Série ‘Feito em Casa’ da Netflix vai da graça ao tédio ao falar sobre isolamento

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Não se almeja nada mais profundo nem grandes reflexões sobre o outro
Luciana Coelho

Cena de ‘Feito em Casa’, da Netflix Divulgação

A Netflix reuniu 17 cineastas em ascensão em quatro continentes, todos confinados, com a proposta de filmar a quarentena em curtas-metragens caseiros que oscilam entre o fascinante e o modorrento.

Como registro histórico de tempos imprevisíveis, entretanto, “Feito em Casa” é precioso.

Composta como painel, a antologia provoca as mesmas emoções que o confinamento pelo coronavírus impingiu a centenas de milhões —do riso histérico à angústia, da ansiedade à ternura, passando, vezes demais, pelo tédio.

São filmetes intimistas de quatro a 11 minutos, não raro com a família do autor como equipe de produção ou elenco e a janela de uma videochamada como recurso principal.

Não se almeja nada mais profundo nem grandes reflexões sobre o outro. Não há em nenhum dos capítulos a quarentena dos pobres. Falam aqui para as classes média e mais altas que a Netflix tem como público, em busca da identificação como conector de nossos isolamentos.

O resultado é dúbio. Os cineastas que se saíram melhor foram os que apostaram no humor e produziram uma historieta, fugindo de falar de si. Assim o fizeram o chileno Pablo Larraín, idealizador da antologia, e o italiano Paolo Sorrentino, de “O Jovem Papa”, cujos episódios se destacam, seguidos pelo da indo-queniana radicada em Londres Gurinder Chadah.

Larraín conta a história de um velho que passa a quarentena relembrando seu passado amoroso graças ao advento da videochamada. O resultado é hilário, sobretudo pelas interpretações dos atores Jaime Vadell e Mercedes Morán.

Sorrentino usa bonequinhos flanando por sua casa em Roma para imaginar como seria um encontro entre o papa Francisco, a rainha Elizabeth e o “dude”, personagem do filme “O Grande Lebowski”, numa quarentena inusitada. Produziu uma pequena fábula surrealista, cheia de provocações agridoces.

Documentarista, Chadah (que se tornou conhecida do público com “Driblando o Destino”, sobre uma garotinha louca por futebol) filma a rotina com os filhos gêmeos de 12 anos e o marido. Despretensioso e cheio de humor, seu relato é o que mais causa empatia —afinal, o sentimento mais simbólico desta quarentena, ao menos o único permitido para aplacar a raiva e o medo.

Mais difícil foi extrair poesia da rotina, como tentaram a americana Rachel Morrison, em Los Angeles, que declama suas esperanças para o filho, e o chileno Sebastián Lelio, que faz um pseudomusical satírico. A britânica Ana Lily Armirpour, também em Los Angeles, troca sua estética sombria por algo solar e consegue um trunfo —a narração de Cate Blanchett. Blanchett, sabemos, é estupenda até declamando bula de remédio. São os que valem.

Na lista há outros nomes conhecidos —as americanas Maggie Gyllenhaal (que conta com o marido, Peter Sarsgaard, em cena) e Kristen Stewart, ambas falando de angústia, o malinês Ladj Ly (“Os Miseráveis”) e a libanesa Nadine Labaki (“Caramelo”), com o prosaísmo do cotidiano.

E também os menos famosos —a zambiense Rungano Nyoni, em Lisboa; a mexicana Natalia Beristain; o alemão Sebastian Schipper; a japonesa Naomi Kawase; o escocês David Mackenzie; o americano Antonio Campos e o chinês Johnny Ma, no México.

Não há brasileiro entre os autores reunidos, embora a quarentena no país, que em seu peculiar grau de restrição beira os quatro meses, seja das mais longas do mundo.

A antologia ‘Feito em Casa’ está disponível na Netflix.

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