‘I may destroy you’: a série que quebra padrões

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Michaela Coel (Foto: Divulgação)

Arabella (Michaela Coel) tem em torno de 30 anos, vive em Londres e tornou-se uma estrela depois de publicar um romance no Twitter. O título, “Crônicas de uma millennial de saco cheio”, já dá uma pista do perfil de sua autora. Quando “I may destroy you” (na HBO) começa, a protagonista está tentando escrever o segundo livro, mas empaca numa falta de foco irritante. A ação transcorre entrecortada, aos soluços. Arabella visita um namorado na Itália, volta para o apartamento que divide com amigos, aparece sentada na privada, fuma um baseado, abre e fecha o computador sem conseguir avançar no texto; atende a uma ligação do editor e o enrola com promessas de um prazo que não vai cumprir. Por aí vai.

Só lá pelo fim do segundo episódio, o espectador desavisado entende que essa não é mesmo uma narrativa linear. Afinal, trata-se de uma história contada por uma millennial. Sua linguagem está trançada a um modus vivendi e espelha o espírito do tempo. Os personagens se comportam como quem carece de uma dose caprichada de ritalina: “I may destroy you” reflete a falta de concentração que assola o mundo contemporâneo. Esse é o seu tema central — embora ninguém se refira a ele explicitamente.

Arabella sofreu abuso sexual, mas não consegue se lembrar das circunstâncias exatas do ocorrido ou de quem a atacou. As vagas recordações do episódio violento a assombram com frequência. No entanto, nem sempre o gatilho dessas memórias está relacionado à tarefa que ela está realizando na cena. A trama se desenrola como um assemblage de acontecimentos. Sua cronologia ziguezagueia e o ritmo oscila. Porém, à medida em que os capítulos avançam, o enredo ganha musculatura e o arco maior se esclarece. A violência sexual, o racismo (Arabella é negra), a homofobia e a multiplicidade cultural em Londres estão presentes na produção. Mas não há sombra de panfletarismo ou de discurso identitário “encaixado” artificialmente nos diálogos.

Com esse trabalho inovador e pungente, Michaela Coel (atriz, roteirista e codiretora) provavelmente ganhará muitos prêmios. Todos eles serão merecidos. A série (de 12 episódios de meia hora) tem frescor, inteligência, enternece e fala ao coração. O principal motivo para isso é a verdade empregada por sua criadora. Não perca.

PATRÍCIA KOGUT

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