Como evitar que a internet te faça pensar que o mundo acabou

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Notícias ruins e deprimente podem te viciar e fazer perder a vontade de viver; saiba como se manter informado sem passar o dia todo preso numa tela esperando o apocalipse
Por Brian X. Chen – The New York Times

O “feed apocalíptico”, ou doomscrolling, pode nos prender em notícias pessimistas e deprimentes por horas

O alarme do celular toca às 6h da manhã. Você abre alguns sites jornalísticos e o Facebook. Uma sequência de más notícias: o número de casos do coronavírus não para de aumentar. O mesmo ocorre com as mortes. As crianças não podem voltar à escola. Seu restaurante favorito segue fechado e as pessoas estão perdendo o emprego. Tudo vai mal. O mundo como o conhecíamos acabou. Quando você percebe, já são 9h da manhã. Não tomou café, nem banho e segue desesperado em frente à tela. O exercício masoquista é repetido durante o horário do almoço, e novamente antes de ir para a cama.

Essa experiência de afundar na areia movediça emocional enquanto chafurdamos em notícias pessimistas e deprimentes se tornou tão comum que a internet inventou um termo para defini-la: “feed apocalíptico” (ou doomscrolling, o hábito de rolar uma tela até as profundezas da perdição). As ordens de confinamento em casa exacerbam esse comportamento. Afinal, temos pouco mais a fazer do que olhar para as telas; alguns indicadores apontam que o tempo médio de exposição às telas aumentou pelo menos 50% desde o início da quarentena. 

Com tantas pessoas sofrendo do mesmo mal, não estamos exatamente sozinhos. Mas, combinado ao vício em telas, o feed apocalíptico pode representar um pesado fardo para nossa saúde mental e bem estar físico, de acordo com especialistas em saúde. É uma atividade que pode nos deixar furiosos, ansiosos, deprimidos, improdutivos e mais desconectados de nós mesmos e dos nossos entes queridos.

“É necessário resistir ao consumo passivo por meio das redes sociais”, disse o Dr. Vivek Murthy, ex-cirurgião-geral que já escreveu muito a respeito do impacto da solidão na saúde pessoal. “A pessoa precisa escapar do poder de atração desse vórtice. Não se trata apenas de se afastar, mas também lidar com o impacto disso para a mentalidade, que, frequentemente, dura horas.”

Calma: ainda não estamos perdidos, e há abordagens para a modificação do nosso comportamento. Podemos criar estruturas para nossas vidas e praticar técnicas de meditação também. Eis o que tem a dizer os especialistas em saúde e bem estar.

Desenvolva um plano para controlar seu tempo

Por natureza, as pessoas são consumidoras de informação, e o noticiário é como um quitute digital oferecido 24 horas por dia. Para resistir à sobrecarga de informação, podemos criar um plano para controlar o quanto estamos consumindo, semelhante à nossa forma de planejar uma dieta para perder peso, disse o neurocientista Adam Gazzaley, coautor do livro The Distracted Mind: Ancient Brains in a High-Tech World [A mente distraída: cérebros antigos em um mundo de alta tecnologia].

O primeiro passo é reconhecer o fardo que o feed apocalíptico representa para a saúde, disse Gazzaley. “É preciso entender que não queremos passar a vida como um hamster em uma roda, consumindo notícias”, disse ele. “É algo que tem um alto custo, e chega-se a um ponto em que as vantagens de ser uma pessoa mais informada são cada vez menores.”

O segundo passo é criar um plano realista ao qual possamos aderir e repetir até formar um hábito. Criar uma programação de horários é uma abordagem eficaz. Comece criando compromissos na agenda para tudo, desde as atividades corriqueiras, como sair para caminhar, até as atividades importantes, como reuniões por videoconferência.

