Neil Gaiman, obsessivo autor de ‘Sandman’, já ameaçou se matar por cena com boquete

Neil Gaiman é um artista tão multifacetado que desafia qualquer rótulo de jornalista preguiçoso
Walter Porto

Ilustração de Chris Riddell para nova edição de “Coraline”, de Neil Gaiman Divulgação

Passeia dos contos sensíveis de “Coisas Frágeis” ao épico intrincado de “Deuses Americanos”. Vai de uma saga em quadrinhos perturbadoramente existencial —“Sandman”, que o consagrou nos anos 1980— à mais assustadora literatura infantil —caso de “Coraline”, que acaba de ser catapultado de volta às listas de mais vendidos por uma nova edição da Intrínseca.

Uma das poucas recorrências assertivas na sua obra é o fantástico, que permeia a história da menina que descobre um mundo paralelo atrás de uma porta de casa, dominadoo por uma versão arrepiante de seus pais, com botões no lugar dos olhos.

Aqui está um escritor que valoriza a liberdade absoluta, e o repórter pergunta se tem algum lado ruim em nunca haver se assentado num gênero determinado.

“A coisa é que não entendo por que qualquer pessoa faria isso”, diz Gaiman, por telefone, de bate-pronto. “Não entendo quem faz a mesma coisa de novo e de novo porque tem sucesso comercial. Não mais que entendo alguém que gosta de batata assada e come batata assada toda noite pelo resto da vida.”

Gaiman se afasta cada vez mais de uma dieta exclusiva de tubérculos. Nos últimos anos, ele intensificou seu envolvimento com séries de TV —aquelas que se baseiam em seus livros têm se multiplicado tanto que estão quase virando um filão próprio.

neil gaiman com cabeça apoiada na mão
O escritor Neil Gaiman, que relança o sucesso infantojuvenil “Coraline” pela Intrínseca – Rozette Rago/The New York Times

O nível de ingerência do autor britânico nessas adaptações não foi sempre o mesmo, entretanto. Se em “American Gods”, criada por Bryan Fuller e Michael Green, ele atuou na função mais lateral de produtor-executivo, na minissérie “Good Omens”, Gaiman escreveu cada um dos seis episódios.

O autor suspeita, aliás, que foi por causa do sucesso dessa série que “as pessoas estão dando ouvidos” a ele agora.

“Em ‘American Gods’, às vezes me ouviam, às vezes não. Se eles tivessem uma ideia, iam em frente mesmo se eu dissesse algo”, lembra. “Eu tinha de trabalhar duro para impedir que virasse algo de que não gostava. No primeiro episódio, impedi que Shadow [o protagonista] recebesse um boquete no túmulo da sua mulher. Eu disse, ‘se você fizer isso, eu vou me matar, eu vou sair daqui, me jogar no meio dos carros e deixar um bilhete dizendo que foi por isso’.”

O escritor ganhou o respeito do meio televisivo, segundo sua impressão, depois de mostrar que entendia de adaptações ao levantar do zero “Good Omens” para a Amazon e a BBC —o que, a propósito, só fez por insistência de Terry Pratchett, coautor do livro, morto há cinco anos.1 4

Good Omens

Aziraphale (Michael Sheen) e Crowley (David Tennant), personagens da série "Good Omens”
Aziraphale (Michael Sheen) e Crowley (David Tennant), personagens da série “Good Omens” Reprodução

Esse impulso de respeito veio a calhar, agora que é a vez de sua obra mais reverenciada ganhar as telas. “The Sandman” tem previsão de estrear na Netflix em 2021, mas ainda se sabe muito pouco sobre a produção. Gaiman conta ter ajudado a escrever o piloto e estar “trabalhando de perto” com o criador, Allan Heinberg.

