Oprah Winfrey espalha outdoors com foto de mulher negra morta pela polícia em cidade no Kentucky

Técnica de enfermagem foi morta em casa no dia 13 de março, em um caso que motivou reação de ativistas por justiça e igualdade racial nos Estados Unidos 

Um dos 26 outdoors financiados por Oprah Winfrey com pedido de justiça pela morte de Breonna Taylor Foto: John Sommers II/Reuters

LOUISVILLE, EUA – Primeiro, Oprah Winfrey cedeu seu lugar costumeiro na capa da revista O para Breonna Taylor. Agora, Oprah está financiando outdoors com a foto da técnica de enfermagem assassinada, em busca de indiciamentos para os policiais que mataram a mulher negra em seu próprio apartamento.

A revista O, de Oprah, está colocando 26 outdoors com a imagem de Taylor em Louisville, no Estado americano de Kentucky, onde a mulher foi morta em casa no dia 13 de março, em um caso que motivou reação de ativistas por justiça e igualdade racial nos Estados Unidos

“Exija que os policiais envolvidos no assassinato de Breonna Taylor sejam presos e indiciados”, diz o outdoor, que é semelhante à capa da edição de setembro da revista, que estará disponível nas bancas dos EUA no dia 11 de agosto.

Essa será a primeira vez em 20 anos que uma foto de Oprah não estampará a capa da revista. 

A capa e o outdoor também apresentarão uma declaração de Oprah: “Se você virar a cara para o racismo, você se torna cúmplice”. As placas começaram a ser colocadas na quinta-feira e ficarão no lugar por um mês. 

Taylor foi morta em Louisville por policiais que participavam de uma operação de busca e apreensão realizada de surpresa na casa dela. O namorado de Taylor disparou contra os agentes, que atiraram de volta, matando Taylor./REUTERS  

Riotvan Showcase – Jennifer Touch / August 5 / 8pm-9pm

Riotvan Showcase – Jennifer Touch / August 5 / 8pm-9pm

Instituto Hercule Florence ganha página no Google Arts & Culture

Com acesso gratuito, plataforma mostra a arte e a ciência do pioneiro do processo fotográfico no século 19
Por Leila Kiyomura

Hercule Florence, Apiacás – Divulgação/Academia de Ciências de São Petersburgo

A história do desenhista e pintor autodidata Hercule Florence, que nasceu em Nice, na França, em 1804, desembarcou aos 20 anos no Rio de Janeiro como desenhista da Expedição Langsdorff – de 1825 a 1829 – e viveu em Campinas (SP), foi contada em livro, pela primeira vez, em 1976, numa pesquisa do professor Boris Kossoy, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Três décadas depois, Kossoy lançou uma edição revista e ampliada pela Editora da USP (Edusp). Hercule Florence: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil passou a ser referência para o reconhecimento internacional do pioneiro do processo fotográfico no século 19. E, neste ano, às vésperas de ser lançada a quarta edição do livro, o Instituto Hercule Florence (IHF) apresenta a trajetória e as obras do artista e inventor na plataforma digital Google Arts & Culture.

Com isso, o instituto está ao lado de mais de 2 mil museus e galerias de todo o mundo. A plataforma disponibiliza 87 obras, além das anotações do pintor observando a paisagem brasileira.

O professor Boris Kossoy e Antonio Florence, tetraneto do artista francês, juntos na preservação e difusão da obra de Hercule Florence – Foto: Divulgação

O visitante vai navegar com o jovem irrequieto que sonhava com as aventuras de Robinson Crusoe. Vai acompanhar o artista inventor por uma viagem fluvial do Tietê ao Amazonas através das províncias brasileiras. E voltar no tempo para conhecer o Brasil entre 1825 a 1829.

Poderá identificar, em seus desenhos, um registro do cotidiano dos índios e também cidades como o Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar e o Corcovado. Paisagens em traços leves acompanhadas de anotações como esta: “A 3 de setembro de 1825, partimos do Rio de Janeiro. Um vento fresco ajudou-nos a vencer, em 24 horas, a travessia de 70 léguas, até Santos”.

Os objetivos do Instituto Hercule Florence são a coleta, organização, conservação e divulgação da bibliografia e de documentos sobre o século 19 brasileiro.”

Os manuscritos e as imagens foram extraídos da edição fac-símile do livro L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, apontada como a obra mais importante de Hercule Florence. “Por ter sido um dos principais retratistas do Brasil do século 19, o Instituto Hercule Florence foi procurado pelo Google Arts & Culture para que sua iconografia fizesse parte da plataforma. Essa inclusão dará ao artista visibilidade universal”, afirma Antonio Florence, tetraneto de Florence, que fundou o instituto em 2007. “Os objetivos do instituto são a coleta, organização, conservação e divulgação da bibliografia e de documentos sobre o século 19 brasileiro, reunindo um acervo próprio composto de biblioteca e arquivos especializados.”

Hercule Florence, Indienne Apiacá – Divulgação/Academia de Ciências de São Petersburgo

O centro de interesses do Instituto Hercule Florence é o estudo dos diversos viajantes do século 19 e suas narrativas, além da produção da Expedição Langsdorff, missão científica que percorreu o interior do Brasil, de São Paulo até o Amazonas, resultando em um minucioso levantamento de dados geográficos e etnográficos do País. Em uma das anotações, Florence observa o drama dos viajantes contraindo uma doença que desconheciam e que os estudiosos acreditam ter sido a malária: “Salto Augusto (2 de maio de 1828) – Atacadíssimos pela doença, permanecem privados da mínima ação os Srs. de Langsdorff e Rubzoff. Tão fracos se sentem que lhes é impossível abandonar a rede. Somos unicamente 15 os que nos conservamos com saúde, num conjunto de 34 pessoas, das quais apenas oito se livraram das sezões.”

No final dessa expedição, Hercule Florence resolveu ficar na vila de São Carlos, atual Campinas, em São Paulo, onde constituiu família e ficou até a sua morte, aos 75 anos, em 1879.

As realizações de Hercule Florence em variados campos das ciências e da artes são de importância definitiva para os estudos da cultura brasileira.”

Boris Kossoy, estudioso da trajetória de Hercule Florence desde 1972, acredita que, com a inclusão do instituto na plataforma Google Arts & Culture, o acervo e também os estudos sobre o artista francês em diferentes áreas ganham maior visibilidade. “O contato entre o Google e o instituto se dá em função da diversidade das referências iconográficas relativas à Expedição Langsdorff, uma das mais importantes missões científicas que visitaram o Brasil no século 19, além dos relatos de pesquisas com a zoofonia, poligrafia e a fotografia, dentre outras investigações do inventor que constam dos seus diários, hoje recuperados e disponibilizados on-line.”

