Djamila Ribeiro comemora sucesso na academia e fora dela e não descarta carreira política: ‘Pode ser que, daqui a alguns anos, eu me interesse’

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Filósofa viu dois de seus três livros ocuparem, simultaneamente, a lista semanal dos mais vendidos
Eduardo Vanini

Macacão Diane Von Furstenberg, sandálias Alme, brincos HStern, anéis e bracelete, todos Sauer Foto: Thiago Bruno

Uma das autoras mais vendidas do Brasil nas últimas semanas vai tirar 15 dias de férias ao longo deste mês. Mas isso não significa que ela estará ausente. Já faz um tempo que as palavras da filósofa Djamila Ribeiro ecoam pelo mundo como se tivessem vida própria. “Participei, no ano passado, da Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, em Belém, e fui convidada para visitar uma escola no bairro Terra Firme, um dos mais violentos da cidade. Ao chegar lá, havia cartazes com frases dos meus livros, e as meninas, a maioria negra, fizeram tipo um sarau, em que liam trechos. Nesse momento, pensei: ‘Nossa! Olha onde o meu trabalho chegou!’. Era isso que eu queria.”

O ano de 2019, ainda livre da pandemia do novo coronavírus, foi preenchido, do começo ao fim, por episódios do tipo na carreira dessa santista que faz 40 anos no próximo mês. Tanto que ela tem na ponta da língua o número de eventos que tomaram a sua agenda: precisos 174, no Brasil e no exterior. O roteiro incluiu palestras nos Estados Unidos, lançamentos de livros na França e na Bélgica e um prêmio internacional. Em dezembro, Djamila viajou até Amsterdã, onde foi uma das laureadas pelo Prince Claus Awards. Concedido pela monarquia holandesa, a honraria reconheceu a importância de seu trabalho para a democratização do conhecimento. “Foi um choque estar naquele lugar, com pessoas de várias partes do mundo, sendo a única brasileira”.

Ao retornar da premiação, porém, a conta de uma rotina tão intensa chegou, na forma de estafa. “Fiquei muitíssimo cansada. Fui ao médico, e ele me recomendou descansar. Tirei 20 dias off e viajei com a família”, detalha ela, que vive em São Paulo com o companheiro, o advogado e jornalista Brenno Tardelli, e a filha Thulane, de 15 anos, fruto de seu primeiro casamento.

Desde então, Djamila tem se esforçado para fugir da exaustão. Faz tratamentos alternativos, como o uso de florais e óleos essenciais, e não abre mão da tal pausa de 15 dias. “Estou num momento de cuidar de mim. Apesar de que, nas últimas semanas, tenho trabalhado bastante”, pondera, ao entregar que os meses de isolamento social não deixaram a rotina puxada do ano anterior para trás.

Basta rolar o feed da filósofa no Instagram para perceber o quanto ela tem sido presença constante nas lives que inundaram as redes sociais. Além disso, quem circulava pelo perfil do ator Paulo Gustavo, na mesma plataforma, também encontrava com Djamila, que ocupou a conta dele no mês passado, promovendo uma série de reflexões sobre racismo. “Foi muito interessante dialogar com as milhões de pessoas que o seguem e, ao mesmo tempo, não estão acostumadas a esse debate. Houve quem não gostasse, mas faz parte. A (autora portuguesa) Grada Kilomba me ensinou algo que mudou a minha perspectiva. Para que perder tempo com as vozes do passado? Devemos dialogar com as vozes do presente que querem construir um futuro novo”, diz ela, que também ocupa, este mês, o Twitter da atriz e cantora Cleo.

Não por acaso, a filósofa amplia cada vez mais os seus canais. Ela lançou, recentemente, a plataforma de cursos on-line “Feminismos plurais”, um desdobramento da coleção homônima, da qual é coordenadora, dedicada à publicação de livros a preços acessíveis, em parceria com a editora Pólen. Até o momento, foram publicadas oito obras, reunindo autores negros como Juliana Borges e Silvio Almeida, além a própria Djamila. Junta-se a isso o trabalho como professora da PUC-SP e o projeto de um livro voltado a pais e educadores, no qual espera inspirar uma educação antirracista a partir de experiências vividas com sua mãe e sua avó.

Em meio aos debates acentuados com o assassinato de George Floyd pela polícia nos EUA e o movimento “Vidas Negras Importam”, que no Brasil encontrou ecos também na violência policial e em casos de racismo estrutural, a autora viu dois de seus três livros ocuparem, simultaneamente, a lista semanal dos mais vendidos do portal Publish News. “Quem tem medo do feminismo negro?” e “Pequeno manual antirracista” entraram no ranking de não-ficção, no mês passado, sendo que o último apareceu na primeira posição mais de uma vez. “É um feito histórico”, comemora, mencionando o fato de ser uma escritora negra de não-ficção. “É importante frisar isso porque, às vezes, somos convidadas a falar sobre a questão racial, mas também é fundamental comentarmos nossas vitórias. Precisamos estar num lugar onde não falamos apenas da dor, mas também das conquistas. Sou hoje uma mulher vinda da classe trabalhadora, que entende a construção coletiva e consegue ser uma autora de best sellers, com os livros traduzidos para o francês, o italiano, o espanhol.”

Parte do sucesso editorial vem da combinação de um texto claro com uma “enorme sensibilidade para o debate público”, como destaca Ricardo Teperman, editor da Companhia das Letras, que publicou os dois livros presentes no ranking. “É uma mulher brilhante. Consegue produzir mesmo com toda a agenda de uma pessoa ocupada.”