Separe alguns momentos do dia para ler o noticiário, se precisar — e, se isso ajudar, configure um alarme para soar em 10 minutos, anunciando a hora de parar. Outro truque é usar um elástico de borracha na mão enquanto lemos as notícias. Quem achar que está sucumbindo ao feed apocalíptico deve puxar o elástico e fazê-lo estalar contra o pulso, disse o Dr. Murthy.

Também é importante repensar as pausas. Antes da pandemia, as pausas para o almoço costumavam incluir uma olhada no Facebook. Sem ter para onde ir no almoço graças à quarentena, a navegação na internet se tornou o padrão na pausa para o almoço, uma armadilha óbvia que pode levar ao feed apocalíptico. Em vez de ficar grudado na tela, dê uma caminhada em volta do quarteirão, ande um pouco na bicicleta ergométrica, prepare seu lanche preferido. Sim, é importante agendar até mesmo as pausas, disse Gazzaley.

Pratique a meditação

Exercícios de conscientização podem nos ajudar a romper o ciclo de consumo da informação e impedir que mergulhemos em um poço sombrio. A professora de meditação Sharon Salzberg, autora do livro Real Change: Mindfulness to Heal Ourselves and the World [Mudança real: a conscientização como forma de curar a nós mesmos e ao mundo], recomenda o seguinte exercício para se sentir ligado aos demais em um momento no qual não podemos ver muita gente. 

Primeiro, respire fundo e pense nas pessoas que ajudaram você no passado. Podem ser amigos, colegas, ou até os funcionários do restaurante que preparam seu pedido para viagem.

Ao imaginar essas pessoas, tente desejar-lhes algo positivo. Por exemplo: “Que sejam felizes. Que tenham paz. Que estejam em segurança. Que tenham saúde”. “É como distribuir presentes”, disse Sharon. “Uma maneira diferente de se relacionar e não sentir o isolamento.”

Mantenha contato com outras pessoas

O livro do Dr. Murthy, Together: The Healing Power of Human Connection in a Sometimes Lonely World [Juntos: o poder de cicatrização das conexões humanas em um mundo às vezes solitário], destacava a importância de passar 15 minutos por dia ligados às pessoas com quem mais nos importamos. Isso pode ajudar a nos sentirmos menos sozinhos e a resistir ao feed apocalíptico.

Mas como podemos nos ligar às pessoas quando não é fácil vê-las? No início da pandemia, muitos de nós recorreram aos aplicativos de videoconferência para manter um elo virtual com os amigos, colegas e entes queridos. Agora, passados mais de quatro meses, muitos se sentem “exaustão do Zoom“. O Dr. Murthy disse que também estava se cansando das constantes chamadas de vídeo, e começou a transferir muitas chamadas pessoais e de trabalho para o telefone durante as caminhadas, atividade que restaura a energia dele e o ajuda a manter o foco.

O Dr. Murthy também recomendou que as pessoas tentem formar um “moai”, palavra japonesa que designa um grupo de apoio social. Pode ser um pequeno grupo de amigos que se reúnem com regularidade — por celular, por chamada de vídeo ou pessoalmente a uma distância segura — e concordam em cuidar uns dos outros. Ele e dois amigos formaram um moai e, uma vez por mês, passam duas horas trocando novidades em uma conversa franca que envolve assuntos pessoais e de saúde, relacionamentos e finanças.

Mudar o próprio comportamento pode ser algo difícil de se fazer por conta própria. Assim, poderíamos até dizer ao nosso moai que desejamos escapar do feed apocalíptico, e eles podem nos cobrar isso. O Dr. Murthy disse que sua conversa no moai com os amigos estava chegando, e ele planejava falar em como pensava em desenvolver um relacionamento melhor com as redes sociais — afinal, até ele acaba absorvido pelo feed apocalíptico de vez em quando.

“A ideia de separar algum tempo para as pessoas com quem nos importamos, sejam 15 minutos ou mais, é ainda mais importante em um mundo no qual foram apagadas as fronteiras entre dia e noite, entre dia útil e fim de semana”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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