Página do livro L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, de Hercule Florence – Reprodução

Na avaliação de Kossoy, o interesse entre o Google e o Instituto Hercule Florence se deu em função da exposição O Olhar de Hercule Florence sobre os Índios Brasileiros, realizada em 2015 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. “Essa exposição aconteceu por ocasião do seminário internacional Índios no Brasil; Vida, Cultura e Morte promovido pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP, que deu origem a um livro com o mesmo nome organizado pelas historiadoras Maria Luiza Tucci Carneiro e Miriam Rossi.”

Segundo Kossoy, “em termos da divulgação global, que ora se faz da obra de Florence, é importante a comprovação da descoberta de um processo fotográfico em 1833”. O professor destaca outras atividades do instituto, como o lançamento, em 2018, do fac-símile do manuscrito L’Ami des Arts Livré à Lui-Même. “Através dessa edição todos puderam conhecer Hercule Florence, sua autobiografia e seus trabalhos, uma obra que reúne um tesouro de informações da maior importância para os estudos da cultura brasileira, com a excelência da qualidade gráfica e editorial.”

Hoje, felizmente Hercule Florence é reconhecido como um dos inventores da fotografia, ao lado de Nièpce, Daguerre, Fox Talbot e Hippolyte Bayard.”

Kossoy faz uma síntese da trajetória de Hercule Florence. “Suas realizações em variados campos das ciências e das artes são de importância definitiva para os estudos da cultura brasileira”, acentua. “Exemplo disso é a documentação iconográfica da Expedição Langsdorff, que registra com apuro técnico e artístico a flora, a fauna, costumes, populações indígenas de diferentes grupos, entre outros temas. Se pensarmos no âmbito das artes gráficas, a descoberta de um meio de imprimir foi uma das motivações prioritárias de Florence, pois não se conformava com a falta de equipamentos gráficos de impressão, como a tipografia, no País.”

Hercule Florence,  Salmo Dourado – Reprodução

O professor conta que a questão de Florence era como multiplicar o conhecimento e as informações. Trabalhou arduamente nesse sentido a partir de 1830 e desenvolveu um meio prático e barato de impressão ao qual deu o nome de poligrafia, um processo que mereceria aperfeiçoamentos durante muitos anos. A seguir, junto com suas experiências com a poligrafa, foi informado que determinados materiais fotossensíveis, como o nitrato de prata, tinham a propriedade de escurecer pela ação da luz.

Desde 1833, Florence já obtinha resultados satisfatórios em seu intuito de “imprimir” por esse método, além de descobrir também a obtenção de imagens em papel quando colocado na “camera obscura”. O professor lembra que, no decorrer da década de 1830, o inventor e artista aperfeiçoou seu processo descobrindo inclusive uma forma de “fixar” as imagens de modo que se tornassem permanentes. Quando a descoberta de Daguerre foi anunciada na França, em 1839, Florence já imprimia, em série, diplomas maçônicos e rótulos para a identificação de atividades comerciais. “Sua descoberta não prosperou no meio caboclo e escravocrata em que viveu, permanecendo no anonimato por cerca de 140 anos. Hoje, felizmente Florence é reconhecido como um dos inventores da fotografia, ao lado de Nièpce, Daguerre, Fox Talbot e Hippolyte Bayard.”

Hercule Florence, Chef Mundurucu – Divulgação/Academia de Ciências de São PetersburgoPágina de rosto de L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, de Hercule Florence – Reprodução

A página do Instituto Hercule Florence (IHF) na plataforma Google Arts & Culture pode ser acessada gratuitamente através deste link.

Olimpíada de 1964 fez de Tóquio uma vitrine da arte e do design do futuro

Símbolo da arquitetura moderna japonesa nasceu com profissionais engajados em satisfazer projeto ideológico
Jason Farago

Construído no lugar onde ficava seu antecessor, feito para os Jogos de 1964, o novo Estádio Olímpico foi desenhado pelo arquiteto Kengo Kuma. Ele comporta 60 mil pessoas e receberá as cerimônias de abertura, encerramento, futebol e atletismo. Sua estrutura de madeira e ferro remete à natureza (assentos levam cores verde e marrom) e há componentes inspirados em elementos da cultura tradicional japonesa
Construído no lugar onde ficava seu antecessor, feito para os Jogos de 1964, o novo Estádio Olímpico foi desenhado pelo arquiteto Kengo Kuma. Ele comporta 60 mil pessoas e receberá as cerimônias de abertura, encerramento, futebol e atletismo. Sua estrutura de madeira e ferro remete à natureza (assentos levam cores verde e marrom) e há componentes inspirados em elementos da cultura tradicional japonesa Divulgação/@tokyo2020 no Instagram

THE NEW YORK TIMES – No fim de julho, os Jogos Olímpicos de Tóquio estariam chegando à metade. Velocistas, saltadores, arremessadores, halterofilistas e, pela primeira vez, skatistas, estariam reunidos na mais populosa cidade do planeta. Que o fã-clube de Simone Biles me perdoe, mas a modalidade que mais me entusiasmava é o handball.

Não pelo esporte, mas pelo ginásio. As partidas de handball seriam disputadas no Ginásio Nacional de Yoyogi, um marco da arquitetura moderna japonesa, projetado por Kenzo Tange. O traço que define o ginásio é sua cobertura, imensa e inclinada, formada por duas catenárias —ambos de aço estendidos entre pilares de concreto, como uma ponte pênsil— e hastes perpendiculares que se curvam desse eixo em direção ao solo.

Anos atrás, pedalando no parque Yoyogi, lembro ter feito uma pausa diante dos painéis soldados que formam a cobertura da ginásio, admirando as marquises de aço. O ginásio provavelmente seria a mais glamorosa das estruturas em uso na Olimpíada deste ano, anda que tenha sido construído mais de meio século atrás.

A pandemia do novo coronavírus forçou o primeiro adiamento de uma Olimpíada na era moderna –Tóquio 2020 não mudará de nome mas agora acontecerá em julho de 2021, se é que vai acontecer.

