A arrumação da casa não acompanha o ritmo da pandemia

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Estamos em casa o tempo todo, mas como ninguém está vindo, há realmente algum motivo para arrumar a bagunça todos os dias?
Ronda Kaysen, The New York Times – Life/Style

Ilustração de Trisha Krauss/The New York Times.

Minha casa não é o que costumava ser. Em uma manhã qualquer, passando pela sala de estar, talvez repare em um pacote da Amazon aqui, uma pilha de máscaras faciais descartadas lá. É possível até que uma caixa aberta de utensílios de arte para o acampamento de verão da minha filha na Zoom esteja em um canto, ao lado da lareira, esperando que seu conteúdo seja espalhado pela mesa de jantar em algumas horas – como se a minha sala de jantar se destinasse sempre a estar preparada para uma aula de arte.

A sala de estar costumava ser relativamente arrumada, apenas com as coisas normais de uma sala de estar – uma seção de jornal, uma xícara de café, chinelos. Agora, meses depois do início da pandemia de coronavírus, perdi o fio da meada. Os quartos não têm mais uma finalidade clara, porque qualquer espaço pode, a qualquer momento, tornar-se uma academia ou uma sala de aula ou uma sala de vídeo conferência com a câmera em uma posição estratégica para esconder o caos. Como não haverá visita no futuro previsível, para que fingir? O normal não vai voltar tão cedo.

“No começo, eu pensava: ‘Tudo bem, vamos imaginar como deve ser este negócio de casa-escola. De qualquer modo, só faltam mais algumas semanas até o verão’ ”, disse Joanna Teplin, proprietária da The Home Edit, uma companhia que organiza espaços, de Nashville, Tennessee. “Mas agora, a realidade está muito clara, esta será minha vida agora”.

E a vida agora não é bonita. Perla Mondriguez, de 41 anos, uma mãe de West Orange, Nova Jersey, com três filhos em idade escolar, um deles com necessidades especiais, me contou que agora vê a pandemia através das lentes da sua mesa da entrada. Antes era uma mesa muito bonita, com flores, uma vela, a correspondência do dia e uma pequena travessa com algumas moedas de troco.

Agora, ali vale tudo. Aqui está um inventário dos objetos que estavam aqui no dia em que nós conversamos: uma grande concha marinha encontrada na praia, um par de luvas de trabalho, óculos de natação, uma variedade de máscaras de algodão, uma fita métrica, um console Nintendo Switche uma pilha de recibos amassados. “Meu deus, os sapatos!” disse Perla apontando uma pilha de sandálias, chuteiras, tênis e chinelos de dedo enfiados embaixo da mesa.

“Normalmente, não há todos estes sapatos fora de lugar”. Normalmente, os meninos, de 8, 11 e 13 anos, estariam lá fora fazendo as coisas típicas do verão – jogando futebol ou conversando com os amigos. Em vez disso, o mais novo agora constrói fortalezas com enormes caixas de papelão, com um túnel por onde ele se arrasta para entrar no seu quarto – que não é exatamente uma realização destinada a economizar espaço.

O de 11 anos está na metade do projeto de um quebra-cabeça de 300 peças que tomou conta da mesa de jantar. E o de 13, já é um adolescente, raramente deixa seu quarto, nem mesmo para as refeições. “Sem mentira nenhuma, fede”, falou Mondriguez falando do quarto. Em outras épocas, ela teria arrumado tudo enquanto as crianças estivessem na escola. Mas aqueles momentos de solidão se foram. Seu marido, David Acosta, trabalha para uma administradora de imóveis em Manhattan, e voltou para o escritório em abril.

Portanto, Perla, que trabalha levando cachorros para passear e cujo negócio está recomeçando agora, só pode contar com ela mesma em sua casa de quatro quartos. Arrumar a casa já ocupa um lugar bem em baixo na lista de prioridades. “Para quê? Você nunca está sozinha para ouvir alguma música, sentar aqui por uma hora e esvaziar a geladeira e limpar a água que espirra. “É preciso energia para isto”, ela disse. “E é difícil encontrar esta energia quando há outros três seres vivos que precisa supervisionar constantemente”.

Enquanto os meses da pandemia se prolongam, muitas pessoas estão cansadas da casa que raramente podem deixar. Claro, alguns aperfeiçoaram suas rotinas de limpeza como se se tratasse de uma arte, com pias brilhantes e mesas de café que contêm apenas livros para a mesa do café. Mas eu não sou este tipo de pessoa. Minha casaestá em uso constante e, portanto, as coisas vão se acumulando, assim como o pó em cima delas.

Sem nenhum prazo para acabar no horizonte – esqueça as festas de verão, sequer desejamos sair de casa na segunda-feira de manhã – os dias vão gotejando uns nos outros, cada qual uma versão surreal do último. Faith Roberson, organizadora de casas em Manhattan, sugere que se escolha um dia para cada tarefa e que se obedeça a esta escolha. Segunda para arrumar a bagunça, terça para lavar a roupa, e assim por diante.

Mas até uma organizadora profissional tem seus limites. “Quem liga pra isso?” ela disse. “Eu sei o que é preciso para manter a casa limpa, mas se a mesa não está limpa, não está limpa”. Só porque estamos na nossa casa o tempo todo não significa que ela mereça toda a nossa atenção. Passamos a fase do fazer pão caseiro durante a pandemia e entramos em uma outra, amorfa, sem uma saída clara em vista.

Faith sugere que aceitemos que nossas casas simplesmente não merecerão todo o nosso amor o tempo todo. Amém! “Você tem outras necessidades”, ela disse. “Talvez queira fazer algum tipo de arte, ou meditar”. E, com certeza, você não deverá querer limpar toda a bagunça da mesa da entrada. E quem sabe, pelo contrário, queira deixar como está e acabar um quebra-cabeça de 300 peças. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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