Lovecraft Country mostra a que veio com vingança alegórica contra o racismo

Adaptação envolve bem com narrativa que nubla fantasia e aula de história
MARCELO HESSEL

ESPANTO - George, Atticus e Letitia: a odisseia macabra pelos Estados Unidos segregados dos anos 50 – ./HBO

Vai soar familiar para muita gente a forma como Lovecraft Country aborda seu universo temático, no primeiro episódio da nova série da HBO. É familiar não só pelas referências e pelas citações pontuais de personagens, temas e situações tirados da “baixa literatura” de H.P. Lovecraft e Edgar Rice Burroughs, mas principalmente é familiar porque – a exemplo de Jurassic WorldStar Wars e outras franquias do universo nerd hoje – a relação que o episódio estabelece entre protagonistas e espectadores é mediada pela cultura do fã.

No papel, a jornada que envolve o veterano de guerra Atticus “Tic” Freeman (Jonathan Majors) pelas estradas dos EUA dos anos 1950 é investigar o desaparecimento do seu pai. Na prática, Tic, seu tio e uma amiga de infância pegam a estrada para descobrir se a região de Massachusetts que inspirou os contos e as novelas de horror de Lovecraft é de fato assombrada, como nos livros. Tic e a amiga inclusive tinham um clube de leitura de ficção científica quando eram adolescentes; nisso não se diferem muito dos moleques de Os Goonies que amavam histórias de piratas até as viverem pessoalmente: não há nostalgia oitentista mais resistente do que a licença que Steven Spielberg nos deu para permanecermos na infância.

A reviravolta que torna Lovecraft Country interessante é que essa romantização da eterna infância – uma fantasia essencialmente branca, masculina e heterossexual – é impossível para os negros nos EUA, que descobrem cedo o fim da inocência e as injustiças da vida, e especificamente aqui para os negros nos anos que sucedem a Segunda Guerra Mundial e antecipam as conquistas de direitos civis na década de 1960. Ao mesmo tempo em que o período do chamado Baby Boom faz do estilo americano um grande slogan (o episódio manda bem quando a câmera se aproxima romanticamente das fachadas de lanchonetes e sorveterias para emular as luzes e cores do american way, e então revelar mais de perto a segregação institucionalizada nas placas e nos avisos de vitrine), os negros se sentem mais do que nunca excluídos dessa prosperidade econômica e da tal liberdade das democracias ocidentais.

Que Tic seja um veterano traumatizado da Guerra da Coreia, assim como o Don Draper de Mad Men, oferece toda uma base irresistível de comparação: o caipira Don/Dick se aproveitou da segunda chance para reinventar a si mesmo e moldar – como quis, privilegiado que é – o mundo à sua volta. O que Tic tem diante de si quando volta amargurado da guerra? Desilusões renovadas e a descoberta de que a vida não está nas suas mãos. À parte toda a dimensão histórica das lutas raciais americanas, esse tema tem muito potencial na ficção quando envolve infância, fantasias projetadas, destinos manifestos e o fim da inocência; não por acaso Stephen King coloca um negro para ser o sobrevivente adulto desperto dos pesadelos juvenis em A Coisa. Contemporâneo de Spielberg e devoto de Lovecraft, King fez naquela época uma ponte muito precisa entre o pesadelo lovecraftiano e a candura spielberguiana.  

O escritor Matt Ruff, autor do livro Território Lovecraft, no qual a série da HBO se baseia, talvez esteja também sob essas influências. Sua obra saiu em 2016, cinco anos depois do lançamento de Jogador Número 1, e já na cena inicial do primeiro episódio de Lovecraft Country somos transportados para um universo de fantasia gamificado: Tic sonha com visões de uma trincheira de guerra envolvendo OVNIs, Cthulhu, Jackie Robinson e uma Dejah Thoris coreana – é piscar e perder uma das muitas referências, como também acontece no mundo virtual saturado de easter eggs de Jogador Número 1. Na realidade projetada, o episódio de estreia já finca sua posição política de forma definitiva: ninguém menos que Robinson, o lendário jogador de beisebol que quebrou as barreiras raciais do esporte, é quem parte ao meio o monstro supremo do panteão lovecraftiano. Tudo bem que Cthulhu logo em seguida se refaz (seguindo o que acontece em “O Chamado de Cthulhu” quando a criatura é atravessada pelo barco), mas o manifesto está feito: o racismo, inscrito em toda a obra de Lovecraft, será tratado aqui na base da paulada.