Mas espalhado pela capital japonesa está o legado de uma Olimpíada passada, os jogos de 1964, que coroaram a transformação da capital japonesa, de uma ruína devastada por bombardeios incendiários em megalópole ultramoderna. (A olimpíada, embora descrita como “de verão”, na verdade aconteceu no outono. Os organizadores consideraram que outubro era uma data melhor para os jogos em Tóquio do que o escaldante calor de julho.)

A primeira olimpíada de Tóquio serviu como baile de debutante para o Japão democrático do pós-Guerra, que se reapresentou ao mundo não só por meio do esporte mas também pelo design.

Os preparativos fizeram de Tóquio um imenso canteiro de obras. O escritor Robert Whiting, que serviu na Força Aérea dos Estados Unidos e esteve em Tóquio em 1962, descreve os martelos pneumáticos e britadeiras e seu “ataque avassalador aos nossos sentidos”. Os pedestres circulavam usando máscaras e protetores de ouvidos, e os trabalhadores bebiam em bares protegidos por cortinas de plástico grosso para impedir a entrada de poeira.

O Japão estava a apenas alguns anos de distância de se tornar a segunda maior economia do planeta, e a Olimpíada de 1964 foi concebida para servir como um desfile de gala celebrando o renascimento da economia e a honra reconquistada.

Os bondes que serviam a cidade foram aposentados e novas vias expressas elevadas foram construídas. Tóquio recebeu um novo sistema de esgotos, um novo porto, duas novas linhas de metrô e passou a sofrer com uma grave poluição.

Os cortiços e seus moradores foram impiedosamente removidos para abrir espaço a novas construções, algumas das quais grandiosas —como o irretocável hotel Okura, projetado em 1962 por Yoshiro Taniguchi (pai de Yoshio Taniguchi, o arquiteto do Museu de Arte Moderna de Nova York)— e muitas outras esquecíveis.

O novo “shinkansen”, ou trem-bala, disparou pela primeira vez no trajeto entre Tóquio e Osaka apenas uma semana antes da cerimônia de abertura. Só em 2008, quando veio a olimpíada da florescente Pequim, os jogos olímpicos voltariam a alterar de maneira tão profunda uma cidade e uma nação.

Tóquio já havia conquistado o direito de organizar uma Olimpíada, no passado. A cidade deveria sediar os jogos de 1940, depois do espetáculo nazista da Olimpíada de Berlim em 1936, mas a chegada da guerra levou ao seu cancelamento.

Os arquitetos e designers envolvidos com a olimpíada de 1964 tiveram, portanto, de satisfazer um objetivo ideológico claro –os jogos deviam servir para expor ao mundo o novo Japão, pacifista e voltado ao futuro, e por isso a estética e os símbolos nacionais tradicionais do Japão quase não apareceram. Nada de imagens do monte Fuji, nada de flores de cerejeira, nada de caligrafia. E qualquer expressão de orgulho nacional precisava ficar o mais distante possível do velho militarismo imperial.

Desenvolver o look que os jogos de 1964 teriam foi uma tarefa confiada a Yusaku Kamekura, o decano dos designers gráficos japoneses, que aprendeu design moderno com os professores treinados pela Bauhaus do Instituto de Nova Arquitetura e Artes Industriais de Tóquio.

Ilustração dos projetos ambiciosos de Kenzo Tange para o Ginasio Yoyogi Gymnasium, em Tóquio, capital japonesa. Ele desenvolveu uma nova tecnologia para concreto armado, e o teto suspenso do prédio era o maior do mundo na época
Ilustração dos projetos ambiciosos de Kenzo Tange para o ginásio Yoyogi, em Tóquio, capital japonesa – Biblioteca Frances Loeb/Escola de Design da Universidade de Harvard/New York Times

Enquanto os pôsteres de passadas Olimpíadas se concentraram em imagens figurativas, em muitos casos com referências greco-romanas explícitas, Kamekura destilou as ambições de Tóquio no mais simples dos emblemas –os cinco anéis entrelaçados, todos dourados, encimado por um grande disco vermelho, o sol nascente.

A mesma estética ousada caracterizaria o segundo pôster de Kamekura para a Olimpíada (um desafio técnico considerável em 1964) –uma foto que capturava corredores em ação e ocupava toda a largura do papel, sobre um fundo preto.

As principais cerimônias e eventos atléticos aconteceram num estádio sem coisa alguma de especial, que foi demolido posteriormente. No Parque Olímpico Komazawa, em Setagaya, a torre de controle projetada por Yoshinobu Ashihara tinha a forma de uma árvore de concreto de 50 metros de altura; ela ainda existe, embora sua franqueza brutalista tenha sido atenuada por um revestimento de tinta branca.

Mas foi o ginásio de Yoyogi, uma construção de menor porte, que expressou em concreto aquilo que Kamekura e outros designers estavam fazendo no papel. Seu criador, Tange, desenharia também o imenso edifício da Prefeitura de Tóquio e o hotel Park Hyatt da capital japonesa, que conta com o selo de aprovação de Sofia Coppola.

Em 1964, o ginásio de Tange abrigou as provas de natação, saltos ornamentais e basquete, e o casamento entre dinamismo e força bruta do projeto era um anúncio vistoso de que o Japão havia sido restaurado, ou mesmo de que o país havia renascido.

Visto de fora, ele parece formado por duas metades feitas de aço e concreto, como se resultantes de um todo maior que tivesse sido cortado e realinhado irregularmente. Mas a verdadeira inovação está na cobertura. A estrutura pênsil é uma retomada ainda mais avançada do conceito que Eero Saarinen usou para o rinque de hóquei da Universidade Yale, um projeto completado pouco antes, e faz referência também ao pavilhão Philips da Feira Mundial de Bruxelas, projetado em 1958 pelo herói de Tange, Le Corbusier.

O ginásio também acena mais discretamente para o projeto mais significativo de Tange até então, o arco do cenotáfio de Hiroshima, também uma curva de concreto reforçado. Em Hiroshima, o concreto curvo de Tange serve como mausoléu para a hora mais sombria do Japão; em Tóquio, ele abrigou um festival em homenagem à nova vida da nação.

O legado de Hiroshima também afetou a cerimônia de abertura, na qual o velocista Yoshinori Sakai, nascido em 6 de agosto de 1945, o dia em que a primeira bomba atômica da história foi lançada, acendeu a pira olímpica.