Uma adaptação diferente da mesma série está saindo do forno, aliás. No último dia 15, uma versão em áudio da história de Morpheus chegou à plataforma Audible, um trabalho de que Gaiman diz se orgulhar —ele foi diretor criativo e empresta sua voz como narrador. Mas atenção –não é um mero audiolivro, e sim uma recontagem dramática da história, com atores de peso como James McAvoy, como o protagonista, Riz Ahmed, Michael Sheen e Andy Serkis.

É curioso que, quase ao mesmo tempo, estejam em produção duas versões distintas de uma série tão audaciosa que era considerada inadaptável.

“Eu gostava de escrever histórias em quadrinhos, no começo, porque era um tipo de mídia que as pessoas confundiam com um gênero”, conta o autor. “Então ninguém se preocupava com o que eu fazia, desde que ainda fosse ‘Sandman’. Eu ia mesclando gênero atrás de gênero e ninguém nunca reclamava.”

Não faltaram tentativas fracassadas nas últimas décadas. Gaiman contou ao New York Times que, nos anos 1990, ele bateu na porta da Warner pedindo que não fossem adiante com o longa-metragem de “Sandman” que estavam preparando. “Ninguém nunca entrou no meu escritório para pedir que eu não fizesse um filme”, respondeu a executiva do estúdio.

Agora a coisa mudou de figura. Quando o escritor ouve uma pergunta sobre o porquê de buscar esse envolvimento maior nas suas adaptações —se é por um lado controlador ou por um fascinado com a reinvenção de seus livros em outras mídias— ele hesita por 18 segundos antes de responder.

“Meu trabalho em algo como ‘Sandman’ é garantir que não vire algo que não é ‘Sandman’. Há 100 milhões de pessoas no mundo que ficariam chateadas se isso acontecesse. É meu trabalho traçar essa linha.”

Muitos desses leitores ávidos estão no Brasil, e Gaiman sublinha diversas vezes durante a conversa seu carinho pelo primeiro país não anglófono a publicar o quadrinho, três décadas atrás.

Sua última vinda ao país, em 2008, foi num dos episódios mais anedóticos da Flip, em Paraty. Mais de mil pessoas fizeram fila para pegar seu autógrafo depois da mesa de que participou.

Ele lembra que o tcheco Tom Stoppard, a outra grande estrela daquela edição, veio até ele dando risada e comentando que as outras filas do evento tinham reunido “umas 20 pessoas”, enquanto ele conversou com fãs por mais de cinco horas.

neil gaiman cercado de pessoas
Neil Gaiman deu autógrafos durante mais de seis horas na Flip de 2008 – Rogério Cassimiro – 04.jul.2008/Folhapress

“Minha grande frustração nos últimos 12 anos foi tentar voltar aí e não poder. Quero muito ir com Amanda [Palmer], minha mulher, mas fica difícil quando você é casado, e mais ainda agora que viajar está complicado.”

Gaiman começou a conversa, aliás, lamentando “os tempos tão duros” que o Brasil vive. Quando começou a pandemia, o escritor estava na Nova Zelândia, um país onde a primeira-ministra, Jacinda Ardern, foi “incrivelmente sensata e eficiente, e agora não tem mais um problema de Covid lá”. (Pouco depois, o escritor voltou para sua casa na Escócia, onde passou três meses em lockdown.)

“Aqueles como Trump, Boris Johnson e o seu cara [Bolsonaro], que levaram isso como uma questão pessoal, pondo a política acima das vidas das pessoas, não se deram bem. E pessoas que não precisavam ter morrido morreram.”

A pandemia coincide com um momento em que “estão politizando coisas que pareciam impossíveis de politizar”, comenta ele, e em que as pessoas tendem a “acreditar nas coisas que reforçam aquilo em que elas já acreditam”.

E o efeito da quarentena, diz ele, se limita em deixar todo mundo mais rabugento. E em dificultar o trabalho de escritores, preocupados demais com a vida real, em criar ficção.

