Fundação de Mark Zuckerberg que luta contra o racismo tem um problema racista

Apesar de usar a fundação para apoiar causas sociais, alguns funcionários pretos afirmam que suas vozes foram marginalizadas e que suas capacidades não foram levadas em conta
Por Nitasha Tiku – The Washington Post

Por meio da Iniciativa Chan Zuckerberg, Zuckerberg propaga sua visão de mundo muito além do Facebook

Com as críticas feitas ao Facebook nos últimos meses, porque sua política pode prejudicar pessoas pretas, Mark Zuckerberg procurou destacar os seus investimentos na reforma da justiça criminal por meio da Iniciativa Chan Zuckerberg (CZI, da sigla em inglês), corporação filantrópica que fundou com a esposa como um veículo para canalizar 99% das suas ações no Facebook para causas assistenciais – atualmente o valor aproximado é de US$ 80 bilhões.

Mas, para muitos funcionários pretos da CZI, o objetivo da organização de promover justiça racial está sendo comprometido por suas práticas internas e por sua política de doações. A revelação está em gravações das reuniões da companhia, em e-mails e entrevistas com empregados atuais e anteriores, alguns dos quais falaram em condições de anonimato. Alguns funcionários pretos afirmam que suas vozes foram marginalizadas e que sua capacidade não foi levada em conta. Eles afirmam também que as doações da CZI deixaram líderes pretos e comunidades pretas sem verbas.

Levados pelos protestos sobre injustiça social após a morte de George Floyd e por declarações de Zuckerberg e Chan a respeito do movimento Vidas Negra Importam, membros do grupo de recursos dos funcionários pretos da CZI, no fim de junho, enviaram uma carta a Chan, que administra a área de operações diárias. A carta, que não havia sido relatada, foi obtida pelo jornal The Washington Post, e dizia que há anos a direção da CZI responde “com resistência e exasperação” quando os funcionários pretos pedem à companhia que trate o trabalho interno e externo com as lentes da equidade racial.

“Você, Mark, e a equipe de diretores seniores pediram que confiássemos no seu comprometimento para tornar a CZI uma organização justa, inclusiva e mais diversificada. Vocês pedem a nossa ajuda quando cada um de vocês se dedica a suas jornadas pessoais sobre a equidade racial. Pedem isto há anos, no entanto vocês não fizeram muitos progressos”.

Em um comunicado, o diretor de operações da corporação, Josué Estrada, respondeu ao The Washington Post em nome de Zuckerberg e Chan, ressaltando que a CZI investiu nada menos que US$ 2 bilhões em ciências, educação, imigração, habitação e justiça criminal, 40% dos quais para promover a equidade racial.

“Embora grande parte das suas iniciativas filantrópicas até o momento tenham servido para promover a equidade racial, o progresso foi irregular nas áreas que nos dizem respeito e nem sempre foi destacado ou tratado sistematicamente”, escreveu Estrada. “Nós também trabalhamos internamente. Como instituição filantrópica em grande desenvolvimento, precisamos criar sistemas que garantam o nosso apoio à diversidade, à equidade, e à inclusão na nossa própria organização”.

Neutralidade

Por meio da CZI, Zuckerberg propaga sua visão de mundo muito além do Facebook. E alguns funcionários pretos afirmam que seus esforços filantrópicos são freados pelo mesmo desejo de parecer sem preconceitos que segundo os críticos do Facebook está causando danos no mundo real às comunidades pretas. Nos últimos meses, os líderes dos direitos civis auditores independentes e os próprios funcionários da Facebook apontaram pontos pouco claros em Zuckerberg na questão da raça, inclusive a sua abordagem dos direitos civis como uma questão partidária, uma visão míope da moderação da supremacia branca e certo desconforto na discussão da postura contra os pretos.

Chan e Zuckerberg são alguns dos mais jovens bilionários a assinar a promessa de doar a metade da sua riqueza, como Bill e Melinda Gates, Pierre Omidyar e Larry Ellison. A maioria dos doadores formula seu legado filantrópico depois de distanciar-se das suas companhias – ou da controvérsia. Gates, por exemplo, deixou o cargo de diretor executivo da Microsoft em 2000, no mesmo ano em que ele lançou a sua fundação e em meio a um processo antitruste. Para Zuckerberg e Chan, a politização da sua doação a organizações assistenciais poderia prejudicar o Facebook, que já se encontra sob ao fogo dos dois principais partidos políticos.