A Olimpíada de 1964 foi a primeira a ser televisionada para todo o mundo, por meio do primeiro satélite geoestacionário operado para uso comercial, e as famílias japonesas, dispondo de rendas mais altas, puderam até mesmo acompanhar os jogos em cores. No entanto, as imagens mais duradouras da Olimpíada de 1964 vieram do cinema, no documentário “Olimpíada de Tóquio”, do diretor Kon Ichikawa.

Filmado em formato CinemaScope, para telas largas, em cores ricas e usando teleobjetivas que haviam sido desenvolvidas havia pouco tempo, o documentário é, por imensa margem, o melhor filme já produzido sobre as Olimpíadas. (Ele está disponível para streaming, assim como outros filmes muito mais chatos sobre os jogos de 1912 a 2012, no Criterion Channel.)

Uma litografia de Yusaku Kamekura feita para as Olimpíadas de 1964, em Tóquio
Uma litografia de Yusaku Kamekura feita para as Olimpíadas de 1964, em Tóquio – Museu de Arte Moderna de Nova York/The News York Times

Diferentemente de “Olympia”, de Leni Riefenstahl, que prefaciou os jogos de Berlim com deuses-atletas arianos em trajes gregos, “Olimpíada de Tóquio” nos arremessa à modernidade desde a sequência de abertura –um sol brilhante e branco contra um céu vermelho —a bandeira japonesa, invertida— se transforma em bola de demolição, arremessada com violência contra pilastras.

Fachadas de edifícios despencam, pulverizadas; escavadeiras removem o entulho. Vemos o ginásio de Tange em meio à neblina, depois a parada da tocha olímpica e por fim multidões aglomeradas para testemunhar a chegada dos jovens participantes no aeroporto de Haneda.

Dentro dos locais de competição, as teleobjetivas permitiram que Ishikawa obtivesse filmagens deslumbrantes do suor dos corredores e da pele arrepiada dos nadadores, mas era igualmente frequente que ele filmasse sequências quase abstratas de esgrimistas e ciclistas decompostos em torrentes de cores.

Há campeões e recordistas em “Olimpíada de Tóquio”, mas eles dividem a tela com atletas que chegaram em último lugar. Disputas por medalhas de ouro são entrelaçadas com cenas mostrando detalhes quase sempre ignorados, de trabalhadores varrendo a pista do salto triplo, ou dirigentes do arremesso de peso transportando os pesos em um carrinho.

O Comitê Olímpico Japonês odiou o filme e encomendou outro; os nacionalistas o definiram como ataque ao patriotismo ou pior. Mas a destilação das ambições nacionais em forma abstrata empreendida por Ichikawa foi o marco da Olimpíada de 1964, e o documentário se tornou o maior sucesso nacional de bilheteria no Japão, um recorde que persistiria por quatro décadas.

Quer aconteçam em 2021, quer não, os novos Jogos de Tóquio certamente terão menos impacto cultural do que os precedentes. O primeiro logotipo para Tóquio 2020 foi descartado, por suposto plágio. O primeiro estádio proposto, também –o projeto inicial de Zaha Hadid foi abandonado e substituído por um estádio de madeira, mais sereno e muito menos dispendioso, projetado pelo arquiteto Kengo Kuma.

Se o aço e concreto de Tange expressavam as ambições japonesas em 1964, agora são os materiais naturais que apontam para uma visão de futuro no qual os desafios serão tanto ecológicos quanto econômicos. Mas Kuma, que era criança em 1964 e assistiu à Olimpíada, atribui ao ginásio de Tange a inspiração para sua carreira.

“Tange tratava a luz natural como um mago”, disse Kuma ao The New York Times dois anos atrás, recordando sua infância e a descoberta do Ginásio Nacional de Yoyogi. “Desde aquele dia, eu quis me tornar arquiteto.”

Tradução de Paulo Migliacci

GiGi FM / August 5 / 6pm-7pm

GiGi FM / August 5 / 6pm-7pm

Conheça cinco profissionais que estão revolucionando o mercado de beleza negra

Do cabeleireiro que desenvolve tendências para cabelos crespos à dermatologista especializada no cuidado com a pele negra, confira
BÁRBARA ÖBERG (@BARBARAOBERG)

Uma miscelânea de obras de arte e produtos de beleza compõe o moodboard da maquiadora Laura Peres: os trabalhos de Jean- -Michel Basquiat e do fotógrafo dinamarquês Jacob Holdt; água de beleza da Caudalie e makes da nova-iorquina Milk (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)

LAURA PERES (@lauraomesmo)
O vozeirão e a altura – 1,75 metro – fizeram a maquiadora Laura Peres, de 31 anos, ficar mais conhecida como Laurão no mercado de beleza. A carioca chegou a ingressar na faculdade de direito, mas logo percebeu que não tinha muita conexão como meio jurídico. Optou por investir em algo que adorava fazer: maquiagem. “Amava me produzir e arrumar minhas amigas”, lembra. “Fiz um curso no Senac sem muita noção de como funcionava esse universo, mas queria muito trabalhar em revista.” 

Morando no subúrbio carioca, sem contatos ou proximidade com profissionais da beleza, começou a mandar seu currículo para lojas de maquiagem, arrematando uma vaga na MAC. Além do atendimento da clientela, por lá chegou a fazer parte da equipe que atuava nas semanas de moda brasileira, que até hoje é o seu lugar favorito para exercer seu papel como maquiadora. “Foi um chamariz. Passei a fazer assistência para grandes nomes, quando conheci o Rodrigo Costa, que me abriu de vez as portas deste mercado, me indicando trabalhos importantes”, afirma.

De capa de revista à produção de âncoras do conglomerado de mídia mexicano Televisa nas Olimpíadas do Rio em 2016, Laura foi realizar um dos seus sonhos no ano passado: assinar pela primeira vez a beleza de um desfile no SPFW. “Gosto da adrenalina, da criação, da correria”, explica. “E sempre faço questão de trabalhar com uma equipe formada por pardos e pretos. O meu foco é trazer mais profissionais que entendam e atuem no segmento de beleza negra”, conclui.

O que Rihanna, Janelle Monáe, Jacy July e Magá Moura têm em comum? Todas são inspiração de beleza para Daniele da Mata. A leitura também ocupa lugar no seu moodboard com Minha História, de Michelle Obama (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)
O que Rihanna, Janelle Monáe, Jacy July e Magá Moura têm em comum? Todas são inspiração de beleza para Daniele da Mata. A leitura também ocupa lugar no seu moodboard com Minha História, de Michelle Obama (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)

DANIELE DA MATA (@afrocruela e @damatamakeup)
Há 15 anos trabalhando com beleza, a empresária e influenciadora paulista Daniele da Mata já experimentou um pouco de cada área dessa indústria. Antes de cogitar virar maquiadora, inspirada pelo projeto Promotoras Legais Populares, que trata sobre violência doméstica e direitos sexuais das mulheres, decidiu que cursaria direito. “Queria defendê-las, a maioria era negra e parecida comigo”, explica.

