Como arquitetura e decoração surfam a onda do isolamento social

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Entenda impulso que home office e volta de bares e restaurantes dão a segmento da economia criativa; confira série de reportagens com negócios de audiovisual, música e moda
Texto: Letícia Ginak / Foto: Matho Fotografia para Decorati

Com a pandemia, em questão de dias a casa também virou escritório, academia, sala de aula e bar virtual. Com a reabertura gradual de estabelecimentos comerciais, como os restaurantes, os locais que oferecem acomodações ao ar livre ganham pontos na escala individual dos clientes. Para trazer segurança, conforto ou mesmo dar um toque profissional em um cômodo que quase não era usado, arquitetos e decoradores entraram em ação.

Logo em abril, no início da quarentena do novo coronavírus, a categoria de produtos de decoração teve alta de 23,5% no e-commerce, segundo o Ebit-Nielsen. A pesquisa Termômetro Anamaco, da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que 42% dos 600 varejistas ouvidos relataram aumento nas vendas entre março e maio. Os dados sinalizam a demanda por pequenas reformas e projetos de decoração, mesmo em tempos de crise.

A startup Decorati, frente de reforma, customização e decoração do grupo Loft, sentiu na prática o interesse dos clientes. No primeiro trimestre do ano, 3,7 mil pessoas pediram orçamento pela plataforma. O número saltou para 8,8 mil no final do segundo trimestre. Mesmo com os efeitos econômicos da covid-19, a empresa cresceu 20% no período.

42% entre 600 varejistas de material de construção entrevistados em pesquisa relataram alta nas vendas de materiais de construção de março a maio

“Os resultados positivos são reflexo de uma leitura rápida que tivemos de como a gente poderia se adaptar. Enfrentamos paralisações em obras de apartamentos, com condomínios que proibiram qualquer tipo de reforma. Fomos ágeis em colocar em prática ações para que esses condomínios ficassem seguros de que iríamos entregar a reforma no menor tempo possível. Fizemos totens de higienização, elaboramos um forte esquema de trabalho de proteção para os funcionários e moradores dos prédios e assim mostramos que a gente tinha condições de retomar”, diz o fundador da Decorati, Murillo Morale.

A procura por itens decorativos e móveis para o home office foi um alerta para a startup identificar as novas necessidades dos clientes. “A frente em que fomos mais bem sucedidos foi em pequenas decorações, do tipo home office. Agora estamos nos deparando com pequenas reformas, como a de um banheiro, que é um serviço que a gente ainda não faz, mas estamos enxergando uma oportunidade grande”, diz Morale.

Além das residências, a arquitetura também será fundamental na adaptação de prédios comerciais e escritórios. É preciso promover maior distanciamento entre as mesas de trabalho e também em refeitórios, investir em ventilação natural e implantar tecnologia de entrada e saída sem toques, como portas automáticas e cartões para registrar o controle de jornada.

O segmento de arquitetura, design e decoração vem sofrendo os reflexos da crise assim como toda a economia e, mais particularmente, o setor da economia criativa. De acordo com a mais recente pesquisa do Sebrae, esse é o segundo setor mais afetado pela pandemia, registrando queda de 70% no faturamento nos últimos meses, atrás apenas do turismo. A pesquisa ainda revela que 71% dos empreendedores da economia criativa ainda não conseguiram reabrir suas empresas e buscam alternativas em meio digital. Apenas 19% tiveram acesso a crédito.

O QUE É A ECONOMIA CRIATIVA?

O setor reúne profissionais e negócios que se utilizam da criatividade como matéria-prima principal para ressignificar ou gerar valor para um determinado setor. Por exemplo, a arquitetura e o design são os segmentos criativos da indústria da construção civil. Músicos se utilizam da criatividade para criar músicas e espetáculos que geram valor para a indústria do entretenimento. O estilista, por meio de seus desenhos autorais, cria novas peças e gera tendências para a indústria da moda. A criatividade é o que gera valor intangível a esses negócios, que não podem ser replicados por qualquer pessoa.

Home office impulsionou criação de pequena empresa

Logo no início de abril, o arquiteto Cezar Augusto Figueiredo começou a ser procurado pelos amigos para auxiliá-los a criar um ambiente adequado ao home office. A ‘consultoria amiga’ foi o pontapé para a criação de uma empresa de projetos de decoração 100% online, a Desembola. Além da necessidade de adequação ao home office, Cezar entendeu também que a maioria reside em imóveis alugados e tinha baixo orçamento para investir nas adaptações.

“Foi então que vi que tinha um nicho de mercado para ser explorado, com demanda por projetos que não exigem reforma, mão de obra especializada e que podem ser executados de maneira muito rápida. Muitas vezes é um ponto de iluminação, um móvel, a escolha certa da tinta ou papel de parede”, conta.

Cezar Augusto Figueiredo: mais olhar para dentro de casa TABA BENEDICTO/ESTADÃO

A Desembola saiu do papel oficialmente no fim de maio e já atendeu 16 projetos desde então, um deles inclusive para uma cliente que vive na Alemanha. “Criei um negócio nativo digital. Não tem nada que eu faça de forma presencial, desde as reuniões de apresentação do projeto até a execução em si, feita pela própria pessoa com a ajuda de tutoriais. Com a pandemia, as pessoas ficaram com medo de chamar profissionais para dentro de casa”, diz.

O formato agrada aos clientes, garante Cezar. “A procura tem sido muito grande, tenho fechado cada vez mais projetos. A Desembola foi criada para ser mais acessível, prática e trazer a resolução de um problema pontual.”