Gaiman, por seu lado, não mostra disposição alguma em pisar no freio criativo. “Não vou estar nesse planeta por muito tempo. Tenho quase 60 anos. E a única coisa que eu sei sobre o tempo é que ele se move num piscar de olhos”, diz. “E tem tanta história que eu ainda não contei, em tantas mídias. Vai ser muito triste se eu morrer. São bons mesmo, esses livros que eu não escrevi.”

Off White | Spring Summer 2020 Full Show | Menswear

Off-White | Spring Summer 2020 by Virgil Abloh | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/1080p/Multi Camera – PFW/Paris Fashion Week Men’s)

Front Left – Kyle Geiger / July 24 / 8pm-9pm

Front Left – Kyle Geiger / July 24 / 8pm-9pm

‘I may destroy you’: a série que quebra padrões

Michaela Coel (Foto: Divulgação)

Arabella (Michaela Coel) tem em torno de 30 anos, vive em Londres e tornou-se uma estrela depois de publicar um romance no Twitter. O título, “Crônicas de uma millennial de saco cheio”, já dá uma pista do perfil de sua autora. Quando “I may destroy you” (na HBO) começa, a protagonista está tentando escrever o segundo livro, mas empaca numa falta de foco irritante. A ação transcorre entrecortada, aos soluços. Arabella visita um namorado na Itália, volta para o apartamento que divide com amigos, aparece sentada na privada, fuma um baseado, abre e fecha o computador sem conseguir avançar no texto; atende a uma ligação do editor e o enrola com promessas de um prazo que não vai cumprir. Por aí vai.

Só lá pelo fim do segundo episódio, o espectador desavisado entende que essa não é mesmo uma narrativa linear. Afinal, trata-se de uma história contada por uma millennial. Sua linguagem está trançada a um modus vivendi e espelha o espírito do tempo. Os personagens se comportam como quem carece de uma dose caprichada de ritalina: “I may destroy you” reflete a falta de concentração que assola o mundo contemporâneo. Esse é o seu tema central — embora ninguém se refira a ele explicitamente.

Arabella sofreu abuso sexual, mas não consegue se lembrar das circunstâncias exatas do ocorrido ou de quem a atacou. As vagas recordações do episódio violento a assombram com frequência. No entanto, nem sempre o gatilho dessas memórias está relacionado à tarefa que ela está realizando na cena. A trama se desenrola como um assemblage de acontecimentos. Sua cronologia ziguezagueia e o ritmo oscila. Porém, à medida em que os capítulos avançam, o enredo ganha musculatura e o arco maior se esclarece. A violência sexual, o racismo (Arabella é negra), a homofobia e a multiplicidade cultural em Londres estão presentes na produção. Mas não há sombra de panfletarismo ou de discurso identitário “encaixado” artificialmente nos diálogos.

Com esse trabalho inovador e pungente, Michaela Coel (atriz, roteirista e codiretora) provavelmente ganhará muitos prêmios. Todos eles serão merecidos. A série (de 12 episódios de meia hora) tem frescor, inteligência, enternece e fala ao coração. O principal motivo para isso é a verdade empregada por sua criadora. Não perca.

PATRÍCIA KOGUT

Arquiteta e produtora de conteúdo Stephanie Ribeiro apresentará o novo Decora, do GNT

O “Decore-se” terá um formato diferente, adaptado à pandemia
POR AMANDA SEQUIN | FOTO ANDRÉ KLOTZ

Stephanie Ribeiro (Foto: André Klotz)

O Decora, programa de reformas rápidas do canal GNT, estreará uma nova temporada em outubro, com um formato diferente e uma nova apresentadora: Stephanie Ribeiro. A arquiteta e produtora de conteúdo comandará o “Decore-se”, uma versão totalmente adaptada para funcionar em meio à pandemia.