Para pagar os estudos, ela começou a trabalhar como maquiadora, quando notou que em sua cadeira também era possível discutir comas clientes direitos e autoestima. Essa simbiose entre beleza e ensino se transformou na primeira escola de maquiagem para pele negra do Brasil. “Percebia que comas alunas negras eu precisava dar um passo para trás e abordar temas como identidade e amor próprio”, recorda. Daniele viajou para vários estados do País levando seu projeto Negras do Brasil, que se transformou em um curso online também. Hoje, aos 30 anos, é conhecida na internet como Afro Cruela, graças ao cabelo bicolor cheio de personalidade, conquistado depois de um processo árduo de transição capilar após dez anos de química alisante.

Em seus dois perfis @damatamakeup e @afrocruela, reúne fãs e alunos que conferem dicas de produtos e produções esporádicas que faz em celebridades, como a cantora Liniker e a filósofa Djamila Ribeiro. Por trás das cortinas, virou consultora de marcas de beleza para o desenvolvimento de cores e produtos focados na pele negra. “Meu objetivo é fazer uma mudança na indústria cosmética em geral, do produto ao consumidor”, explica.

Três marcas para ficar de olho indicadas por Rosangela Silva: os cosméticos da Kurandé (@kurandecosmeticos), turbantes da Boutique de Krioula (@boutiquedekrioula) e os acessórios da marca Zâmbia (@zambiabrand) (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)
Três marcas para ficar de olho indicadas por Rosangela Silva: os cosméticos da Kurandé (@kurandecosmeticos), turbantes da Boutique de Krioula (@boutiquedekrioula) e os acessórios da marca Zâmbia (@zambiabrand) (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)

ROSANGELA SILVA (@rosanegrarosa)
Chapinha, babyliss, permanente afro, pastinha química, relaxamento…Desde pequena, quando aprendeu a cuidar do seu cabelo sozinha, Rosangela Silva escuta que esses eram os melhores métodos para deixá-lo “bonito”. Com falta de informação e poucos produtos de qualidade para fios cacheados no Brasil, a hoje empresária só foi fazer sua transição capilar em 2009. “Comecei a ver youtubers americanas com cabelões crespos e cacheados, não fazia ideia de que isso era possível”, conta.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Todo esse processo inspirou o blog e canal no YouTube Negra Rosa, onde Rosangela, além de testar cosméticos, mostra formas de estilizar os cachos, cria tutoriais de maquiagem e fala sobre empoderamento e autoestima. Mas não foi só seu cabelo que sofreu nesse processo. “Quando trabalhei como representante de uma grande marca de beleza, fazia misturas de produtos para chegar no meu tom, o batom era a maquiagem mais democrática que havia para pele negra”, lembra.

Foi nessa busca por uma cobertura que não deixasse seu rosto esbranquiçado que ela conheceu sua sócia e amiga Ana Heller. A dupla transformou a experiência online em negócio, e o nome do blog de Rosangela batizou a sua marca de cosméticos (http://www.negrarosaloja.com.br). Com gel para cabelo, blush e outras opções de produtos, as bases para pele com até sete tons são o carro-chefe. “Não padronizamos a beleza negra: nós não somos iguais, temos fenótipos diferentes”, explica.

Três mulheres poderosas pautam o moodboard da dermatologista Katleen da Cruz Conceição: Donna Summer, Oprah Winfrey e Djamila Ribeiro (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)
Três mulheres poderosas pautam o moodboard da dermatologista Katleen da Cruz Conceição: Donna Summer, Oprah Winfrey e Djamila Ribeiro (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)

KATLEEN DA CRUZ CONCEIÇÃO (@katleendermato) 
Preta Gil, Lázaro Ramos, Hugo Gloss, Ludmilla e Iza. Esses são alguns dos nomes famosos entre os pacientes da dermatologista Katleen da Cruz Conceição, de 48 anos. Além do jeito descontraído e do bom humor da médica, o seu sucesso se dá graças a sua especialidade: a pele negra.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Como não estudou patologias ou tratamentos específicos para o seu próprio tom de pele na faculdade, foi em um congresso em São Francisco, nos Estados Unidos, que descobriu esse novo universo. “O racismo é tão velado que nunca questionei que nos livros de dermatologia só tinha especificações para pele branca”, lembra. “Desde alopecia por uso de trança, foliculite, oleosidade extrema no rosto, cabelos ressecados, até aspectos como autoestima, o paciente negro tem suas particularidades e necessidades próprias”, explica.

Gaúcha de nascimento e carioca de criação, a maior referência de sua vida é o seu pai, que é coronel e médico dermatologista. Influenciada por ele, Katleen, depois da pós-graduação, passou sete anos trabalhando como médica no exército enquanto fazia outra pós-graduação em medicina estética. “Na época, a dermatologia era voltada mais para doenças, o lado estético nem era reconhecido pelo conselho de medicina”, ressalta. Hoje, há dez anos trabalhando na clínica da médica Paula Bellotti, no Rio de Janeiro, desenvolveu ali o primeiro setor com protocolos e tecnologias desenvolvidas especialmente para o seu público, que é 99,9% negro.