Depois disso o episódio é estruturado como uma grande construção de expectativa para vermos as pauladas transportadas para o mundo real.

E que virada: partimos de uma postura passiva, até submissa (as reminiscências da literatura pulp e dos quadrinhos de super-herói), passando por uma exposição paradidática que aterra a fantasia (o discurso de James Baldwin em off, a pequena aula de história sobre os tijolos da Casa Branca), e finalmente chegando na ação concreta contra os monstros do racismo, que na sua válvula de escape se parece muito com uma história de vingança tarantinesca, na medida em que atribui a si mesmo, por meio da cinefilia, uma autoridade para reescrever e corrigir injustiças históricas na ficção. É a cultura de fã legitimada na práxis.

Melhor que Watchmen

Visualmente, o elemento mais forte do episódio é a forma como toda essa transição da fantasia para o mundo real se dá aos poucos, aqui e ali, com escolhas de design de produção pensadas para normalizar o cartunesco. Isso está obviamente no carro prateado e na loira fatal de chapéu vermelho, saídos das taras de algum romancista pulp, mas está também na festa de rua em Chicago, com suas cores saturadas para nos passar a sensação de que Lovecraft Country existe numa espécie de realidade aumentada, onde inclusive o sexo entre negros de meia idade é absolutamente mundano e corriqueiro. 

Essa percepção que mistura o real e o quadrinesco é crucial para que os ultrajes do racismo, quando acontecem violentamente, nos pareçam realistas e também absurdamente caricatos, em igual medida. É como acordar com uma tacada na cabeça: como é possível que um mal tão vil, como a noção preconceituosa das tais “cidades do pôr-do-sol”, tenham acontecido de verdade nos EUA e não sejam produto de uma distopia tipo The PurgeLovecraft Country melhora o Watchmen da HBO porque também está cruzando realidade e fantasia para compreender de onde tiramos nosso imaginário popular e como ele repercute na História, mas a adaptação de Damon Lindelof se encantava com o próprio lampejo de gênio e aqui tudo parece ser mais orgânico e menos deslumbrado. 

A cena central para ilustrar isso não seria outra senão a perseguição da viatura policial no pôr-do-sol. Jordan Peele não é o produtor principal da série – essa função cabe à também roteirista Misha Green – mas é inevitável pensar no final de Corra! quando os protagonistas se veem reféns do racismo estrutural e da violência policial. A esperada chegada de Tic e Cia. ao tal território de Lovecraft não é uma cena cinematográfica de delírio noturno como o looping do carro de Sam Neill preso em Hobb’s End no lovecraftiano À Beira da Loucura, mas testemunhar o absurdo do preconceito legitimado pela Lei pode ser igualmente vertiginoso. 

Por conta do acúmulo dos ultrajes, quando finalmente vem a tal catarse tarantinesca, no clímax do episódio, é inevitável recebê-la com o júbilo de uma justiça providencial. Por enquanto, é aí que reside a vingança da série contra o racismo de Lovecraft, pois inverte-se completamente a lógica da obra do autor; nos Mitos de Cthulhu, Lovecraft sempre tratava seus protagonistas (espelhados em si mesmo) como vítimas inocentes e inevitáveis dos horrores antigos do mundo, e em Lovecraft Country o ex-soldado Tic recusa o vitimismo e assume para si – seja como alvo real do racismo, seja como consumidor crítico de ficção barata – o controle da sua própria história de heroísmo e reparação.

Anna Zesiger for L’Officiel Baltics with Gwen van Meir

Photography: Anna Zesiger. Fashion Stylist: Maison Gassmann. Hair and Makeup: Nina Tatavitto. Model: Gwen van Meir.

