‘I May Destroy You’: série de Michaela Coel escancara traumas de um estupro e redefine a forma de retratar o tema na TV

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Série mais comentada e aclamada do momento mostra o que acontece quando uma mulher tem seu direito ao consentimento negado
Olivia Petter, do Independent

Michaela Coel assina o roteiro, a direção e protagoniza “I May Destroy You”, série baseada em sua própria experiência com violencia sexual Foto: Divulgação/HBO

[CONTÉM SPOILERS] Em 2016, Michaela Coel estava com prazo apertado para entregar o roteiro da segunda temporada de sua popular sitcom “Chewing Gum”. Ela estava trabalhando até tarde e decidiu fazer uma pausa para clarear a cabeça, encontrando um amigo para uma bebida. Depois, Coel voltou ao escritório onde trabalhava. Mas várias horas depois, ela começou a experimentar flashbacks, percebendo rapidamente que havia sido drogada e violentada sexualmente. Alguns anos depois, a experiência angustiante se tornou a inspiração para a série “I May Destroy You” que desde sua estreia tem provocado debates nas redes sociais sobre como falamos sobre consentimento, sexualidade e violência sexual. Uma produção original da BBC One, no Brasil a série está disponível na HBO Go.

Escrita e co-dirigida por Coel, “I May Destroy You” é tão sarcástica quanto angustiante. Parte suspense criminal, parte estudo sobre amizade e trauma, a série segue a história de Arabella (Coel), uma autora famosa no Twitter que luta para concluir seu segundo livro após sua estreia aclamada.

Em 12 episódios, Coel habilmente destaca questões que raramente vemos na tela. Como quando o amigo de Arabella, Kwame (Pappa Essiedu), transa com uma mulher branca que fetichiza homens negros, ou quando seu outro amigo, Terry (Weruche Opia), tem um encontro com um homem que depois revela que é transgênero. Há ainda uma cena em que Arabella faz sexo durante o período menstrual e seu parceiro encontra um coágulo de sangue na cama. A série também é liderada por um elenco quase inteiramente negro, o que levou o programa a ser elogiado por revolucionar como a raça se reflete na tela.

Mas onde a genialidade de Coel realmente vem à tona é quando ela escreve sobre agressão sexual e consentimento – temas que formam o nexo do programa – enquanto Arabella tenta entender o que aconteceu com ela e, crucialmente, o que acontece a seguir.

As circunstâncias que cercam o estupro de Arabella são complexas. E não apenas porque ela não consegue se lembrar delas – algo que os psicólogos dizem ser muito comum para vítimas de trauma. Sabemos desde cedo que Arabella foi atacada por um estranho. “Essa não é a experiência que a grande maioria dos sobreviventes de violência sexual tem”, diz Kyra Jones, uma sobrevivente de agressão sexual de 27 anos e roteirista de Chicago. De fato, de acordo com a organização de combate à violência sexual  RAINN (Rede Nacional de Estupro, Abuso e Incesto), é estatisticamente mais provável que o agressor seja alguém conhecido da vítima, com violações por estranhos representando cerca de 7% dos casos.

“Geralmente, quando vemos a violência sexual retratada na cultura popular, é uma situação super-unidimensional e incomum: um cara assustador pula de trás de um arbusto à noite e ataca uma mulher”, diz Jones.

Essa não é a história de Arabella. Por outro lado, está implícito que o atacante é um estranho com quem ela estava bebendo mais cedo naquela noite. Além disso, Arabella foi deixada por amigos na noite em que foi estuprada. É esse grau de nuance que pode fazer com que a escrita de Coel pareça mais um comentário social do que um roteiro de TV, porque destaca como a violência sexual nunca é tão direta.

Arabella (Michaela Coel) e Terry (Weruche Opia) em cena de "I May Destroy You" Foto: Divulgação
Arabella (Michaela Coel) e Terry (Weruche Opia) em cena de “I May Destroy You” Foto: Divulgação

A típica vítima de estupro não existe

Não existe experiência típica de agressão sexual, é claro, nem existe um sobrevivente típico – um ponto que Coel retrata com a dissonância cognitiva de Arabella. Ela é notavelmente fria ao fazer seu depoimento na delegacia, desmoronando apenas brevemente ao ser interrogada pelos policiais. E realmente não a vemos quebrar de novo porque, na maioria das vezes, ela tenta diminuir seu trauma repetindo afirmações simples, como “há crianças com fome” e “nem todo mundo tem um smartphone”.

Isso reflete a confusão de superar o trauma, diz a escritora e sobrevivente de agressão sexual Madeleine Black. “Eu me identifiquei com muitos aspectos do comportamento de Arabella”, diz ela. “Depois que fui estuprada, passei a maior parte do tempo minimizando o que havia acontecido e tentando esquecer, afastando o estupro da minha mente. Mas ele tem que sair de alguma forma. E isso eventualmente acontecer.”

Quando Arabella fala sobre o estupro, ela o faz com muita naturalidade, de maneira que às vezes choca outros personagens. Isso ressoou para Faye, 27 anos, que foi estuprada em uma viagem de mochila na Austrália. Dois meses depois, ela voltou a viajar sozinha na Nova Zelândia. “Sou muito franca sobre o que aconteceu comigo e isso definitivamente chocou as pessoas no passado”, diz ela.