O colorista Amadeu Marins compartilha um pouco do seu universo: os livros Hair, de John Barrett, e Hit Makers - Como Nascem as Tendências, de Derek Thompson; o disco África Brasil, de Jorge Ben; a obra de Piet Mondrian, produto capilar da linha Pigments,  (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)
O colorista Amadeu Marins compartilha um pouco do seu universo: os livros Hair, de John Barrett, e Hit Makers – Como Nascem as Tendências, de Derek Thompson; o disco África Brasil, de Jorge Ben; a obra de Piet Mondrian, produto capilar da linha Pigments, da Alfaparf Milano, e o pente glamoroso da Balmain (Foto: Thiago Bruno, Arthur Germano, Markus Prime, Knight, ShawnG, Getty Images, Reprodução/Instagram e Divulgação)

AMADEU MARINS (@amadeu.marins)
Trabalhando desde janeiro no francês David Mallett, um dos salões de beleza mais famosos do mundo, o colorista Amadeu Marins, de 27 anos, ainda cruza os corredores do estabelecimento sem acreditar na sua realidade. Nascido na comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro, o carioca perdeu seus pais ainda criança, quando tinha 8 anos. “Passei a viver coma minha madrinha, ela era rígida e me criou dizendo que eu tinha sempre que ser o melhor dos melhores por ser negro”, lembra. As oportunidades surgiram primeiro no esporte, quando praticava handebol profissionalmente e migrou da escola pública para a particular. https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Depois de uma fratura acabar com os seus sonhos na quadra, chegou a fazer curso técnico em administração, estagiou em um banco até que começou a trabalhar em uma loja de calçados. “Bastou uma palestra no Instituto L’Oréal da Tijuca para eu me matricular em um curso – pago comas vendas de salgadinhos feitos pela minha sogra na época – e me formar cabeleireiro.” No currículo, coleciona passagens por salões cariocas como Fil Hair & Experience e Crystal Hair.Amadeu sempre fez questão de trazer clientes negras para ocupar sua cadeira. “Desde que entrei nessa profissão, nunca fui ensinado ou ouvi falar sobre um olhar estético voltado para a beleza preta, tudo era muito superficial e adaptado”, explica. Foi nessa onda de descobrimento de técnicas e tendências para fios crespos e cacheados que ele criou o “afro ginger”, uma coloração ruiva especial para esse tipo de cabelo.

Esse histórico o levou para Paris, onde chegou a trabalhar na rede Jean Marc Joubert. Hoje, no salão David Mallett, como o único negro e latino da equipe, atende de Giancarlo Giammetti, parceiro de negócios do estilista Valentino, a Estelle Colin, âncora da rede de televisão francesa France 2. “Tive que sair do Brasil porque queria crescer profissionalmente e vi que no País não havia esse espaço de reconhecimento como preto. Não quero ser exceção”, finaliza.

Como arquitetura e decoração surfam a onda do isolamento social

Entenda impulso que home office e volta de bares e restaurantes dão a segmento da economia criativa; confira série de reportagens com negócios de audiovisual, música e moda
Texto: Letícia Ginak / Foto: Matho Fotografia para Decorati

Com a pandemia, em questão de dias a casa também virou escritório, academia, sala de aula e bar virtual. Com a reabertura gradual de estabelecimentos comerciais, como os restaurantes, os locais que oferecem acomodações ao ar livre ganham pontos na escala individual dos clientes. Para trazer segurança, conforto ou mesmo dar um toque profissional em um cômodo que quase não era usado, arquitetos e decoradores entraram em ação.

Logo em abril, no início da quarentena do novo coronavírus, a categoria de produtos de decoração teve alta de 23,5% no e-commerce, segundo o Ebit-Nielsen. A pesquisa Termômetro Anamaco, da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que 42% dos 600 varejistas ouvidos relataram aumento nas vendas entre março e maio. Os dados sinalizam a demanda por pequenas reformas e projetos de decoração, mesmo em tempos de crise.

A startup Decorati, frente de reforma, customização e decoração do grupo Loft, sentiu na prática o interesse dos clientes. No primeiro trimestre do ano, 3,7 mil pessoas pediram orçamento pela plataforma. O número saltou para 8,8 mil no final do segundo trimestre. Mesmo com os efeitos econômicos da covid-19, a empresa cresceu 20% no período.

42% entre 600 varejistas de material de construção entrevistados em pesquisa relataram alta nas vendas de materiais de construção de março a maio

“Os resultados positivos são reflexo de uma leitura rápida que tivemos de como a gente poderia se adaptar. Enfrentamos paralisações em obras de apartamentos, com condomínios que proibiram qualquer tipo de reforma. Fomos ágeis em colocar em prática ações para que esses condomínios ficassem seguros de que iríamos entregar a reforma no menor tempo possível. Fizemos totens de higienização, elaboramos um forte esquema de trabalho de proteção para os funcionários e moradores dos prédios e assim mostramos que a gente tinha condições de retomar”, diz o fundador da Decorati, Murillo Morale.

A procura por itens decorativos e móveis para o home office foi um alerta para a startup identificar as novas necessidades dos clientes. “A frente em que fomos mais bem sucedidos foi em pequenas decorações, do tipo home office. Agora estamos nos deparando com pequenas reformas, como a de um banheiro, que é um serviço que a gente ainda não faz, mas estamos enxergando uma oportunidade grande”, diz Morale.

Além das residências, a arquitetura também será fundamental na adaptação de prédios comerciais e escritórios. É preciso promover maior distanciamento entre as mesas de trabalho e também em refeitórios, investir em ventilação natural e implantar tecnologia de entrada e saída sem toques, como portas automáticas e cartões para registrar o controle de jornada.

O segmento de arquitetura, design e decoração vem sofrendo os reflexos da crise assim como toda a economia e, mais particularmente, o setor da economia criativa. De acordo com a mais recente pesquisa do Sebrae, esse é o segundo setor mais afetado pela pandemia, registrando queda de 70% no faturamento nos últimos meses, atrás apenas do turismo. A pesquisa ainda revela que 71% dos empreendedores da economia criativa ainda não conseguiram reabrir suas empresas e buscam alternativas em meio digital. Apenas 19% tiveram acesso a crédito.

O QUE É A ECONOMIA CRIATIVA?

O setor reúne profissionais e negócios que se utilizam da criatividade como matéria-prima principal para ressignificar ou gerar valor para um determinado setor. Por exemplo, a arquitetura e o design são os segmentos criativos da indústria da construção civil. Músicos se utilizam da criatividade para criar músicas e espetáculos que geram valor para a indústria do entretenimento. O estilista, por meio de seus desenhos autorais, cria novas peças e gera tendências para a indústria da moda. A criatividade é o que gera valor intangível a esses negócios, que não podem ser replicados por qualquer pessoa.

Home office impulsionou criação de pequena empresa

Logo no início de abril, o arquiteto Cezar Augusto Figueiredo começou a ser procurado pelos amigos para auxiliá-los a criar um ambiente adequado ao home office. A ‘consultoria amiga’ foi o pontapé para a criação de uma empresa de projetos de decoração 100% online, a Desembola. Além da necessidade de adequação ao home office, Cezar entendeu também que a maioria reside em imóveis alugados e tinha baixo orçamento para investir nas adaptações.