Jacque D Designs | Resort 2020 | Full Show

Jacque D Designs | Resort 2020 | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/1080p – Art Hearts Fashion/Miami Swim Week)

Peter Peters – So Deep

Saiba as principais tendências que estão no radar dos designers

Dez das principais tendências mapeadas pela plataforma WGSN Lifestyle & Interiors para os profissionais de design e interiores considerarem em seus projetos
POR LUIZA LOYOLA

Pensamento sustentável e redução do estresse são só duas das tendências para os designers ainda neste ano (Ilustração Nik Neves / Editora Globo)

Já parou para pensar nas tendências do morar deste ano? Vamos listar aqui todas (ou pelo menos boa parte) das 10 principais tendências mapeadas pela plataforma WGSN Lifestyle & Interiors, que ajuda, principalmente, os profissionais de design. Anote e veja o que já está no seu radar. 

1. Pensamento sustentável: em todos os segmentos, a sustentabilidade é requisito intrínseco. Nas categorias de produtos, os designers se voltam para materiais ecológicos, incluindo os plásticos reaproveitados, os biomateriais e os resíduos naturais, além de tecnologias emergentes, como os plásticos reciclados e impressos em 3D.

2. Projetando para o conforto: use materiais calmantes, texturas sensoriais e produtos relaxantes em casa. A ideia do lar como santuário está mais forte do que nunca, traduzindo-se em um minimalismo caloroso, discreto, vívido e refinado.

3. Redução do estresse: o desejo de viver uma vida feliz e saudável continua a ser prioridade cultural, mas o foco mudou de fora para dentro. Os lares fazem cada vez mais parte dos rituais de bem-estar.

4. Olhando para a natureza: os consumidores procuraram se reconectar com a natureza como antídoto para um mundo ainda mais urbanizado e inundado de tecnologia. O design biofílico e os materiais naturais tornam os espaços bonitos e, consequentemente, melhorarão o bem-estar.

5. Divertido e expressivo: personalidade, emoção e caráter são essenciais para o design de interiores e de produtos, na medida em que as pessoas procuram mais alegria e criatividade no mundo.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

6. Feito sob medida: a personalização se torna cada vez mais popular graças aos avanços tecnológicos e às plataformas digitais que permitem aos consumidores participar do processo de design.

7. Celebrando a localidade: o foco nos materiais locais e nos processos de fabricação regionais pode aumentar a sustentabilidade e a conexão entre compradores e produtos.

8. Marca do artesão: traços artesanais dão aos objetos a sensação de individualidade. Promovem ainda conexão mais significativa e pessoal com os produtos e atuam como contraponto à perfeição das peças feitas à máquina e produzidas em massa.

9. Design digital: as ferramentas digitais podem funcionar como fonte de inspiração para os produtos físicos. À medida que o design e a criação de protótipos digitais se tornam fundamentais para o processo de fabricação dos produtos, os designers encontram inspiração nessas técnicas emergentes.

10. Realidade mista: a realidade aumentada vem se tornando presente em produtos e experiências, com aplicações funcionais e imersivas. Identificar o que faz sentido para você é o primeiro passo para colocar essas ideias em prática!


Luiza Loyola é especialista do WGSN, que tem o portal Lifestyle & Interiors, sobre tendências de design de interiores, hospitalidade e estilo de vida. Contato: marketinglatam@wgsn.com

Dennis Stenild for ELLE Denmark Featuring Warsan

Photographer: Dennis Stenild. Fashion Stylist: Agnes Buch. Hair: Jan Stuhr at Le Management. Makeup: Marie Thomsen. Model: Warsan at Unique.

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‘Doutor Sono’ tem cenas aterradoras, mas com momentos desconcertantes

Sequência de ‘O Iluminado’ pode ser assistido na HBO

Ewan McGregor em cena de ‘Doutor Sono’ (foto Warner Bros.)

Cinéfilo de carteirinha coloca Stanley Kubrick no panteão dos grandes do cinema. É sabido que o diretor sempre quis fazer a obra-prima definitiva de todos os gêneros que abordou. Muitas vezes conseguiu. O terror de O Iluminado, por exemplo. Só quem não gosta do filme é o autor do livro, Stephen King.

Ele não apenas realizou sua versão da história de Jack como série. Em 2013, propôs uma sequência em livro – Doutor Sono – que virou filme de Mike Flanagan. É a atração desta segunda, 17, às 22h09, no canal HBO. Lembram do garoto Danny? Cresceu e virou Ewan McGregor. Passados mais de 30 anos dos acontecimentos no Hotel Overlook, Danny ainda não superou o trauma. Ele usa seus poderes para aliviar o sofrimento de pessoas à beira da morte. Liga-se a uma garota, Abra. Como ele, Abra possui o Brilho e atrai os integrantes de uma seita liderada por Rebecca Ferguson, da série Missão Impossível.