A obra filantrópica de Zuckerberg está “presa à reputação do Facebok”, afirma o professor de ciências políticas de Stanford, Rob Reich. “Não só ele precisa tomar todas as suas decisões tendo o Facebook em mente, como a própria CZI não pode escapar do custo da reputação em que incorre por causa do trabalho de Zuckerberg no Facebook”.

Segundo Estrada: “A Iniciativa Chan Zuckerberg e o Facebook são duas organizações completamente separadas. Os interesses do Facebook – políticos ou de outra natureza – jamais ditaram e jamais ditarão as decisões de trabalho ou de estratégia da CZI”

Quando Zuckerberg e Chan lançaram a CZI como uma empresa de responsabilidade limitada em 2015, o casal afirmou que enfrentar os problemas maiores da próxima geração exigiria assumir riscos e uma postura a longo prazo. Zuckerberg  disse que que enquanto empresa de responsabilidade limitada (LLC), a CZI teria mais liberdade para financiar as melhores soluções porque as fundações tradicionais sofrem restrições por investirem em companhias lucrativas ou financiando batalhas políticas. Seus apoiadores aplaudiram a ideia como revolucionária. Mas os detratores advertiram que uma LLC poderia dar a Zuckerberg maior possibilidade de impor suas convicções pessoais na esfera pública.

Em junho, Zuckerberg disse que a estratégia da CZI é encontrar um terreno intermediário e “criar consenso”. “Por muitas razões políticas, acho que é bem mais fácil para muitas outras pessoas serem ativistas externos”, disse em uma conferência da CZI, segundo uma gravação da reunião, em resposta à pergunta de um funcionário sobre o fato de a CZI apoiar as mudanças na política policial.

No mesmo local, em junho, Chan disse que estava se educando no movimento para  retirar o apoio financeiro à polícia. Mas, salientou, “É totalmente da nossa responsabilidade olharmos para o nosso trabalho e pensarmos em garantir que possamos servir a todos”, segundo uma gravação.

Chan tem afirmado que quer que a CZI adote uma estratégia bipartidária. Ela se definiu  para os membros da equipe como “democrata de Massachusestts, o que na Califórnia significa republicana,” segundo uma pessoas presente às conferências.

Metas ambiciosas

Desde o início, Zuckerberg tinha metas ambiciosas em termos de diversidade na CZI baseadas nos desafios que ele enfrentava no Facebook, segundo os ex-executivos da CZI que ingressaram mais cedo. Como a maioria das gigantes tecnológicas, o Facebook realizou um grande avanço em termos de raça e diversidade de gêneros há cinco anos, quando o Vale do Silício começou  a revelar a demografia de sua força de trabalho. Apesar dos esforços,  a parcela de trabalhadores pretos continua sendo menos de 4%, segundo um relatório do Facebook de 2020.

A CZI alcançou uma maior representação de empregados pretos, que representam 7,2% dos seus 450 funcionários,  segundo dados de maio  analisados pelo Post. Entretanto, os funcionários pretos afirmam que eles não têm oportunidades ou reconhecimento iguais pelo seu trabalho na fundação. Embora 25% dos diretores de alto escalão da CZI pertençam a grupos  historicamente  pouco representados, a carta ressalta que há relativamente poucos vice-presidentes ou diretores pretos.

Executivos atuais ou anteriores pretos disseram que a CZI  precisa trabalhar  a inclusão racial e a equidade racial, mas salientaram que os funcionários pretos não são tratados de maneira diferente por causa de sua raça.

O grupo de recurso dos funcionários pretos da CZI, Building Leadership & Knowledge (BLK),  está por trás do lobby pelas mudanças. A carta ressalta cinco pontos para que a CZI possa tornar-se mais equitativa, incluindo a contratação de um diretor de diversidade que se reporte a Chan, a realização de uma auditoria  sobre a igualdade dos salários, compartilhamento de dados sobre os atritos e engajamento dos empregados pretos, e planejamento da sucessão que identifique e prepare estes funcionários para cargos de alto escalão quando forem abertos.

Integrantes do BLK afirmam que o apoio do grupo a estes cinco itens é universal, mas a frustração dos empregados pretos varia com a administração. Alguns acreditam que o enfoque cooperativo está funcionando, enquanto outros temem que a liderança não mudará sem uma pressão constante.

Chan se reuniu por três vezes com a BLK desde que recebeu a carta  e fez progressos em algumas das reivindicações, mostram as gravações. Em uma das reuniões, Chan disse ao grupo que os funcionários pretos estavam saindo a uma taxa maior “estatisticamente significativa, mas afirmou que ela não queria compartilhar os dados de atrito enquanto não tivesse um plano para melhorar.