O arquiteto Maurício Arruda, que estava à frente do Decora desde 2016, deixa o papel para se dedicar a projetos pessoais, e ajudou a formatar o novo modelo. Nesta temporada, Stephanie e sua equipe prestarão uma ajuda remota para transformar ambientes de diversos brasileiros, fornecendo toda as dicas para que eles próprios possam tornar a decoração da casa mais confortável e aconchegante. 

A estreia de “Decore-se”, com Stephanie Ribeiro, está prevista para outubro.

O Airbnb era uma família, mas aí vieram as demissões

Cortes por conta do novo coronavírus mudaram radicalmente a cultura dentro da empresa e provocam questionamento se cultura ‘boazinha’ do Vale do Silício é, na verdade, um teto de vidro
Por Erin Griffith – The New York Times

“Tenho um profundo sentimento de amor por todos vocês”, disse Brian Chesky, executivo-chefe da Airbnb, em maio

Em 5 de maio, após trabalhar quase dois meses sozinho em seu apartamento em San FranciscoBrian Chesky, presidente executivo do Airbnb, chorou diante da sua câmera de vídeo. Era uma terça-feira, não que isto tivesse muita importância, porque os dias haviam se tornado um borrão confuso, e Chesky estava falando com milhares de funcionários. Olhando para a câmera, ele lia um texto que havia preparado para comunicar que o coronavírus havia acabado com o setor de viagens, inclusive com sua startup de aluguel de habitações. Algumas divisões teriam de ser cortadas e muitos funcionários demitidos.

“Tenho um profundo amor por todos vocês”, afirmou, com a voz embargada pela emoção. “O nosso trabalho se preocupa em fazer com que as pessoas se sintam confortáveis num lugar adequado, e no centro de tudo isto está o amor”. Em poucas horas, 1,9 mil funcionários – 25% da força de trabalho do Airbnb – foram informados de que deixavam de pertencer aos quadros da empresa.

A medida atirou o Airbnb no centro de um crescente debate no Vale do Silício: O que acontece quando uma companhia que se definia como uma família para os seus funcionários revela que não passa de uma empresa como tantas outras com as mesmas preocupações capitalistas – ou seja, a sobrevivência?

As startups que vendem todo tipo de coisa – de colchões a software para armazenamento de dados – há muito tempo afirmavam que a sua missão era “tornar o mundo um lugar melhor” para inspirar e motivar os seus funcionários. Mas a crise econômica provocada pelo coronavírus continua; muitos destes lemas gentis deram lugar a duras realidades, como cortes de orçamento, demissões e a necessidade de resultados.

Agora isto coloca as companhias com uma cultura de  “compromisso” no enorme risco de perderem o que as tornou bem-sucedidas, afirmou Ethan Mollick, professor de empreendedorismo da Wharton School da Universidade da Pensilvânia. “Parte da remuneração é fazer parte da família”, afirmou Mollick. “Agora, a família vai embora, e o acordo muda. Ela se tornou apenas um emprego”.

A cultura do compromisso

Em muitos aspectos, o Airbnb foi o exemplo ideal de uma companhia com a cultura do compromisso. Fundada por Chesky, Nathan Blecharczyk e Joe Gebbia em 2008, a startup cresceu rapidamente como plataforma online que ajudava os proprietários de casas a alugar quartos de sua residência a viajantes. Ao longo do caminho até ser avaliada em US$ 31 bilhões, ela construiu uma reputação como o oposto de suas congêneres, baseadas na economia compartilhada. O Uber prezava a concorrência impiedosa. Já o WeWork entrou em colapso por causa de uma cultura festeira e no desejo do fundador de cuidar apenas do interesse próprio.

Ao contrário, o Airbnb defendia o idealismo honesto. Chesky, de 38 anos, um designer atarracado do norte do estado de Nova York, falava frequentemente em confiabilidade, autenticidade e desejo de construir uma empresa que valorizasse princípios e pessoas acima da cultura do curto prazo de Wall Street. Gebbia palestrou no TED sobre projetar para a confiança. E o ex-presidente executivo do Airbnb, Rob Chesnut, escreveu um livro intitulado Intentional Integrity.