Rebecca e seus seguidores alimentam-se da aura de pessoas que devem morrer violentamente para produzir energia. Numa cena forte, uma tenta entrar na mente da outra. A narrativa volta ao Overlook com a recriação de cenas emblemáticas do clássico de Kubrick. O resultado desconcerta, mas em alguns momentos Flanagan quase chega lá e cria cenas aterradoras. O medo impõe-se, você vai ver. [Luiz Carlos Merten]

Blake Lively e Ryan Reynolds postam foto usando máscaras decoradas pelos filhos

Casal de atores é pai de três crianças, que têm entre nove meses e cinco anos de idade

Blake Lively e Ryan Reynolds Foto: Instagram / @blakelively

A atriz Blake Lively publicou um story em seu Instagram mostrando que ela e o marido, o também ator Ryan Reynolds, estão usando máscaras enfeitadas por suas filhas durante a pandemia do novo coronavírus.

“Nós não vamos deixá-los com vergonha no ensino médio…”, brincou a atriz na legenda da publicação.

O casal é pai de três filhas: James, 5, Inez, 3, e Betty, de nove meses. Recentemente, os dois doaram U$ 1 milhão para o combate ao coronavírus.

Harry e Meghan vão gastar R$ 35,5 milhões por ano para se manter nos EUA, prevê jornal ‘Daily Mail’

Segundo analistas, isso pressiona o casal a fechar acordos comerciais

Meghan Markle e príncipe Harry

Depois de comprar uma casa de US$ 14,6 milhões, na Califórnia, o príncipe Harry e Meghan Markle vão precisar de bastante dinheiro para o padrão de vida elevado. O jornal “Daily Mail” fez as contas e prevê que os Sussex vão gastar, anualmente, 5 milhões de libras (algo em torno de R$ 35,5 milhões) para manter a casa.

Só os gastos com os seis seguranças ficam em torno de 775 mil libras (R$ 5,5 milhões). Mordomo e quatro empregados de casa custam, em média, 428 mil libras (R$ 3 milhões). O jornal esmiuça tanto os gastos que até uma previsão das contas de luz da propriedade: 23 mil libras por ano (R$ 166 mil).

Por causa desses valores, analistas da família real prevêem que o casal vá agora correr atrás de bons acordos comerciais para incrementar a renda. Só neste ano, em uma palestra, Harry recebeu cerca de 380 mil libras (R$ 2,7 milhões).

Estima-se que a fortuna pessoal do príncipe é de 16 milhões de libras (R$113,6 milhões). Esse número inclui a herança deixada pela princesa Diana e pela rainha-mãe, sua bisavó. No ano passado, Charles repassou para os filhos um valor total de 5 milhões de libras a ser dividido para casa um.

Estágio volta a crescer, agora com políticas de diversidade

Posicionamento antirracista ganhou força com o uso da tecnologia digital para a exposição de crimes, divulgação de informações e organização de movimentos
Amanda Pinheiro e Gilberto Porcidonio

Gabriel Santos, estudante de Relações Internacionais da ESPM, integra o coletivo negro da universidade, o Afroria. Foto: Taba Benedicto/Estadão

Depois de um período de estiagem nas vagas de estágio no começo da pandemia do novo coronavírus, a oferta voltou a crescer no último mês e, com o tema diversidade & inclusão amplificado nas últimas semanas, as empresas resolveram dedicar oportunidades de nicho para estudantes universitários.

Em abril, foi registrada uma queda de 84% nas vagas de estágio no País, segundo o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), se comparado com o mesmo período do ano passado – uma redução que foi de 33 mil vagas em abril de 2019 para 5 mil vagas em abril de 2020. Em junho, porém, o setor reagiu e a oferta cresceu 99,34% em relação às 5 mil vagas de abril deste ano.

Empresas como Ambev, EDP e Eaton focaram seus processos seletivos especificamente na inclusão de pessoas negras, enquanto organizações como a Kraft Heinz ampliaram o escopo para mulheres, comunidade LGBTQIA+ e pessoas com deficiência (PCD).