“Foi então que vi que tinha um nicho de mercado para ser explorado, com demanda por projetos que não exigem reforma, mão de obra especializada e que podem ser executados de maneira muito rápida. Muitas vezes é um ponto de iluminação, um móvel, a escolha certa da tinta ou papel de parede”, conta.

Cezar Augusto Figueiredo: mais olhar para dentro de casa TABA BENEDICTO/ESTADÃO

A Desembola saiu do papel oficialmente no fim de maio e já atendeu 16 projetos desde então, um deles inclusive para uma cliente que vive na Alemanha. “Criei um negócio nativo digital. Não tem nada que eu faça de forma presencial, desde as reuniões de apresentação do projeto até a execução em si, feita pela própria pessoa com a ajuda de tutoriais. Com a pandemia, as pessoas ficaram com medo de chamar profissionais para dentro de casa”, diz.

O formato agrada aos clientes, garante Cezar. “A procura tem sido muito grande, tenho fechado cada vez mais projetos. A Desembola foi criada para ser mais acessível, prática e trazer a resolução de um problema pontual.”

O arquiteto elaborou três pacotes para atender as demandas. O básico, chamado de ‘dar uma mãozinha’, auxilia o cliente a imprimir um toque profissional na decoração de um cômodo, por exemplo dicas de pontos de iluminação ou mobiliário.

“Tenho a ideia de criar uma frente focada em atender pequenos negócios, já que muita gente vai abrir ou retomar as atividades”Cezar Augusto Figueiredo, Desembola

A solução ‘perdidaço’ é especial para clientes que precisam de uma ajuda mais ampla e inclui briefing com o arquiteto, projeção em 3D, lista de compras e fornecedores. Por último, há o pacote ‘desembola’, para clientes que buscam transformações mais radicais ou mesmo começar do zero a decoração de um cômodo. Cezar ainda elaborou um pacote focado em paisagismo interno, também com alta demanda na quarentena, de acordo com ele.

Mesmo com apenas dois meses de empresa, Cezar já tem planos futuros. “É preciso entender o cenário pós-pandemia, mas tenho a ideia de criar uma frente focada em atender pequenos negócios, que vão precisar se reorganizar, já que muita gente vai abrir ou retomar as atividades”, acredita ele.


Parklet é opção para atender mais clientes em bares e restaurantes

Os parklets, estruturas feitas em madeira e instaladas geralmente em frente a bares e restaurantes, não são bem uma novidade na capital paulista. Regulamentados pela Prefeitura em 2014, com a pandemia eles viraram sinônimo de ‘salão’ com ventilação natural para restaurantes que não comportam uma estrutura do tipo em sua planta.

O primeiro grande projeto com parklets para promover a circulação segura de clientes na capital e mitigar a crise dos comércios é o Ocupa Rua, encabeçado pela jornalista Alexandra Forbes e executado pelo escritório Metro Arquitetos. As estruturas serão montadas no bairro da República e cerca de 30 estabelecimentos serão contemplados.

O projeto é visto de forma positiva pela arquiteta e urbanista Natalia Ferian, fundadora da NeoParklet e NeoGourmet, escritórios especializados em arquitetura e decoração para o setor de food service. Como trabalha com a elaboração de parklets há quatro anos, Natalia acredita que as estruturas são importantes ferramentas para que os restaurantes possam aumentar a capacidade de atendimento em ambientes ao ar livre. Mas ela ressalta a burocracia de liberação para a instalação.

Parklet em frente ao bar Âmbar, criado e instalado pela NeoParklet FELIPE RAU/ESTADÃO

“O Ocupa Rua é super legal, sabemos que eles têm interesse de que ele vá para outras regiões. Ele é um projeto submetido à Subprefeitura da Sé. A Subprefeitura de Pinheiros suspendeu a análise de parklets durante a pandemia, por exemplo. E estamos em contato direto com a Subprefeitura de Pinheiros para que a gente possa ajudar a melhorar a lei e facilitar esse processo, que é realmente muito burocrático, passa por diversos departamentos dentro da Prefeitura, vai para a CET”, diz.

A arquiteta ressalta que a liberação para a instalação de um parklet demora entre 4 e 6 meses e que, no início, era possível obter a autorização em 15 dias. Para quem quer entender mais sobre as regras em São Paulo, a Prefeitura disponibiliza um guia sobre como implantar os parklets.

Além desses espaços ao ar livre, Natalia elaborou um serviço de consultoria online para decoração interna de restaurantes. Muitos procuraram o serviço como forma de renovar o ambiente para a reabertura. A demanda leva em conta as regras do governo de São Paulo para distância entre mesas, entre outros requisitos.

“Pode ser uma consultoria de usabilidade, decoração, cozinha. O modelo vem fazendo sucesso, porque é um serviço rápido, de baixo custo, pois o dono do negócio não pode nesse momento fazer investimento alto ou obras que demorem muito.”

Reorganização de mesas no Bar Brahma, no centro de São Paulo ALEX SILVA/ESTADÃO

Os bares e restaurantes, à beira do precipício financeiro, após meses fechados ou com renda do delivery que não equiparou o faturamento de antes, enfrentam uma dose extra de preocupação para a reabertura. Segundo pesquisa da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), 1 milhão de trabalhadores ficaram sem emprego de março a maio no País.

Outro levantamento feito pela entidade em São Paulo já apontava, em abril, que o próprio setor estima o fechamento de 40% dos bares e restaurantes da cidade durante a pandemia e nos próximos meses de recessão.

Para Natalia Ferian, a arquitetura é uma aliada do setor de food service em tempos de pandemia. “Não falo só dos elementos decorativos. A gente pensa em fluxo, conforto ambiental, conforto térmico, conforto acústico. A arquitetura pode ajudar a ter um ambiente de qualidade e hoje isso significa um ambiente seguro.”

55% dos donos de bares e restaurantes de São Paulo disseram que a proibição de mesas na calçada afeta o negócio, de acordo com pesquisa realizada no começo de julho pela Abrasel-SP

Sobre oportunidades de mercado, Natalia sinaliza as dark kitchens, modelo de cozinhas industriais de aluguel para o delivery. “Estamos prestando consultorias e começando alguns projetos. Com o aumento dos aplicativos de delivery, esse é um mercado muito interessante”, completa.