Os fundadores do Airbnb (da esq. para dir.) Nathan Blecharczyk, Joe Gebbia e Chesky, em uma festa que celebra sua nova sede em São Francisco em 2011
Os fundadores do Airbnb (da esq. para dir.) Nathan Blecharczyk, Joe Gebbia e Chesky, em uma festa que celebra sua nova sede em São Francisco em 2011

Então, em março, quando o coronavírus explodiu, a ruptura da “Airfam” foi dolorosa. O Airbnb, que estava prestes a abrir seu capital este ano, de repente se deparou com uma avalanche de desistências de usuários. A receita evaporou. Semanas mais tarde, Chesky anunciou as demissões e reduziu drasticamente as ambições da companhia. “Tudo o que poderia dar errado, deu”, falou em uma entrevista. “Parecia que tudo parava de funcionar ao mesmo tempo”.

Externamente, a cultura do compromisso do Airbnb parecia intacta. A fala de Chesky sobre as demissões, que foi publicada no blog da companhia, recebeu mais de 1 milhão de visualizações e foi elogiada como uma “lição de liderança” compassiva e carinhosa. Posteriormente, em uma sessão de perguntas e respostas sobre os cortes dos empregos, Chesky e os colegas fundadores fizeram uma ovação aos empregados que haviam saído. Aplausos e emojis de coraçõezinhos dos membros do público encheram a tela. 

Mas mais de dez funcionários antigos e atuais do Airbnb, a maioria dos quais não quis ser identificada por ter assinado previamente cláusulas contratuais a este respeito, afirmaram em entrevistas que sofreram uma desilusão repentina quando o idealismo corporativo cuidadosamente redigido se rachou.

Kaspian Clark, de 38 anos, que trabalhou no suporte aos clientes em Portland, Oregon, por cerca de dois anos, disse que havia aderido totalmente à missão do Airbnb e experimentara uma dolorosa sensação de rejeição ao ser demitido. “Há muitas pessoas que se sentem particularmente traídas por isto”, ele falou. “Espero profundamente que o Airbnb consiga manter-se como a coisa em que eu acreditava”.

Um porta-voz da companhia disse: “Tem sido um período difícil para todos”, e acrescentou: “Mais de 5 mil pessoas que trabalham no Airbnb sentem-se incrivelmente motivadas e entusiastas por acreditarem em nossa missão”.

Abrace a aventura, defenda a missão

Interior da sede da Airbnb, onde os funcionários são incentivados a incorporar os valores essenciais da empresa, disseram ex-trabalhadores
Interior da sede da Airbnb, onde os funcionários são incentivados a incorporar os valores essenciais da empresa, disseram ex-trabalhadores

O Airbnb não foi construído a partir de uma inovação de um gênio tecnológico ou de uma meticulosa PowerPoint para escolas de administração de empresas, mas partiu da ideia de que as pessoas precisam confiar umas nas outras o bastante para hospedar-se na casa de estranhos. Basicamente, na bondade do ser humano. Sua rede de casas para alugar espalhou-se rapidamente pelos EUA e em quase todos os outros países. O Airbnb captou mais de US$ 3 bilhões em capital de risco e se expandiu em outras atividades, férias de luxo, experimentos com voos e até mesmo uma revista impressa.

À medida que a companhia crescia, Chesky começou a falar de um mundo em que os nômades digitais sanavam as divisões relacionando-se com pessoas. “Acho que no futuro, as pessoas não viajarão. Elas simplesmente serão móveis”, previu em 2013. “As pessoas viverão um mês aqui, algumas semanas lá, quatro meses em algum outro lugar”. O Airbnb não alugava apenas casas para veraneio, segundo dizia a sua proposta, ela estava construindo uma “ONU ao redor da mesa da cozinha”.

