Como o estilista Pierre Cardin usou a moda para revolucionar o mundo

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Em entrevista, francês reflete sobre a fuga de sua família do fascismo na Itália e fala sobre sua carreira
Marc Myers

Pierre Cardin, 98, é um designer francês que foi o primeiro a democratizar a alta moda e a desenvolver seu nome como marca. Um documentário sobre sua vida, “House of Cardin”, será lançado em 28 de agosto.

THE WALL STREET JOURNALPierre Cardin, de 98 anos, é o estilista francês que primeiro democratizou a moda fina e desenvolveu seu nome como marca. Um documentário sobre sua vida, “House of Cardin”, será lançado dia 28 de agosto. Ele conversou com Marc Myers.

O soldado alemão olhou para os meus documentos. Depois olhou para mim, e de novo para os documentos. Ele ordenou que eu subisse em um caminhão preto. Passei 24 horas sentado lá, chorando. Estava morrendo de medo.

Foi em junho de 1940, pouco depois da invasão alemã à França. Eu tinha 17 anos, e estava viajando de bicicleta a Paris, para procurar trabalho como alfaiate. Em um posto de controle alemão, o soldado achou que meus documentos eram falsificados.

No dia seguinte eles me soltaram. Corri tanto, ao sair de lá, que quase voei. Depois daquela experiência, eu só tinha uma ambição: fazer sucesso.

Nasci na casa de meus pais em San Biagio di Callalta, na Itália, cerca de meia hora ao norte de Veneza. Meu nome italiano de batismo era Pietro Cardin, pronunciado “Cardin” e não “Cardã”, e fui o último de nove filhos.

Antes da Primeira Guerra Mundial, meus pais eram proprietários de terras prósperas. Eram comerciantes de vinho e tinham vinhedos, e armazéns de gelo que forneciam gelo às pessoas da aldeia.

A guerra foi traumática e prejudicou os negócios do meu pai. Depois veio o fascismo italiano, no começo da década de 1920. Meus pais não queriam nos criar lá.

Em 1924, eu tinha dois anos e meio, nos mudamos para a França, para escapar. Primeiro moramos em Firminy, cerca de uma hora a sudoeste de Lyon. Quando eu tinha sete anos, nos mudamos para Saint Étienne, uma cidade maior a cerca de 20 minutos de distância.

Lá, alugamos uma casa isolada, com um jardim e um pomar nos fundos. Meu pai não conseguia encontrar emprego, e tinha de usar o dinheiro que trouxemos da Itália para alimentar a família.

O que mais me lembro sobre nossa casa eram as frutas que cresciam do lado de fora. Quando respiro fundo, ainda consigo me lembrar do cheiro das macieiras e pereiras.

Família posa para foto
Pierre Cardin, primeira fila à esquerda, com sua família na Itália em 1924. Última fila, a partir da esquerda: Teresa, pais Alessandro e Maria Montagner-Cardin, Amelia e Rosy. Centro: Carlo. Fila da frente, direita: Cesar. – Arquivo pessoal/Pierre Cardin

Poucos anos depois, fiz muita amizade com uma menina da minha idade, chamada Janine, que morava lá perto. Um dia, desenhei uma coleção de vestidos para suas bonecas, e os costurei com o material branco usado em roupas de balé. Meu pai não ficou feliz com minha nova paixão. Dizia que fazer vestidos não era trabalho para meninos. Fiquei muito triste quando eles tiraram as roupas que fiz das bonecas.

Meus pais eram pessoas já mais velhas. Maria, minha mãe, tinha 46 anos, e Alessandro, meu pai, 58, quando nasci. Eles me deram uma boa educação, mas em geral não interferiam muito comigo, e pude fazer o que queria.

Eu era uma criança muito sensível. Fui criado com bons modos, mas era solitário. Passava boa parte do meu tempo desenhando, criando modelos. Além da moda, eu amava a arquitetura e o teatro, que permitem que você seja sentimental. Na moda, isso não é possível.

Aos 17 anos, comecei a fazer um curso noturno de contabilidade, em vez de ir aos bailes locais. Depois me mudei para Vichy, onde me tornei cortador em uma alfaiataria e aprendiz da Manby, uma alfaiataria masculina.

Depois do risco de morte que enfrentei em 1940 no posto de vigilância alemão, comecei a trabalhar como contador para a Cruz Vermelha, em Vichy.

Um dia, depois da libertação da França, em 1944, eu estava em um café com uma amiga que também trabalhava para a Cruz Vermelha. Eu lhe disse que queria trabalhar em Paris, na Paquin, a mais importante casa de alta costura da França até então. Minha amiga conhecia o senhor Waltener, que era próximo de todos no mundo da moda. Ele me apresentou a Paquin, e fui contratado como costureiro.

Na Paquin, conheci o diretor de cinema Jean Cocteau e o estilista Christian Bérard, e os ajudei com os figurinos e as máscaras para o filme “A Bela e a Fera”, de 1946.

No ano seguinte, me transferi para a casa de Christian Dior, onde me tornei o primeiro empregado, e o ajudei a desenvolver o agora famoso New Look, em 1947. Eram modelos que celebravam a feminilidade elegante.

Em 1950, abri meu atelier de moda, e apresentei minha primeira coleção em 1954. Dior me mandou 144 rosas. Fiz meu primeiro desfile de moda masculina em 1960. A moda masculina era tão nova que tive de recorrer às universidades de Paris para encontrar estudantes dispostos a trabalhar como modelos.

Atualmente vivo em Paris, em uma casa de quatro andares perto do Élysée, o palácio presidencial francês. É uma boa vida.

Como no dia em que desci daquele caminhão alemão, estou correndo desde então. Mesmo agora, não olho para trás.

Tradução de Paulo Migliacci

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