Diante de conquistas como o prêmio Prince Claus, Djamila costuma pensar em como seria a reação de seus pais, caso ainda fossem vivos. Afinal, eles abriram os caminhos para que a caçula de dois irmãos e duas irmãs chegasse tão longe. A mãe Erani saiu de Piracicaba, no interior de São Paulo, aos 18 anos, para trabalhar como doméstica na capital, até que, num carnaval, conheceu Joaquim José, com quem se casou. Estivador no Porto de Santos e militante do movimento negro, ele, ao lado da mulher, fez questão de introduzir os filhos nas discussões sobre o racismo e incentivava o contato com os livros desde cedo. Por esse motivo, Djamila tornou-se leitora fluente aos 5 anos. “Meu pai também sempre nos levava a teatros, onde nos dizia: ‘Olhem para o lado e digam quantos negros têm aqui’. Respondíamos: ‘Só a gente, pai, pela milésima vez’. Ele, continuava: ‘É por isso que precisam estudar’”, recorda-se a filósofa.

Ela seguiu o conselho à risca, mesmo diante das adversidades. Ao dar luz à Thulane, quando tinha 24 anos, precisou trancar a faculdade de Jornalismo. “Foi muito duro. Por mais que gostasse de ser mãe, não era o que queria para a minha vida”, desabafa. Então, dois anos depois, decidiu cursar Filosofia no campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Guarulhos. “Sofri muita pressão, como se ser mãe fosse algo que me impedisse de seguir com a minha vida como indivíduo. Houve muitas noites de choro, mas resolvi bancar. Foi a melhor escolha.”

Djamila começou a interferir na ordem das coisas já na vida acadêmica. Seu orientador no mestrado, o professor do curso de Filosofia da Unifesp Edson Teles, destaca ter aprendido sobre muitas pensadoras negras justamente durante o desenvolvimento da tese da aluna. “Por meio dela, conheci (a historiadora) Beatriz Nascimento, que incorporei ao conteúdo das minhas aulas”, ilustra. Hoje, Edson observa com gosto a comoção causada por cada visita da filósofa à universidade. “As estudantes a tem como um exemplo de alguém que passou por ali e atingiu outra esfera.”

Apesar do vínculo com o universo acadêmico, Djamila diz ter aprendido com as feministas negras a importância de falar sobre assuntos tão profundos de maneira clara. “As pessoas  precisam nos compreender. Não é uma linguagem para a manutenção do poder, mas para que tenham acesso a teorias e leituras emancipatórias.” Justamente por essa característica, ela ganhou a admiração de nomes como as atrizes Taís Araujo e Camila Pitanga. As amigas chegaram a montar uma espécie de curso particular, no qual a filósofa dava aulas quinzenais para um grupo de mulheres, no Rio. “É comum os acadêmicos terem uma coisa bem elitista, que é manter o conhecimento entre eles. Ela atravessa isso. Fala com a academia e traduz tudo para o povo. Isso é muito generoso”, elogia Taís, ao passo que Camila relembra o sucesso dos encontros, realizados em sua casa. “Começou do meu desejo de estudar o feminismo. Mas, ao amadurecer a ideia, entendi que seria tão mais bonito se, em vez de algo direcionado a mim, pudesse ampliar para mais mulheres. Vingou. Tivemos aulas lotadas.”

Pelo mesmo motivo, a filósofa também virou rosto conhecido na televisão, ao participar de programas como “Amor e sexo”, da TV Globo, e “Saia justa”, do GNT, que tem em sua integrante mais antiga, Astrid Fontenelle, outra entusiasta de Djamila. “As pessoas enlouquecem com ela. Respeitam o seu conhecimento e enaltecem a sua beleza. Ela tem uma comunicação direta e carisma”, diz Astrid.

A beleza citada pela apresentadora é um ponto de interesse em meio à rotina da escritora. Tirar as tranças — que ela adora — para este ensaio foi uma experiência. “É um momento de olhar para o meu cabelo e cuidar dele, numa relação de afeto”, diz. “As mulheres negras têm essa versatilidade. Quero ousar mais. Posso ficar com ele natural, usar uma lace.”

Ainda sobre o assunto, Djamila afirma já ter sido questionada sobre a maneira como se relaciona com a aparência. “Algumas pessoas perguntam: ‘Nossa, mas você é mestre em filosofia, escritora e gosta de maquiagem?’. Respondo que essa é uma visão ocidental, não é a minha visão de mundo. Podemos ser várias coisas ao mesmo tempo, e sentir-me bonita é algo de que gosto. Mas não sou escrava disso. Tem fotos em que você vai me ver sem maquiagem, tranquila, e outras onde apareço superproduzida”, comenta, associando o comportamento a algo muito latente no candomblé, religião na qual foi iniciada pela mãe, aos 8 anos. “Usamos muito a encruzilhada. Podemos ser uma coisa e outra.”

A citação nos leva até o seu babalorixá Rodney William. Segundo ele, a filósofa guarda na maneira como conduz o seu trabalho muitas características de seu orixá, Oxóssi. “Ele é um grande estrategista e tem o título de rei do gueto. Acho que ela consegue traduzir isso em sua ação quanto intelectual, como alguém que pode e deve interferir na realidade, sobretudo na superação de injustiças.”

Não é de se estranhar, portanto, que Djamila seja frequentemente sondada para a carreira política, convites que, até o momento, têm sido recusados. “Pode ser que, daqui a alguns anos, eu me interesse. Muitas pessoas me procuram, de fato, e respondo: ‘Será quando tiver que ser, algo para construirmos juntos’”, diz.

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