EXPEDIENTE

Reportagem Letícia Ginak / Editora do Estadão PME Ana Paula Boni / Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Designers Multimídia Dennis Fidalgo e Lucas Almeida

Se fosse listado na B3, Mercado Livre seria a empresa mais valiosa da Bolsa Brasileira

Pelos números do fechamento desta sexta-feira, a varejista argentina valia US$ 59,351 bilhões
Por Matheus Piovesana – O Estado de S.Paulo

Apesar de ser uma empresa argentina, o Mercado Livre colhe a maior parte de suas receitas no Brasil

Se o Mercado Livre fosse listado na B3, seria a empresa mais valiosa da Bolsa brasileira. Pelos números do fechamento desta sexta-feira, a varejista argentina (mas que colhe a maior parte de suas receitas no Brasil) valia US$ 59,351 bilhões. Em reais, o valor total era de R$ 321,344 bilhões.

As duas empresas mais valiosas da B3, a Vale e a Petrobrás fecharam o pregão de hoje valendo, na Bolsa de Nova York (Nyse), US$ 57,249 bilhões e US$ 55,479 bilhões. Bem atrás, o Itaú Unibanco tinha capitalização de US$ 44,784 bilhões. Na Bolsa de São Paulo, os valores eram de R$ 319,446 bilhões, R$ 301,154 bilhões e R$ 242,768 bilhões.

Embora não seja listado na B3, o Mercado Livre passa pelo mesmo fenômeno que catapulta, desde o início do ano, os valores de mercado de empresas de e-commerce, com a pandemia da covid-19 impulsionando as vendas do varejo online. Por aqui, a mais valiosa é o Magazine Luiza, com capitalização de R$ 139,158 bilhões pelo fechamento de hoje. Em 2 de janeiro, a empresa valia bem menos do que isso, R$ 80,050 bilhões.

No Brasil e nos Estados Unidos, o investidor tem se mostrado mais disposto a pagar valores cada vez maiores por nomes de e-commerce porque, em meio à pandemia, com o receio do consumidor a se expor a lojas físicas, esse negócio é um dos que mais tem se beneficiado. Nos balanços do primeiro trimestre, atingido pela pandemia no País apenas nas últimas duas semanas, as empresas do setor já haviam sinalizado essa aceleração.

No segundo trimestre, a expectativa é que os resultados confirmem esse movimento. “Apenas duas empresas de nossa cobertura apresentarão evolução positiva de vendas no segundo trimestre: B2W e Magalu”, afirmam Daniela Bretthauer, Eric Huang e Tales Granello, da Eleven Financial, em relatório de prévias dos resultados de varejistas. Para as demais, a queda das vendas deve ser superior a 50% em bases anuais. A Eleven vê baixa menor para a Via Varejo, mas “ainda assim uma variação negativa.”

Mais do que pelas vendas, porém, o investidor se mostra mais disposto a pagar por estas empresas por perceber que parte delas tem “fechado o cerco”, dominando, através de aquisições ou iniciativas orgânicas, desde a captação dos clientes até a monetização de anúncios digitais. Neste sentido, aliás, a compra de duas empresas de mídia pelo Magazine Luiza foi elogiada por analistas e, entre outros pontos, colocou a brasileira em um negócio – o de publicidade – no qual o Mercado Livre já opera.

Fashion news: 4 novidades da semana

Entre elas a primeira coleção de óculos de sol eco-friendly da Lacoste e a pop up da Dior na Harrods, em Londres

Pop up da Dior na Harrods, em Londres (Foto: Divulgação/Luke Hayes)

Dior abre pop up na Harrods, em Londres
Para o lançamento da coleção inverno 2021, a Dior inaugura uma pop-up na loja de departamentos Harrods, em Londres, que funcionará até o dia 30 de agosto. No espaço revestido de veludo estão novas versões das icónicas it-bags no mesmo tecido, incluindo a Saddle, Lady D-Lite e Book Tote com o cannage e o monograma Oblique. Também estão em destaque as roupas, bem como o chapéu bob (entre eles uma versão exclusiva) e os lenços. Uma seleção de peças pode ser personalizada usando o serviço ABCDior. 

Dior (Foto: Divulgação)
Dior Book Tote (Foto: Divulgação)

Lacoste lança coleção de óculos de sol sustentável
A marca francesa apresenta a sua primeira linha de óculos de sol sustentável, a Reshape, como parte da coleção-cápsula eco-friendly Beach Pack. O acessório é fabricado com material injetado reciclado: cada armação é composta por 5 garrafas de água PET recicladas, assim como o case, que é feito também com algodão orgânico. Já as lentes, de alta resistência e proteção, são bidegradáveis. Os modelos são unissex e estão disponíveis em uma variedade de cores foscas para adulto e criança. 

Óculos Lacoste (Foto: Divulgação)
Óculos eco-friendly da Lacoste (Foto: Divulgação)

Mixed lança cápsula de camisetas em parceria com Christian Dalgas
Como parte da sua coleção verão 2021, batizada de “A Força da Natureza”, a Mixed lança uma cápsula com cinco camisetas em parceria com Christian Dalgas, preservador de pássaros nativos do Brasil. As t-shirts têm estampas inspiradas nas fotografias de pássaros tiradas por Dalgas. Parte da renda obtida com a venda de uma das camisetas será revertida para a Associação de Preservação da Vida Selvagem, fundada pelo pai do preservador.

Mixed (Foto: Divulgação)
Camiseta da coleção-cápsula da Mixed em parceria com Christian Dalgas (Foto: Divulgação)

Farfetch recebe coleção 365 Days of Pride da Opening Ceremony
O e-commerce recebe com exclusividade no Brasil a coleção 365 Days of Pride da Opening Ceremony, que celebra a comunidade LGBTQIA+, com seis t-shirts. O co-fundador da marca, Humberto Leon, destaca a importância de reconhecer e celebrar o Orgulho LGBTQIA+ não só em junho, mas o ano todo. A label trabalhou em conjunto com o artista Matthew Riemer, co-curador do Instagram @lgbt_history e co-autor do livro fotográfico We Are Everywhere, para elencar uma lista de slogans de edições passadas da Pride March, que serviram de inspiração para a criação das estampas. Elas foram criadas por sete artistas contemporâneos: Braulio Amado, Aya Brown, Terrell Davis, Rafa Esparza, Andrew Thomas Huang e Chella Man. As vendas das camisetas beneficiará várias instituições de Nova York em apoio à causa. 

Camiseta Opening Ceremony (Foto: Divulgação)
Camiseta da coleção 365 Days of Pride da Opening Ceremony com estampa de Braulio Amado (Foto: Divulgação)