‘Estou apavorada’: trabalhadores do sexo na Itália enfrentam pobreza e doença na pandemia

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Sem ser regulamentada como uma ocupação oficial, muitos dos 70 mil trabalhadores desta categoria ficam impossibilitados de receber ajuda econômica do governo
Emma Bubola, The New York Times – Life/Style

Na Itália, a prostituição não é ilegal, mas não é reconhecida como trabalho. Foto: Dmitry Kostyukov/The New York Times

MILÃO – Quando o prefeito de Modica, uma cidade da Sicília conhecida por seus chocolates e igrejas, soube que uma trabalhadora do sexo da região testara positivo para o coronavírus, imediatamente ficou temeroso de uma epidemia.

Ele fez um dramático apelo aos clientes para se submeterem a testes, garantindo que suas esposas nada descobririam. Mas o rastreamento dos contatos se mostrou difícil porque o prefeito, Ignazio Abbate, começou a receber telefonemas anônimos de homens “pedindo em nome de um amigo”, a descrição da trabalhadora do sexo.

O sigilo e o estigma em torno do trabalho sexual não regulamentado colocam “todo mundo em risco”, afirmou Abbate.

Até agora, Modica não registrou nenhum surto, mas como a trabalhadora do sexo foi internada em um hospital de Perugia, a notícia da sua situação e ocupação se espalhou por todo o país, mostrando que a pandemia afetou, como era de se esperar, também algumas das comunidades mais vulneráveis e marginalizadas da Itália, e os perigos de manter o trabalho do sexo nas sombras.

“É claro que estou apavorada”, disse Fernanda Ponciano, uma trabalhadora do sexo de 31 anos de Torre del lago, na Toscana. Fernanda começou a aceitar clientes de novo depois do hiato de três meses durante o lockdown. Ela trabalha como camareira pela manhã e se dedica à outra profissão à tarde, contou, e com isto sustenta mãe, irmã e uma sobrinha no Brasil.

”O medo de acabar sem um teto é maior do que o da covid”, ela disse.

Na Itália, a prostituição não é ilegal, mas tampouco é regulamentada como ocupação oficial, o que torna 70 mil trabalhadores desta categoria em grande parte impossibilitados de receber uma ajuda econômica. Muitos foram obrigados a se arriscar e voltaram a trabalhar para evitar a pobreza.

Em outros países europeus, como a Holanda e a Alemanha, os trabalhadores do sexo podem manter contratos formais com os clientes. Durante o fechamento, os que estavam oficialmente registrados  junto ao governo receberam ajuda econômica.

A Escócia também incluiu os trabalhadores do sexo em seus programas de ajuda. Na Grécia, onde a prostituição é legal e regulamentada, os bordéis puderam reabrir no dia 15 de junho, desde que os trabalhadores do sexo tomassem nota dos nomes e contatos dos clientes por quatro semanas para fins de rastreamento.

Na Itália, várias instituições de assistência e associações beneficentes levantaram dinheiro para pagar a comida, remédios, contas e aluguel em benefício dos trabalhadores do sexo. Mas, na maior parte, os trabalhadores italianos, na maioria das vezes pertencentes a comunidades de imigrantes, tiveram de se arranjar por conta própria.

Em março, Regina Satariano, uma trabalhadora do sexo de 60 anos da Toscana, ouviu falar de colegas que não estavam se alimentando e de um senhorio que ameaçava despejar um grupo de 17 homossexuais, todos trabalhadores do sexo desempregados por causa da pandemia.

Regina juntou suas economias e comprou sacolas de macarrão, molho de tomate, frango e sabão que distribuiu entre os colegas. Mas sem o apoio do estado, ela disse, muitos trabalhadores do sexo continuarão a passar fome. Se as autoridades não mudarem esta situação agora, acrescentou, “nunca mais o farão”.

Um relatório recente da Rede de Defesa dos Direitos Civis dos Trabalhadores do Sexo e do Comitê Internacional dos Trabalhadores do Sexo da Europa mostrou que muitos destes trabalhadores desafiam as normas do fechamento a fim de trabalhar, colocando-se em risco e a seus clientes.

Um dia após a hospitalização de Fernanda em Perugia, uma jovem da região do Vêneto, que segundo as autoridades estava envolvida em prostituição, também foi hospitalizada com covid-19.  As notícias se espalharam rapidamente a respeito da jovem com o vírus perto de Veneza.

No mês passado, Antonio Guadagnini, um vereador conservador da região do Vêneto, disse que a reabertura dos bordéis – ilegais na Itália desde 1958 – e a regulamentação da prostituição  protegeriam a sociedade. Na Sicília, Ruggero Razza, a principal autoridade regional da saúde, disse que o governo deveria refletir sobre uma maneira de prevenir a disseminação do coronavírus em ocupações não regulamentadas de alto risco como a do sexo.

“Mais uma vez, fomos excluídos do sistema”, afirmou Pia Covre, ex-trabalhadora do sexo, fundadora do Comitê para os Direitos Civis das Prostitutas, que defende o reconhecimento e a regulamentação da ocupação.

Ela acrescentou que, depois de serem excluídas do programa de apoio econômico do governo, as trabalhadoras do sexo também foram excluídas dos testes normais do coronavírus e da oportunidade de manter um arquivo dos clientes para o rastreamento dos contatos.

A regulamentação desta atividade esbarra na oposição dos que defendem que levaria a uma exploração maior e ao tráfico de pessoas. A pandemia, afirmam, não mudou isto.

Segundo a senadora Alessandra Maiorino, porta-voz do Movimento 5 Stelle, o partido político que governa a Itália, cerca de 90% dos trabalhadores do sexo são vítimas de tráfico humano. Em junho passado, ela assinou uma petição exigindo que o Escort Advisor, o maior site de avaliação dos trabalhadores do sexo da Europa, fosse fechado.

Ela e outros afirmam que a única maneira de acabar com a prostituição é atingindo a demanda, protegendo ao mesmo tempo também as vítimas do tráfico humano. Mas organizações de defesa dos direitos afirmam que a abolição só colocaria ainda mais em risco os trabalhadores obrigando-os a funcionar clandestinamente.

Francesca Bettio, professora de economia da Universidade de Siena especializada em questões relacionadas ao trabalho do sexo e ao tráfico humano, disse que as regulamentações da Holanda e da Alemanha, embora melhores do que as da Itália, não são perfeitas.

Mesmos nesses países, prosseguiu, muitos trabalhadores do sexo, principalmente os que vivem ilegalmente no país, se perderam  pelas brechas do sistema previdenciário durante a crise do coronavírus. E nenhuma estratégia se preocupou em eliminar o persistente estigma que envolve esta atividade.

Na caça aos que poderão estar espalhando o vírus, explicou, “os trabalhadores do sexo são o alvo perfeito”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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