“Uma vez alguém me disse: ‘Você não fala sobre estupro como uma pessoa que foi estuprada'”. White explica que há uma expectativa de que os sobreviventes se comportem como conchas e se fechem para quem eram antes. “É isso que estamos acostumados a ver nos dramas de TV. Mas o ataque afeta as pessoas de maneiras diferentes.”

Arabella (Michaela Coel) em cena de "I May Destroy You" Foto: Divulgação
Arabella (Michaela Coel) em cena de “I May Destroy You” Foto: Divulgação

Confusão sobre consentimento

Coel captura como as agressões afetam de maneira diferente pessoas diferentes com a trama de Kwame, que é estuprado por um homem que conheceu na Grindr quase imediatamente depois de terem feito sexo consensual. Kwame é muito menos aberto sobre o que aconteceu com ele, contando a poucas pessoas, enquanto Arabella encontra consolo ao usar as mídias sociais para falar sobre seu estupro. Ele também enfrenta mais escrutínio ao relatar seu ataque do que Arabella, com oficiais demonstrando desconfiança e confusão em relação a ele, enquanto mostram sua bondade e empatia a ela.

“Muitos sobreviventes do sexo masculino sentem que o estupro é algo que só acontece com as mulheres”, explica Alex Feis-Bryce, sobrevivente de agressão sexual e CEO da Survivors UK, uma instituição de caridade dedicada a apoiar homens que foram estuprados.”O fato de a série examinar a história de Arabella ao lado do estupro de um homem é extremamente importante e ajudará a mostrar aos homens que passaram por algo semelhante que não estão sozinhos.”

As circunstâncias que cercam o estupro de Kwame também são importantes: ilustram a confusão comum sobre o que é consentimento. Só porque Kwame concorda com entusiasmo em fazer sexo com esse homem uma vez, isso não significa que ele não pode retirar o consentimento mais tarde. “Uma experiência como essa pode fazer com que um sobrevivente se culpe e queira esquecer qualquer lembrança”, diz a The Survivors Trust, uma organização britânica de serviços especializados de apoio à vítimas de estupro e abuso sexual.

Ainda que Kwame e Arabella denunciem seus ataques à polícia (apenas cerca de 15% das pessoas que sofrem violência sexual fazem isso) a série não se concentra em nenhum deles encontrar justiça. Isso é fundamental para a verossimilhança de “I May Destroy You”, porque a realidade é que a justiça não é estatisticamente o resultado usual para os sobreviventes de agressão sexual: os números mais recentes mostram que apenas 1,7% dos estupros relatados na Inglaterra e no País de Gales resultaram em processo no ano passado.

Uma nova forma de retratar a violência sexual

Tudo isso prova porque “I May Destroy You” é uma série tão necessária. Especialmente quando você considera há quanto tempo a cultura popular usa a violência sexual como um dispositivo de enredo gratuito. Veja “Game of Thrones”, que freqüentemente usava estupro como parte de um arco dramático da história. Ou a primeira temporada de “13 Reasons Why”, que incluiu cenas gráficas repetidas de estupro e foi acusada de banalizar a conexão entre a violência sexual e o suicídio. A maioria dos programas que contêm estupro e agressão agora incluem avisos de gatilho no início dos episódios. Mas isso realmente justifica o uso de tal violência gráfica? E quão válido é o argumento que escritores e atores de TV costumam usar para defender representações prejudiciais de estupro, que é o de combater o estigma e suscitar conversas importantes?

Os benefícios de ver um estupro na tela dependem inteiramente de como isso é feito, explica Andrea Simon, chefe de assuntos públicos da EVAW. “Tomar a violência sexual como uma forma de entretenimento apenas causa enormes danos culturais à nossa sociedade”, diz ela. “Muitas vezes vemos mitos de estupro prejudiciais reforçados, por exemplo, como ‘estupro real’ é cometido por um estranho com uma arma e, às vezes, é ‘provocado’ por mulheres que se vestem de uma certa maneira ou bebem demais. Isso alimenta a visão de todos sobre quem é visto como uma vítima ‘real’, quem é o autor e, consequentemente, quais casos são processados e obtêm uma condenação, mesmo que casos sejam relatados em primeiro lugar.”

Está claro desde o início que “I May Destroy You” não está usando o estupro apenas como uma ferramenta de trama. Em vez disso, explora as várias maneiras pelas quais continuamente entendemos e desculpamos a violência sexual. Considere a educação sexual que você nunca teve, exceto pelo fato de que Coel ensina ao espectador mostrando, em vez de contar.

Não é de se admirar que os críticos tenham elogiado tanto a série. “Quando um programa de TV popular que tem amplo alcance e apelo aproveita a oportunidade para aumentar a conscientização e a compreensão do abuso sexual, ele tem um potencial muito positivo e até preventivo”, diz um porta-voz da Rape Crisis.

“As perspectivas, histórias e vozes reais dos sobreviventes precisam estar no centro dessas narrativas se quisermos nos afastar de estereótipos prejudiciais, melhorar a empatia e a compreensão e, finalmente, reduzir e prevenir a violência e abuso sexual a longo prazo.”

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