Chan também disse à BLK que a direção ainda estava estudando a solicitação de um plano de sucessão. “Precisamos ter a certeza de que as oportunidades sejam equitativas, e que não estamos apenas organizando nossos empregados pretos para novas oportunidades”, ela disse, segundo uma gravação da reunião. Em resposta, um membro da BLK explicou que há uma diferença entre igualdade e equidade.

Na reunião geral da companhia, em julho, Chan revelou que o novo diretor da área de diversidade analisaria tanto as questões dos funcionários quanto os investimentos externos com uma equipe de dois funcionários em tempo integral, mas afirmou que eles se reportarão a Estrada. (O Facebook tomou uma medida semelhante  duas semanas antes, quando a diretora de operações, Sheryl Sandberg, anunciou que a diretora de diversidade, Maxine Williams, passaria a se reportar a ela, apesar da pressão para que se reportasse a Zuckerberg.)

Chan também falou das conclusões  de uma pesquisa sobre engajamento dos empregados de 2020, completada em abril, mostrando que 59% dos funcionários pretos  disseram que a CZI era inclusiva , em comparação com 87% dos funcionários brancos, e 86% dos empregados asiáticos e latinos, segundo um gráfico da pesquisa.

Os resultados da pesquisa de 2020 repetiram as conclusões de uma pesquisa de 2018, vista pelo Post, onde os grupos de foco dos funcionários pretos disseram que a direção da CZI precisava melhorar sua maneira de tratar a questão da raça e que os funcionários pretos achavam que a filosofia da CZI havia se tornado “Todas as Vidas Importam”.

Esta impressão veio de uma reunião no fim de 2018, depois que a CZI mudou a declaração de sua missão, “promover o potencial humano e a igualdade de oportunidades” para “um futuro para todos”.

Maurice Wilkins, o ex-diretor de diversidade, equidade e inclusão da CZI, disse que perguntou a Zuckerberg naquela reunião se a CZI seria explícita a respeito do seu apoio às comunidades pretas e marginalizadas. Segundo Wilkins, Zuckerberg respondeu que isto já era óbvio pela obra da CZI.

Wilkins acrescentou que acredita que Zuckerberg e Chan queiram honestamente fazer o bem, mas não apreciam a necessidade de investir em comunidades marginalizadas que têm menos acesso aos recursos. “Se você não mencionar explicitamente a raça como uma razão pela qual muitas destas coisas acontecem, estará perpetuando o sistema que pretende desmantelar”, ele disse.

Pressão política

A CZI começou visando a ciência e a educação, mas se expandiu para a política e a obra de defesa dos direitos em 2017, e ultimamente, se concentrou na justiça criminal, no acesso à habitação na Califórnia e na imigração, por meio de sua Iniciativa de Justiça e |oportunidade (JOI, em inglês).

Funcionários atuais e anteriores afirmam que a JOI é o ponto de grande parte da tensão racial no trabalho externo da CZI.

“Quando Trump ascendeu ao poder e começou a influenciar potencialmente o trabalho do Facebook, a percepção foi que a JOI se encontra onde todos os compromissos foram assumidos, a fim de cumprir os objetivos políticos de Mark e do Facebook”, disse uma pessoa quer conhece a posição da diretoria, que falou com a condição de não quis ser identificada.

A pressão política sobre o Facebook afetou indiretamente as soluções destinadas aos pretos, disse um funcionário da JOI. “Nós precisamos considerar  ‘Esta será uma questão para a direita,? Será uma publicidade  negativa para Mark?” disse o funcionário. “Se estamos tentando acalmar a direita, ou tentando não ofendê-la, você deixou uma margem muito estreita para trabalhar com imigração e justiça criminal”.

A JOI foi lançada no mesmo mês em que o residente Donald Trump assumiu o cargo, dirigida pelo ex-assessor de Obama, David Plouffe, anteriormente estrategista da Uber. Zuckerberg e Chan escolheram o tema que queriam apoiar, depois Plouffe analisou as batalhas políticas em que a CZI podia produzir o maior impacto, ele disse. Na política referente à justiça criminal, em que o impulso legislativo  está acontecendo no nível do estado, a CZI integrou uma iniciativa  bipartidária da “tabula rasa” para ajudar a eliminar registros  por convicções que atraíram tanto a rede do industrial libertário Koch, quanto  o grupo de estudiosos esquerdista Centro para o Progresso Americano.