O arquiteto elaborou três pacotes para atender as demandas. O básico, chamado de ‘dar uma mãozinha’, auxilia o cliente a imprimir um toque profissional na decoração de um cômodo, por exemplo dicas de pontos de iluminação ou mobiliário.

“Tenho a ideia de criar uma frente focada em atender pequenos negócios, já que muita gente vai abrir ou retomar as atividades”Cezar Augusto Figueiredo, Desembola

A solução ‘perdidaço’ é especial para clientes que precisam de uma ajuda mais ampla e inclui briefing com o arquiteto, projeção em 3D, lista de compras e fornecedores. Por último, há o pacote ‘desembola’, para clientes que buscam transformações mais radicais ou mesmo começar do zero a decoração de um cômodo. Cezar ainda elaborou um pacote focado em paisagismo interno, também com alta demanda na quarentena, de acordo com ele.

Mesmo com apenas dois meses de empresa, Cezar já tem planos futuros. “É preciso entender o cenário pós-pandemia, mas tenho a ideia de criar uma frente focada em atender pequenos negócios, que vão precisar se reorganizar, já que muita gente vai abrir ou retomar as atividades”, acredita ele.


Parklet é opção para atender mais clientes em bares e restaurantes

Os parklets, estruturas feitas em madeira e instaladas geralmente em frente a bares e restaurantes, não são bem uma novidade na capital paulista. Regulamentados pela Prefeitura em 2014, com a pandemia eles viraram sinônimo de ‘salão’ com ventilação natural para restaurantes que não comportam uma estrutura do tipo em sua planta.

O primeiro grande projeto com parklets para promover a circulação segura de clientes na capital e mitigar a crise dos comércios é o Ocupa Rua, encabeçado pela jornalista Alexandra Forbes e executado pelo escritório Metro Arquitetos. As estruturas serão montadas no bairro da República e cerca de 30 estabelecimentos serão contemplados.

O projeto é visto de forma positiva pela arquiteta e urbanista Natalia Ferian, fundadora da NeoParklet e NeoGourmet, escritórios especializados em arquitetura e decoração para o setor de food service. Como trabalha com a elaboração de parklets há quatro anos, Natalia acredita que as estruturas são importantes ferramentas para que os restaurantes possam aumentar a capacidade de atendimento em ambientes ao ar livre. Mas ela ressalta a burocracia de liberação para a instalação.

Parklet em frente ao bar Âmbar, criado e instalado pela NeoParklet FELIPE RAU/ESTADÃO

“O Ocupa Rua é super legal, sabemos que eles têm interesse de que ele vá para outras regiões. Ele é um projeto submetido à Subprefeitura da Sé. A Subprefeitura de Pinheiros suspendeu a análise de parklets durante a pandemia, por exemplo. E estamos em contato direto com a Subprefeitura de Pinheiros para que a gente possa ajudar a melhorar a lei e facilitar esse processo, que é realmente muito burocrático, passa por diversos departamentos dentro da Prefeitura, vai para a CET”, diz.

A arquiteta ressalta que a liberação para a instalação de um parklet demora entre 4 e 6 meses e que, no início, era possível obter a autorização em 15 dias. Para quem quer entender mais sobre as regras em São Paulo, a Prefeitura disponibiliza um guia sobre como implantar os parklets.

Além desses espaços ao ar livre, Natalia elaborou um serviço de consultoria online para decoração interna de restaurantes. Muitos procuraram o serviço como forma de renovar o ambiente para a reabertura. A demanda leva em conta as regras do governo de São Paulo para distância entre mesas, entre outros requisitos.

“Pode ser uma consultoria de usabilidade, decoração, cozinha. O modelo vem fazendo sucesso, porque é um serviço rápido, de baixo custo, pois o dono do negócio não pode nesse momento fazer investimento alto ou obras que demorem muito.”

Reorganização de mesas no Bar Brahma, no centro de São Paulo ALEX SILVA/ESTADÃO

Os bares e restaurantes, à beira do precipício financeiro, após meses fechados ou com renda do delivery que não equiparou o faturamento de antes, enfrentam uma dose extra de preocupação para a reabertura. Segundo pesquisa da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), 1 milhão de trabalhadores ficaram sem emprego de março a maio no País.

Outro levantamento feito pela entidade em São Paulo já apontava, em abril, que o próprio setor estima o fechamento de 40% dos bares e restaurantes da cidade durante a pandemia e nos próximos meses de recessão.

Para Natalia Ferian, a arquitetura é uma aliada do setor de food service em tempos de pandemia. “Não falo só dos elementos decorativos. A gente pensa em fluxo, conforto ambiental, conforto térmico, conforto acústico. A arquitetura pode ajudar a ter um ambiente de qualidade e hoje isso significa um ambiente seguro.”

55% dos donos de bares e restaurantes de São Paulo disseram que a proibição de mesas na calçada afeta o negócio, de acordo com pesquisa realizada no começo de julho pela Abrasel-SP

Sobre oportunidades de mercado, Natalia sinaliza as dark kitchens, modelo de cozinhas industriais de aluguel para o delivery. “Estamos prestando consultorias e começando alguns projetos. Com o aumento dos aplicativos de delivery, esse é um mercado muito interessante”, completa.


EXPEDIENTE

Reportagem Letícia Ginak / Editora do Estadão PME Ana Paula Boni / Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Designers Multimídia Dennis Fidalgo e Lucas Almeida

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