TikTok seria recompensa a Microsoft por anos de boas relações com China

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Envolvimento da empresa americana no mundo da tecnologia chinês, desde fim da década de 1990, criou conexões importantes

Fundador da Microsoft, Bill Gates, e o dirigente da China, Xi Jinping – Tyrone Siu – 8.abr.2013/AFP

PEQUIM e SAN FRANCISCO | FINANCIAL TIMES – As mais de duas décadas de esforços da Microsoft para fincar raízes na China podem em breve ser recompensadas, caso ela consiga levar adiante a aquisição das operações da TikTok nos Estados Unidos.

Mas o relacionamento entre os Estados Unidos e a China continua a se deteriorar, e a aposta de longo prazo que a empresa fez no mercado chinês está enfrentando seu período mais incerto até o momento.

O envolvimento da Microsoft no mundo da tecnologia chinês, que data de sua criação de um centro de pesquisa em Pequim no final da década de 1990, criou conexões importantes para a empresa. Zhang Yiming, o fundador da ByteDance, a companhia que controla o TikTok, trabalhou na Microsoft, ainda que por apenas alguns meses, antes de sair para começar uma startup.

Isso não era incomum, na época. O laboratório de pesquisa da Microsoft na China era conhecido como uma incubadora de empreendedores, no final da década de 1990 e começo dos anos 2000, e muitos deles mais tarde ajudaram a propelir o crescimento explosivo da tecnologia no país. A companhia ajudou no desenvolvimento de muitos talentos –de Yin Qi, fundador da gigante do reconhecimento facial Megvii, a Lin Bin, cofundador da fabricante de celulares Xiaomi.

Na época, a liberdade e a plataforma mundial oferecidas pela Microsoft para pesquisas de ponta sobre ciência da computação não tinham precedentes na China. A Microsoft Research tinha precedência na escolha entre os melhores alunos dos programas de doutorado do país.

“Todas as conexões preexistentes entre a ByteDance e a Microsoft querem dizer que existem linhas de comunicação confiáveis que podem ser aproveitadas”, disse um antigo executivo da Microsoft China, que acrescentou que Zhang era um bom amigo de Harry Shum, ex-vice presidente da Microsoft cujo protegido, Ma Weiying comandava a área de inteligência artificial da ByteDance até o mês passado.

A Microsoft também trabalhou na criação de conexões com a elite política chinesa. Bill Gates, o fundador da empresa, foi um dos poucos executivos estrangeiros a se reunir com três presidentes chineses sucessivos, começando em 1995, na época em que a companhia começou a operar na China. Cinco anos atrás, o presidente chinês Xi Jinping visitou a sede da Microsoft em Redmond, Washington, onde ele elogiou a companhia por “estimular o desenvolvimento do setor de tecnologia e comunicações na China”.

Em julho, a Microsoft foi a única empresa americana convidada para uma conferência de cúpula televisada de empreendedores, que teve participação de Xi. O relacionamento estreito incomoda algumas pessoas no governo Trump.

Peter Navarro, o assessor da Casa Branca para comércio internacional, atacou a ideia de a Microsoft comprar o TikTok, e questionou como o grupo americano conseguia manter seu serviço de buscas Bing funcionando na internet chinesa, declarando que “sabemos que há algo de dúbio acontecendo lá”.

Além do Bing, que é o único serviço de busca estrangeiro disponível consistentemente na China, e que censura os resultados de busca na China mas diz que isso só se aplica aos usuários localizados na China continental, a Microsoft controla duas das três grandes plataformas estrangeiras que hospedam conteúdo gerado por usuários e não são bloqueadas no país. A primeira delas é o LinkedIn, site de relacionamentos profissionais, e a segunda o GitHub, um site de compartilhamento de códigos de software para desenvolvedores. A terceira plataforma é o sistema de resenha de produtos no site da Amazon.

Rebecca MacKinnon, diretora da Ranking Digital Rights, apontou que a Microsoft desativou sua plataforma de blogs em 2005 depois de ser criticada por bloquear o blog de um jornalista chinês. Ela acrescentou que a empresa “tampouco lançou uma versão chinesa do Outlook (seu serviço de email). Foi algo que eles evitaram deliberadamente”.

MacKinnon disse que a companhia era severa em suas medidas de proteção geográfica a dados, por conta da atenção das autoridades regulatórias da União Europeia a esse assunto, e que era improvável que permitisse que requisitos do governo chinês se tornassem ameaça a dados americanos. Quando às suas operações na China, “eles estão se esforçando mais para minimizar os riscos para os usuários chineses. Uma companhia chinesa tem menos opções”.

