Helena Bertho: “É importante monitorar o direito ao aborto sempre, inclusive na pandemia”

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Diretora de redação da Revista AzMina, a jornalista está na linha de frente da notícia cobrindo exclusivamente as questões que tocam a vida das mulheres
NATACHA CORTÊZ

Helena Bertho (Foto: João Bertholini)

Desde que o novo coronavírus fez seus primeiros casos no Brasil, a Revista AzMina enveredou suas pautas para a cobertura exclusiva de gênero na pandemia. Todo o trabalho a partir de então tenta responder como estão as mulheres na maior crise sanitária e econômica que assola o mundo nos últimos cem anos. A primeira preocupação da riopardense Helena Bertho, 32 anos, diretora de redação da publicação (também uma organização sem fins lucrativos) foi com o funcionamento dos serviços de aborto legal em seu país – assunto que ela cobre, de forma persistente, desde os primeiros anos como repórter.

No dia 26 de março, quando o Pérola Byington, principal hospital no atendimento de aborto legal do país, interrompeu por tempo indeterminado a realização do procedimento, Helena noticiou em primeira mão. No dia 22 de abril, na véspera da votação no Supremo Tribunal Federal da ação que garantia o direito ao aborto para mulheres vítimas do zika vírus, ela publicou uma entrevista com a antropóloga Debora Diniz, autora do livro “Zika, do sertão nordestino a ameaça global” (Editora Civilização Brasileira) e uma reconhecida pesquisadoras sobre o tema, atuação que a obrigou a viver no exterior após sofrer ameaças. Em 13 de maio, a jornalista contou a história de um grupo de brasileiras que estavam com viagem marcada para interromper legalmente a gestação na Colômbia, mas foram impedidas pelo fechamento das fronteiras.

O compromisso com o tema ficou tão forte no trabalho de Helena que ele chegou a incomodar a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Governo Bolsonaro, Damares Alves. Declaradamente pró-vida, Damares abriu denúncia contra AzMina por conta da reportagem “Como é feito um aborto seguro?”, de 18 de setembro de 2019, assinada por Helena. “Isso porque reunimos e organizamos informações sobre aborto seguro da maior autoridade em saúde no mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Fizemos o que o bom jornalismo manda: serviço público com as melhores fontes de informação disponíveis. Tratamos a interrupção de uma gestação no campo a que ela pertence e como é encarada nos países desenvolvidos: como assunto de saúde pública. O direito d’AzMina de informar está garantido pela liberdade de imprensa e previsto na Constituição brasileira. E é essencial para o funcionamento da democracia. Não cometemos nenhum crime. Mas aborto ainda é tratado como uma questão moral e criminal”, diz ela.

Além de sofrerem a denúncia por parte da ministra, Helena e AzMina foram alvo de ataques massivos nas redes sociais. Ataques que se desdobram até hoje. Por outro lado, o caos rendeu tanto à jornalista quanto ao veículo o apoio da imprensa livre, e de plataformas como o Twitter, que se manifestou dizendo que o conteúdo sobre aborto não deveria ser excluído da plataforma não só por não violar suas políticas, mas por ser informação de utilidade pública.

Toda a situação levou Helena a depor na Comissão Interamericana de Direitos Humanos em uma audiência contra o governo por ataques à imprensa ocorrida no Haiti em março deste ano. “Insisto em cobrir aborto porque é um direito básico da que é violado em nosso país. Poder escolher quando e como ter filhos está na base de todas as outras escolhas que a mulher pode fazer. E até nos casos em que esse direito é permitido por aqui, ele vive sob ataque. É importante monitorar isso o tempo todo, inclusive em uma situação de pandemia”, conclui a jornalista.

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