Sua filosofia se condensou em 2018, quando apresentou um projeto para alguma coisa chamada capitalismo “integrado”. Ao contrário do foco de Wall Street em relatórios financeiros trimestrais e movimentação diárias de ações, Chesky aspirava a um capitalismo que tinha um “horizonte de tempo infinito”, e era bom para a sociedade.

Sua avaliação, que superou os US$ 2 bilhões em 2012, subiu meteoricamente para US$ 31 bilhões em 2017. Este ano, havia sido marcada uma oferta pública inicial que tornaria ricos seus executivos, investidores e funcionários.

E aí chegou o vírus. Como as viagens foram suspensas em março, o Airbnb cortou a projeção do seu faturamento de 2020 para menos da metade dos US$ 4,8 bilhões ganhos no ano passado. O documento da IPO, que Chesky encheu de ideias para o capitalismo integrado e pretendia apresentar no fim de março, foi engavetado. Em vez disso, Chesky disse que elaborou uma lista de princípios para operar durante o vírus. Ela incluía ser decisivo e sair “do lado certo da história”.

Houve tropeços. Quando os hóspedes quiseram cancelar as reservas que não seriam reembolsadas porque a pandemia os obrigara a mudar seus planos, a Airbnb mudou sua política que permitia os reembolsos. Mas a medida revoltou as operadoras de aluguel da companhia, que dependiam da renda. Chesky acabou se desculpando pela maneira como o Airbnb havia comunicado a decisão. “Tudo foi perfeito? Não”, ponderou Alfred Lin, um membro do conselho do Airbnb e investidor da Sequoia Capital. “Foi por causa da rapidez e por estar na direção certa”.

Logo, o Airbnb cortou US$ 800 milhões em marketing, abandonou os bônus e reduziu pela metade o salário dos executivos por seis meses. Também encerrou os contratos com aproximadamente 490 freelancers em tempo integral. Com as desistências cada vez mais numerosas e os call-centers fechados por causa do vírus, a Airbnb direcionou os funcionários de toda a companhia, inclusive os recrutadores, que haviam congelado as contratações, para a assistência aos clientes. O atraso levou semanas para se concluir. Em abril, a companhia, obteve US$ 1 bilhão em ajuda emergencialmais US$ 1 bilhão de dívidas.

Então chegaram as demissões de 5 de maio. Para abrandar o choque, os pacotes de verbas rescisórias do Airbnb incluíram três meses de salário e um ano de assistência médica gratuita, gesto que foi mais generoso do que o de muitas outras startups nas mesmas circunstâncias. Chesky desde então falou em uma “segunda fundação” na qual a Airbnb estará mais centrada em seu negócio de aluguel de habitações. A empresa será diferente, explicou, com menos clientes reservando viagens internacionais, menos gente chegando em massa em cidades lotadas, mais viagens locais e mais estadias de longo prazo.

Discordâncias na ‘Airfam’

Chesky, trabalhando em seu escritório em casa, chegava a ficar no computador quase todos os dias até meia-noite
Chesky, trabalhando em seu escritório em casa, chegava a ficar no computador quase todos os dias até meia-noite

Dois dias depois das demissões, as questões choveram rapidamente na Question and Answer Inside Audience, o software de reuniões virtuais da Airbnb, segundo cinco pessoas que participaram. Alguns funcionários perguntaram por que não eram postos em licença ou não sofriam cortes maiores do salário em vez de ser demitidos. Outros indagaram por que certos grupos haviam sido escolhidos para o corte e por que a companhia não podia cortar mais benefícios, como o orçamento para alugar plantas para os escritórios.

Chesky disse que a situação era demasiado incerta para colocar os funcionários em licença e para fazer cortes nos salários, afirmando que eram medidas temporárias. As demissões foram mapeadas de acordo com a estratégia futura da companhia, acrescentou. Um porta-voz explicou que a companhia gastava apenas uma pequena porcentagem em paisagismo e serviços relacionados.