Proteger os usuários contra Pequim será mais complicado agora, com a aprovação da lei de segurança nacional de Hong Kong, que dá às autoridades da região poderes amplos de vigilância de dissidentes políticos. Em julho, a Microsoft anunciou que suspenderia o atendimento às solicitações de dados pelas autoridades de Hong Kong.

As pesquisas da Microsoft na China são provavelmente o ativo mais forte da empresa nas duas últimas décadas, e incluíram colaborações com pesquisadores da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa, controlada pelas forças armadas chinesas.

A gestão da equipe de pesquisas da empresa é muito leve. Limitar colaborações de pesquisa “é realmente uma questão difícil –pesquisa é um ambiente por si muito aberto”, disse um segundo ex-executivo da Microsoft China. “As pessoas podem questionar [as colaborações de pesquisa], mas do ponto de vista de nossos pesquisadores, o que eles desejam é trabalhar com os melhores parceiros que puderem em seus campos”, ele disse.

Mas embora a Microsoft tenha uma posição forte na China –cerca de 90% dos computadores pessoais em operação no país usam o sistema operacional Microsoft Windows, e até recentemente muitos sites do governo só funcionavam corretamente no navegador Internet Explorer –, a companhia não se beneficia muito disso em termos financeiros. Uma longa batalha contra a pirataria de software, que envolveu anos de diplomacia delicada com a polícia e a Justiça da China, só resultou em vitórias menores.

“Não é difícil encontrar software da Microsoft na China e mesmo em instituições do governo chinês. Mas é bem mais difícil encontrar software da Microsoft pelo qual a companhia tenha sido paga”, disse Brad Smith, presidente da Microsoft, alguns meses atrás. Ele estimou a escala das operações da Microsoft na China em apenas 1,8% do faturamento mundial da companhia.

A mudança de foco mundial da Microsoft, em direção dos serviços de computação em nuvem Azure, também encontrou dificuldades na China, onde a computação em nuvem oferece barreiras altas à entrada de concorrentes estrangeiros. Ainda que alguns executivos desejassem fechar a deficitária divisão de computação em nuvem da Microsoft na China, o presidente-executivo Satya Nadella vetou a decisão, de acordo com um consultor da Microsoft.

“A China tem memória de elefante, e quando você sai fica muito difícil voltar”, disse o consultor. A Microsoft não quis comentar sobre o assunto.

Mesmo assim, a Microsoft está ansiosa por tanto manter sua base de pesquisa na segunda maior superpotência da tecnologia mundial quanto continuar a cultivar o bom relacionamento que, em parte, ajudou a levar o TikTok à mesa de negociações.

Em dezembro do ano passado, a Microsoft lançou sua China Alumni Network, com um post no WeChat intitulado “quem foi Microsoft um dia, será sempre Microsoft!”

“Os ex-colaboradores da Microsoft podem servir como embaixadores e mensageiros positivos no relacionamento entre China e Estados Unidos”, disse Zhang Yaqin, presidente do grupo chinês de buscas Baidu.

O segundo ex-executivo da Microsoft China acrescentou que “o poder brando que a Microsoft exerce na China é imenso. Os ex-empregados chineses da empresa têm um fraco pela Microsoft”.

Mas a companhia terá de caminhar com cuidado no caso da ByteDance, evitando a impressão de que está tirando vantagem de uma venda forçada, e pode até ter que vender alguns de seus ativos na China em retorno, de acordo com duas pessoas informadas sobre a situação.

Até agora, a Microsoft não encarou grande irritação da parte de Pequim ou dos nacionalistas chineses por conta dos rumores sobre um negócio. “A opinião prevalecente é a de que o governo chinês não retaliará na mesma escala em que fez sobre a Huawei”, disse Rui Ma, autor de um livro a ser lançado em breve sobre a ByteDance.

Determinar por quanto tempo a Microsoft conseguirá navegar a crescente divisão política –e se ela conseguirá manter sua base tecnológica na China e no futuro extrair mais lucros do país– é outro assunto. Gates e Nadella têm uma “atitude mental globalista”, de acordo com o ex-executivo da Microsoft China. Mas ele acrescentou que isso “vem sendo submetido a um teste severo diante da situação política atual nos Estados Unidos” e que os chefes em Redmond podem estar questionando sua estratégia de longo prazo quanto à China.

Outro antigo executivo da Microsoft China apontou que os bons relacionamentos da empresa “não vão mudar o futuro da China”, que está determinada a substituir a tecnologia estrangeira por alternativas nacionais.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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