas pessoas estão sendo tocadas por isso”, contou Karoline ao Estadão.

Na visão dela, “as últimas semanas têm escancarado muitas coisas que já existem, mas agora estamos sendo bombardeados por imagens, histórias e notícias bastante assustadoras”. “Acho que a relação que se deu durante a quarentena só é mais um sinal de como essa classe média não valoriza o trabalho doméstico, seja não dispensando a sua trabalhadora, a sua funcionária, seja dispensando ela sem remuneração. Então, tudo isso escancara muito mais um problema que já existe. Essa relação já é desigual desde sempre, já é cheia de traços colonialistas desde sempre.”

A cineasta destaca que, com o fim da escravidão, muitas mulheres negras seguiram na atividade doméstica por falta de alternativa, o que acabou se perpetuando por gerações. “Em muitas famílias é uma profissão geracional, onde a avó foi doméstica, a mãe é doméstica e a filha é doméstica. Quebrar esse ciclo nem sempre é fácil, é um processo bastante longo para algumas famílias para ter uma primeira filha em uma universidade, ou até mesmo a mãe conseguir concluir os estudos”, afirmou Karoline.

Nas peças de divulgação do filme, Karoline compartilha a figura de Laudelina de Campos Melo, fundadora do primeiro sindicato de domésticas do Brasil, em 1936, e afirma que a equipe responsável pelo filme, formada somente por mulheres, busca dar continuidade a sua luta.

“O quartinho da empregada fica sempre nos fundos da casa, ao lado da cozinha. ‘Ela é como se fosse da família’, mas espera todo mundo jantar para comer o que sobrou. Dorme depois, acorda antes”, diz um dos trechos que fazem parte da divulgação do documentário.

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