Uma área atingida pelas demissões foi a equipe de segurança da Airbnb, que trata de situações como atentados com arma de fogo e assaltos nos locais alugados. Quando disparos fatais em uma festa em Orinda, Califórnia, ganharam as manchetes no outono do ano passado, a companhia proibiu festas não autorizadas nos locais alugados e anunciou planos para confirmar que todos os locais dos seus catálogos correspondiam exatamente ao que ela anunciava.

No questionário para os funcionários, Chesky reiterou suas afirmações anteriores de que a segurança era uma prioridade para a companhia. Os funcionários começaram a se manifestar com comentários por escrito – o equivalente a gritar em um teatro lotado – com mensagens como “Segurança nunca foi uma prioridade!”. Uma forma inusitada de divergência.

Uma semana depois das demissões, novos casos sobre segurança se multiplicavam, afirmaram duas pessoas a par da situação. O Airbnb pediu a alguns funcionários que haviam sido despedidos que voltassem temporariamente para cuidar dos casos. Os que estavam nas equipes de resposta e de pagamento também foram solicitados a voltar temporariamente.

Um porta-voz do Airbnb disse que os grupos que cuidavam da segurança dos usuários tinham o mesmo tamanho de antes das demissões e que a companhia avaliava diariamente os níveis de suas equipes de suporte. “Brian sempre deixou claro que a segurança é a nossa prioridade”, afirmou.

Posteriormente, no canal Slack para os antigos funcionários, alguns lamentaram que a Airbnb estava acabando com sua filosofia empresarial, segundo mensagens vistas pelo jornal The New York Times. Em junho, uma empreiteira do Airbnb que recentemente havia sido descredenciada escreveu um editorial para a Wired (revista mensal americana) citando colegas que chamavam a companhia de “hipócrita” por seu tratamento “consideravelmente insensível” para com os trabalhadores contratados durante a pandemia.

Um porta-voz do Airbnb disse que seus contratados “eram mais que isto, eram nossos companheiras de time e amigos”. Ele afirmou que a companhia deu a eles duas semanas de salário e outros benefícios.

Surgiram outros problemas. Em uma sala de chat para as funcionários do Airbnb depois das demissões, uma funcionária demitida descreveu três casos de assédio sexual enquanto estava na companhia, afirmando que os recursos humanos não ajudaram em nada e que as colegas não deram a devida importância, segundo uma imagem da conservação à qual o Times teve acesso. Isto, escreveu a pessoa, “magoou demais”. A companhia afirmou que não tolera assédio e discriminação e está investigando as denúncias.

Chesky disse que continua otimista. A companhia está enfatizando os sinais de recuperação. Como um crescente número de reservas a distâncias viáveis de automóvel e a adoção de suas “experiências virtuais”. Em uma reunião virtual, na tarde de quarta-feira, Chesky contou aos funcionários do Airbnb que a companhia voltará a tratar do seu plano de abertura do capital.

Ele também refletiu sobre os últimos quatro meses, que, afirmou, foram “traumáticos em certos aspectos”. A crise mostrou a ele que a Airbnb se desviou dos seus propósitos iniciais como um lugar para as pessoas se relacionarem, e planejava mudar isto. “Há algumas coisas nós não podemos perder nunca:”, afirmou, “ser honestos conosco mesmos, ser diferentes, ser especiais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Arquiteto Mauricio Arruda deixa o comando do programa ‘Decora’, do GNT

Atração passará a ser apresentado pela arquiteta Stephanie Ribeiro, mas com outro nome, agora será ‘Decore-se’
Eliana Silva de Souza

O arquiteto Mauricio Arruda (foto Iara Morselli/Estadão)

Após quatro anos à frente do programa Decora, do GNT, o arquiteto Mauricio Arruda deixa o comando da atração. Foi o próprio apresentador que deu a notícia, em um vídeo postado nesta quinta, 23, na sua página do Instagram.

