Gosto mais de pessoas imperfeitas como eu, diz Charlize Theron

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Atriz comenta guinada para filmes de ação e rejeita ideia de que diretores homens não entendem histórias de mulheres
Walter Porto

A atriz Charlize Theron, protagonista do filme ‘The Old Guard’ Divulgação

SÃO PAULO – “Quando homens fazem filmes de ação, eles não têm que se explicar. Com mulheres ainda sentimos que precisamos explicar a sua vontade de lutar, suas habilidades. Isso está mudando”, afirma a atriz Charlize Theron. “Estamos normalizando a ideia de uma mulher estar no centro de uma história de ação sem o peso de uma narrativa emocional.”

Quem diz é um dos principais rostos do cinema de pancadaria hoje. Depois de se consagrar no gênero com a imperatriz Furiosa de “Mad Max: Estrada da Fúria”, há cinco anos, Theron vem se sedimentando nesse tipo de blockbuster, produzindo e estrelando “Atômica”, inesperado sucesso de 2017, e virando figurinha carimbada da infinita série “Velozes e Furiosos”.

É um movimento que reflete não só uma guinada na carreira da atriz sul-africana, mas no próprio gênero de ação. Hoje as mulheres se libertaram de uma narrativa puramente calcada nas emoções —em laços de família, romance ou traumas do passado— e angariaram o direito de, se quiserem, ser simples brutamontes.

A personagem de Theron em “The Old Guard”, filme que estreia nesta sexta na Netflix e do qual ela é protagonista e produtora, se enquadra à risca nessa definição. Andy é uma guerreira imortal, com poder de se regenerar, que ninguém sabe exatamente de onde veio, quando nasceu ou por que diabos provoca há milênios um banho de sangue pelo mundo.

A personagem não faz questão nenhuma de ser um poço de simpatia e se esforça para manter uma boa dose de distanciamento emocional mesmo dos colegas —três lutadores com séculos de idade e uma militar novata interpretada por Kiki Layne, de “Se a Rua Beale Falasse”, que se descobre imortal no começo do filme.

Falando em 2012 à revista Interview, Charlize Theron disse que tinha atração por “personagens não necessariamente fáceis de ser amados”, um padrão no qual seu novo papel se encaixa com perfeição.

Em comentário parecido ao jornal The Scotsman, ela brincou que tinha se tornado dona de todo um mercado de personagens. “Que legado a se deixar para trás, ‘ela interpretou todas as ‘bitches’”, disse.

A atriz dá risada quando o repórter relembra essas falas. “Eu me atraio por p rsonagens complicadas porque na vida eu me atraio por pessoas complicadas. Gosto de pessoas imperfeitas. E isso tem muito a ver comigo mesma.”

É obrigatório que um perfil de Theron ofereça um pouco de sua extraordinária história de vida. Criada numa fazenda pobre na África do Sul, a menina sofreu com a morte do pai pela própria mãe, num episódio que foi entendido como legítima defesa, já que ele ameaçava a mulher e a filha.

Vinda a Hollywood depois de um período como modelo em Milão e Nova York, a jovem chamou a atenção de um agente ao fazer um escarcéu no banco quando teve seu cheque recusado. Menos de uma década depois do episódio, tinha um Oscar na estante, por “Monster – Desejo Assassino”.

“Quando vejo uma personagem perfeita num filme, eu não me relaciono com ela, porque sei que eu não sou perfeita. Estou muito mais interessada nas personagens que lutam para ser pessoas boas.”

Ela se interrompe e volta a pensar na fala antiga sobre os papéis de “bitch” —um xingamento em inglês, de caráter machista, que significa tanto a fêmea do cachorro quanto uma mulher chata ou grossa.

“Escuta, quando eu fiz essa piada, era um jeito de ser feminista, no sentido de que essa palavra é tão depreciativa para as mulheres. Se fazemos uma personagem conflituosa, menos que perfeita, viramos automaticamente ‘bitches’. E, quando um homem faz isso, ele é um herói”, diz, rindo.

“The Old Guard” é dirigido por Gina Prince-Bythewood, uma cineasta que tinha na carreira filmes com bem menos pancadaria, como o drama familiar “A Vida Secreta das Abelhas” e o romance musical “Nos Bastidores da Fama”.

Ela se sai bem no novo desafio, mas quando Theron ouve uma pergunta sobre a diferença de ser dirigida por uma mulher contra as figuras masculinas que comandaram seus outros blockbusters, dá uma resposta inusitada.

“Se você olhar os personagens e a história de ‘Mad Max: Estrada da Fúria’, muitas pessoas diriam que é um dos filmes de ação mais feministas já realizados. E foi feito por George Miller, certo?”, aponta.

“Só estou lembrando isso para dizer que, na minha experiência, essa ideia de que só mulheres conseguem contar grandes histórias de mulheres, e diretores homens não as entendem, não é verdade. Fiz um filme sobre depressão pós-parto [“Tully”] com Jason Reitman!”

“O problema é que não damos oportunidades suficientes às mulheres”, acrescenta. “Não devia ser uma questão de se elas conseguem fazer, porque isso é nonsense, mas sobre não darmos às mulheres oportunidades para contar histórias, de maneira geral.”

Ao comentar a época atual, em que o feminismo se embrenhou mais na cultura pop, a atriz afirma que “o cinema chegou tarde à festa”. “Se queremos achar que o cinema é um jeito de levantar um espelho para a sociedade, ele ainda está muito atrás do nosso tempo. Ainda não estamos nem perto da igualdade.”

“As mulheres do nosso universo são incrivelmente capazes, e fomos rebaixadas por uma indústria que quer acreditar que as pessoas não gostam de filmes de gênero com mulheres ou dirigidos por elas. E provamos o contrário. Acho que agora está bem claro que isso era só um mito.”

O último filme da atriz olhava de frente para os bastidores repulsivos desse mito. “O Escândalo”, também produzido por Theron, descortinava a rede que protegia anos de abusos sexuais perpetrados por Roger Ailes, chefão da Fox News. Pelo papel da âncora Megyn Kelly, ela recebeu sua terceira indicação ao Oscar.

“A versatilidade é um dos grandes presentes da minha carreira. Não sei se eu ficaria satisfeita se fizesse só filmes de ação, mas neles você consegue usar músculos diferentes —sem trocadilho.”

Há uma anedota ilustrativa sobre como Charlize Theron foi escolhida para viver seu papel mais marcante e sombrio, como a serial killer Aileen Wuornos em “Monster”. A escalação surpreendeu a própria atriz, que competia com gente graúda como Kate Winslet e Kate Beckinsale, e ela foi perguntar o motivo à diretora Patty Jenkins.

“Olhei para você e olhei para as outras”, afirmou a cineasta. “E disse para mim, eu consigo chutar a bunda das outras atrizes. A sua, não tenho tanta certeza.”

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