Para Ana Bavon, fundadora da B4People, que realiza consultoria e treinamento de cultura inclusiva, ações como essas geram um impacto tanto para sociedade quanto para a empresa, sendo além de tudo um ato estratégico.

“Quando a empresa olha para jovens negros em sua base, ela provoca uma ruptura. A sociedade para de olhar para pessoas negras somente como força operacional e braçal”, explica ela. “Para a empresa, é pensar na sustentabilidade e na longevidade do próprio negócio, visto que está oxigenando o ambiente, trazendo novas narrativas. Isso amplia a perspectiva, a capacidade de inovar e de ser mais competitiva.”

A especialista explica que a inovação só se constrói a partir de ideias diferentes e que trazer pessoas negras para esse debate aumenta as perspectivas. “No Brasil, nenhuma empresa espelha a sociedade, que é composta em maioria por pessoas negras. Uma empresa que se preocupa em trazer proporcionalidade negra no seu quadro sai como pioneira”, diz. Para ela, por conta da pandemia, os consumidores passam a consumir buscando empresas guiadas pelo propósito e pelo impacto social.

Com o objetivo de ampliar as perspectivas e diversificar a empresa, a Ambev tem focado em ações afirmativas dentro da companhia desde 2015, tendo 2016 como um ano importante nesse processo com a criação dos grupos de diversidade, que promovem discussões e eventos sobre uma série de assuntos.

Gabriel Santos, estudante de Relações Internacionais da ESPM, integra o coletivo negro da universidade, o Afroria. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A criação de um projeto voltado para a atração e o desenvolvimento de estudantes negros foi criado em 2019 como piloto, chamado de Representa, quando 10 estagiários foram contratados para a sede da Ambev em São Paulo. O programa foi ampliado em 2020 com mais de 80 vagas em todo o País, tendo como base as histórias de vida dos candidatos, sem exigir experiência profissional ou conhecimento e fluência em língua inglesa.

“As desigualdades sociais são um problema estrutural do nosso País e, por conta disso, pessoas negras têm menos oportunidades de sonhar grande do que as pessoas brancas. O Representa é sobre criar um meio para que todos tenham as mesmas oportunidades de crescer junto com a gente”, diz a empresa em nota.

Ainda que a população brasileira seja composta em sua maioria (56,34%) por pessoas negras, de acordo com os dados da Pnad Contínua, há uma disparidade para grande parte de sua população: a faixa salarial de brancos é R$ 3.020, em média R$ 1.307,50 a mais do que a dos negros.

De olho em liderança mais diversa

Assim como a Ambev, a EDP começou seu processo de transformação na cultura da empresa em 2015, quando visava um ambiente corporativo mais diverso. No primeiro trimestre de 2019, criaram o Programa de Inclusão & Diversidade, integrando seis grupos: culturas e espiritualidades; gerações; equidade de gênero; LGBTQIA+pessoas com deficiência e raça.

“O processo seletivo de estágio voltado para pessoas negras foi criado neste ano, como uma das resoluções do Programa de Inclusão & Diversidade. A companhia vai destinar 50% das vagas para negras e negros. Ao formar novos líderes em médio prazo, esta iniciativa também contribui para tornar a nossa liderança mais diversa”, afirma Fernanda Pires, diretora de Pessoas, Digital e Sociedade da EDP no Brasil. As inscrições da EDP vão até 13 de setembro.

Outra empresa que optou por um olhar voltado aos candidatos negros foi a Eaton, companhia de gerenciamento de energia. O Programa de Estágio 2021, com mais de 100 vagas, está aberto até o dia 31 de agosto e conta com o Programa Diversifica, que tem por objetivo recrutar estudantes negros. O número de vagas voltadas ao programa não foi especificado.

Ao mesmo tempo, a Kraft Heinz realiza seu primeiro processo seletivo voltado para as diversidades. Para Irina Preta, Head People & Performance Ops LATAM da Kraft Heinz Brasil, o movimento de inclusão de diversidade começou em 2018, num espaço que era pouco flexível.