Em seu comunicado, explica os motivos para sua decisão de deixar o programa, que passará a ser apresentado pela arquiteta Stephanie Ribeiro, mas com outro nome, agora será Decore-se, com estreia prevista para outubro.

“Estou aqui para dar uma notícia muito importante para vocês. Eu não vou mais apresentar o Decora, no GNT”, começa Mauricio, no vídeo de despedida, afirmando se sentir na necessidade de repartir essa decisão com seu público e seus fãs.

Ele diz que tem a ver com esse período de pandemia, que o fez se aproximar muito mais dos projetos de seu escritório de arquitetura. “E eu tô muito envolvido, cuido das obras, faço a direção criativa e eu não consigo mais me ver distante desses projetos.”

Agradeceu muito sua equipe, todos os técnicos, todos que o apoiaram e tornaram o possível a realização do programa, o namorado, a família.

No comando do Decora desde 2016, Mauricio Arruda conquistou o público com sua forma descontraída de lidar com as pessoas e a forma como transformava os ambientes escolhidos. Se o programa tem o sucesso que tem, certamente se deve ao carisma do arquiteto, suas sugestões simples e o carinho que sempre demonstrou com os fãs e as pessoas que pediam uma mudança em suas casas. Mas a chegada da nova apresentadora, Stephanie Ribeiro, certamente dará cara nova ao programa, o que, muitas vezes, significa prolongar a vida da atração. Mauricio vai deixar saudade, mas que Stephanie conquiste logo seu espaço e ainda mais fãs.

NOTA DA EMISSORA:

Stephanie Ribeiro assume comando do “Decore-se”

Nova temporada conta com formato especial adaptado ao cenário de Pandemia

A partir de outubro, a nova temporada do “Decora”, que se adapta diante do cenário atual e passa a se chamar “Decore-se”, terá o comando da arquiteta e produtora de conteúdo Stephanie Ribeiro. No novo formato, os participantes contam com ajuda remota da especialista para transformar os ambientes em espaços acolhedores e funcionais, com dicas simples e práticas que podem ser reproduzidas pelos próprios moradores.

Maurício Arruda, à frente desde 2016, deixa o “Decora” para se dedicar a projetos pessoais. Ao longo dos anos, a atração contou com diferentes apresentadores, somando o toque especial de cada profissional à essência do programa.

Décor do dia: sala de estar com concreto aparente e vista para a mata

Rodeado pela natureza, residência em Cajamar lembra até uma casa na árvore
POR LUCAS DEOLI FREITAS E RAFAEL BELÉM | FOTOS VIVI SPACO

Décor do dia: sala de estar com concreto aparente e vista para a mata (Foto: Vivi Spaco)

As vistas privilegiada da mata nativa na Serra dos Cristais, em Cajamar, foram o ponto de partida para o projeto desta casa de 260 m². Como a residência é cercada pelo verde e pela natureza, era importante para os moradores que a conexão com a mata e seu entorno não se perdesse. Coube ao escritório ARKITITO Arquitetura, então, idealizar os ambientes de forma que os ângulos externos mais importantes fossem aproveitados nos interiores.

Na sala de estar, uma laje foi criada para originar um terraço com vista em 360º da paisagem, enquanto grandes janelas abrem a visão para quem está dentro. Sem excessos, a decoração moderna divide espaço com a natureza – obras de arte compõem a parede de concreto aparente e fazem companhia para as vistas da mata, enquadradas pelo vidro. 

Décor do dia: sala de estar com concreto aparente e vista para a mata (Foto: Vivi Spaco)
Décor do dia: sala de estar com concreto aparente e vista para a mata (Foto: Vivi Spaco)

“As cores fazem referência a antigas casas de fazenda e se contrapõem ao peso dos blocos de concreto aparente e o piso de cimento queimado“, explica o escritório.