Mas o funcionário da JOI disse que com a proximidade da eleição de 2020, Chan se tornou “cada vez mais enfática em garantir que a direita apareça em nossa obra” – que não estamos tornando isto uma solução liberal”, apesar de a CZI já estar financiando a maioria dos grupos que trabalham na interseção do conservadorismo e da justiça criminal.

Documentos mostram que a direção pediu a membros do staff que vasculhassem  o portfolio de justiça criminal da CAI em setembro de 2019 para determinar que doações atuais ou futuras se destinavam a grupos conservadores. A lista de beneficiários  incluiu a American Conservative Union, a Prison Fellowship, Right on Crime e o grupo de pesquisadores de direita R Street, com uma doação em processo à Ethics & Religious Liberty Commission, um grupo batista sulino, disse o funcionário da JOI.

A CZI afirma que as decisões a respeito das doações se baseiam na necessidade e no impacto exponencial e que a maioria dos investimentos da JOI  foi para grupos de esquerda. A CZI afirma também que realiza rotineiramente auditorias sobre a eficácia da sua obra.

“Se decidimos aderir à iniciativa Tabula Rasa, não foi porque os irmãos Koch estão lá”, disse Plouffe, que atualmente é um assessor externo. “É porque é desse modo que conseguimos  que as coisas andem.”

Embora todas estas causas sejam fundamentalmente liberais os funcionários temem estar sendo afastados de soluções politizadas, como a política referente à polícia, ou de se aproximarem de questões como a separação da família com a mesma urgència da resposta da CZI à pandemia do coronavírus, para a qual a instituição financiou rapidamente a pesquisa de vacinas e também organizações da linha de frente  ajudando a monitorar grupos com educação e estabilidade econômica.

Executivos atuais e anteriores afirmaram que esta tensão derivou do fato de a CZI contratar especialistas no campo – como organizadores de comunidades, defensores, educadores e promotores – que queriam que fosse mais agressiva e incomodados com sua estratégia corporativa. Peggy Alford, a ex- diretora financeira da CZI que em 2019 se tornou a primeira mulher preta a fazer parte do conselho da Facebook, disse que a CZI tinha objetivos ambiciosos de longo prazo a respeito de todas as questões. Às vezes, boas ideias eram rejeitadas com base em orçamentos ou estratégia. Não na raça, afirmou Peggy.

No entanto, a obra da JOI, que não segue linhas partidárias, conseguiu priorizar a equidade racial como a BLK recomendara.

Segundo informou Ruby Shifrin, diretora do programa de acesso à habitação, a sua equipe passou dois anos desenvolvendo instrumentos que agora estão compartilhando com outros departamentos da CZI. Sua metodologia se preocupa com as comunidades que provavelmente se beneficiarão de uma doação ou de uma proposta de política, e se uma organização é dirigida por um staff de pessoas que foram sem teto ou viveram em habitações acessíveis.

Fred Blackwell, diretor executivo da San Francisco Foundation, que se associou à CZI ao trabalho sobre habitação na Bay Area, afirma que ficou impressionado com o apoio da CZI à criação de um movimento. Muitos doadores corporativos fogem do financiamento de defensores declarados porque “não se consegue controlar este tipo de coisa”, disse Blackwell. “Nem sempre eles irão dizer algo que seja confortável  para a sua instituição”.

No início deste ano, a CZI destinou US$ 1 milhão em financiamento a grupos que preparam organizações comunitárias para defenderem melhor suas comunidades. Estes recursos acabaram distribuídos por meio de um intermediário, disse a CZI, uma prática comum na filantropia. Um dos possíveis beneficiários foi um grupo chamado Eleitores Negros Importam, que ajudou a treinar e desenvolver mais de 200 grupos liderados por pretos nos estados do Sul.

Mas no fim, os Eleitores Negros Importam foi o único finalista rejeitado para a verba da CZI. A CZI disse que decidiu não conceder a ajuda ao grupo porque os recursos se destinavam a organizações com um histórico de treinamento de outros membros da comunidade para a tarefa de defensores dos direitos como prática.

Cliff Albright, diretor dos Eleitores Pretos Importam, que trabalha na defesa dos direitos e organização de comunidades há mais de 20 anos, disse que as organizações lideradas por pretos frequentemente são vistas como investimentos mais arriscados na filantropia. “Trata-se apenas da versão em termos de organização do que nós enfrentamos na vida como indivíduos”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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