Para a consultora em D&I Ana Bavon, políticas de diversidade geram um impacto tanto para sociedade quanto para a empresa. Foto: Amanda Rodrigues

Para a consultora em D&I Ana Bavon, políticas de diversidade geram um impacto tanto para sociedade quanto para a empresa. Foto: Amanda Rodrigues

“Começamos com treinamentos, conversas. Neste ano, começamos a ter grupos de diversidade e todo o programa de estágio está sendo movimentado por eles, na missão de buscar os candidatos”, diz. O programa oferta cerca de 30 vagas, para o escritório em São Paulo e as fábricas em Goiás, com inscrições abertas até 4 de setembro pelo site.

Importância da seleção de nicho

Para Gabriel Santos, estudante de Relações Internacionais da ESPM, é importante ter em vista que a desigualdade racial é uma realidade e os processos seletivos voltados para pessoas negras são importantes. “Causa mais paridade entre os candidatos, mesmo com pessoas de diferentes níveis sociais. O primeiro ponto para a gente sentir vontade de trabalhar nessas empresas é conseguir se ver nelas”, diz ele, que integra o coletivo negro da ESPM, o Afroria.

“Em uma série de processos seletivos, até mesmo em alguns que eram voltados para pessoas negras, eu sentia que pensavam o quão branco eu poderia ser ali”, desabafa.

Gabriel conta que participou de alguns processos seletivos para pessoas negras, como o da Ambev. Além disso, participou da primeira edição do Next Step, programa que busca aumentar a representatividade de negros no Google Brasil. “A empresa faz jus à sua imagem e tem um processo seletivo voltado para desenvolver o candidato.”

Contudo, essa não é a realidade de todas as empresas. “Eu já passei por uma situação em que a seleção era para negros, mas havia uma falsa inclusão. Na fase final, cancelaram o processo e logo em seguida abriram um processo geral.”

De acordo com a especialista em diversidade Ana Bavon, o comprometimento da empresa está ligado à sua responsabilidade social. “Quando uma empresa não pensa na responsabilidade, ela gera um impacto negativo, devolvendo um profissional frustrado.”

O papel dos coletivos negros universitários

Em universidades particulares de São Paulo, como ESPM e FGV, os coletivos negros surgem como uma forma de resistência em um ambiente majoritariamente elitista e branco. Como forma de unir a comunidade para combater o preconceito vivido diariamente, esses espaços têm ganhado visibilidade nas empresas que buscam ampliar a diversidade em seus processos seletivos.

“Eu faço parte do coletivo negro e do coletivo LGBTQIA+ da ESPM e muitas empresas entram em contato com a gente pra divulgar vagas e participar de alguns projetos. Às vezes parece que estamos só militando, mas na verdade estamos criando um espaço onde podemos crescer juntos”, diz Gabriel Santos.

Para Raquel Leite, uma das fundadoras do Afroria, os coletivos facilitam o trabalho para as empresas. “Seria muito mais trabalhoso e teria mais chances de dar errado ir atrás somente da instituição, porque ela faz o que quer e nem sempre isso é o interesse dos alunos. Os coletivos ajudam a quebrar esse padrão, tornando o processo mais justo e democrático.”

Robson Cerqueira, trainee da GetNet e um dos fundadores do coletivo negro da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o 20 de Novembro, diz que em um primeiro momento o coletivo funciona como um espaço de acolhimento e também catalisador de demandas, mas que vem ganhando notabilidade ante as empresas.

“A partir do surgimento de mais coletivos em instituições de ensino, o movimento ganhou visibilidade no mercado profissional. As empresas desejam aumentar a diversidade para criar melhores produtos/serviços e obterem maiores retornos. Assim, os coletivos contribuem como uma ponte entre bons profissionais e a mudança organizacional das empresas em uma trilha de mais diversidade.”

Robson conta que pôde desenvolver projetos voltados para comunidade negra dentro da empresa. “O ambiente profissional ainda é muito desigual, ainda mais olhando para o setor financeiro e de tecnologia, representando um grande desafio para as instituições. Felizmente, a companhia em que eu trabalho lida com todos os pilares de diversidade.”

Para Ana Bavon, o antirracismo deve estar dentro da área de compliance na empresa, com o endosso de governança, e ser um valor inegociável da corporação. “O antirracismo não está na esfera do sujeito. Não estamos falando de acolher jovens negros, estamos falando de transformar a estrutura social e institucional.”