Go-Go’s fez história há 38 anos, há mais coisas para contar sobre essa trajetória

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Documentário sobre a banda explora as raízes punk do grupo e a dinâmica que levou à separação
Lindsay Zoladz, The New York Times – Life/Style

The Go-Go’s receberam uma estrela na Calçada da Fama em 2011. Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Em março de 1982, Beauty and the Beat – o clássico  da  efervescente banda de Los Angeles Go-Go’s – fez história: tornou-se o primeiro álbum de um grupo formado apenas por mulheres, que tocavam todos os instrumentos e compunham suas canções, a chegar ao 1º lugar entre os álbuns mais vendidos da lista da  Billboard. Trinta e oito anos depois, é difícil decidir o que é mais chocante: que isso tenha demorado tanto para acontecer ou que não tenha se repetido desde então.

“As pessoas assumem automaticamente que provavelmente fomos criadas por algum cara”, disse a vocalista Belinda Carlisle no espirituoso documentário de Alison Ellwood, The Go-Go’s. “Mas nós fizemos tudo sozinhas.”

Obviamente, a Go-Go’s dificilmente foi o primeiro grupo feminino comercialmente dominante da indústria musical (com seus 12 singles em primeiro lugar, as Supremes rivalizavam com a popularidade dos Beatles em meados dos anos 1960), nem foram a primeira banda de guitarristas mulheres a “fazer tudo sozinhas” (as roqueiras hippies Fanny e as punks britânicas The Slits foram apenas algumas das bandas de mentalidade feminista que abriram caminhos díspares nos anos 1970). Mas a Go-Go’s uniu essas duas características do modo mais perfeito para o consumo em massa. Beauty and the Beat foi, nas palavras da baixista Kathy Valentine, “um disco pop com ética punk rock”.

A parte “pop” da equação da Go-Go’s é o que ficou mais fresco em nossa imaginação cultural, graças ao brilho das músicas atemporais e ainda onipresentes como Our Lips Are SealedWe Got the Beat e Vacation. (Elas foram a trilha sonora de um musical da Broadway em 2018.) O que é interessante em relação ao documentário de Alison, porém, é como ele explora completamente o lado punk do início do grupo.

“Nunca teria havido Go-Go’s sem a cena punk rock em Los Angeles”, disse a guitarrista Jane Wiedlin, colocando o grupo dentro do contexto de colegas locais como X, Bags and the Eyes (a banda  da qual uma loira de topete chamada Charlotte Caffey acabaria por sair para fazer parte da Go-Go’s.) Enquanto ganhava experiência, a Go-Go’s percorreu o Reino Unido abrindo shows para heróis do underground como Madness e The Specials, enfrentando zombarias e cuspidas de skinheads furiosos. Quando vemos Belinda no documentário pela primeira vez, ela não está usando tons pastéis alegres perfeitos para a MTV, mas um sorriso mordaz que faz lembrar Elvis e um saco de lixo de plástico como vestido.

Charlotte ficou “apavorada” quando trouxe para o grupo uma fita demo de uma canção que ela havia escrito chamada We Got the Beat: “Eu estava pensando, cara, essas garotas vão me expulsar dessa banda, porque era uma música pop”.  Mas suas companheiras de banda reconheciam uma ótima melodia quando ouviam uma, e a energia aerodinâmica da faixa combinava perfeitamente com as ambições cada vez mais altas da Go-Go’s. (O filme é um tesouro de imagens de arquivo; um clipe memorável mostra Belinda cantando uma versão punk de We Got the Beat em um clube sombrio e provocando a multidão para dançar: “Vamos lá, não seja tão convencido.”)

Muitos jornalistas se fixaram no mito da criação de que as integrantes da Go-Go’s “não sabiam tocar seus instrumentos” quando começaram – embora a mesma energia desconexa, do tipo faça você mesmo, fosse frequentemente vista como um sinal de autenticidade para as bandas masculinas de punk. E não era completamente verdade: Charlotte era uma talentosa multi-instrumentista que estudou piano clássico na faculdade; a fala durona de Gina Schock – a pulsação insistente e acelerada do grupo – era uma baterista a ser reconhecida desde o dia em que se juntou à banda.

“A exuberância genuína de nossa música deu às pessoas uma fuga e uma trégua da mesquinhez e ganância que definiam a era”, escreveu Kathy em seu excelente livro de memórias All I Ever Wanted (Tudo que eu sempre quis, em tradução livre), com a clareza nítida de uma retrospectiva cultural. Em seus videoclipes casualmente carismáticos, a Go-Go’s ofereceu o encanto da diversão libertina e nada séria. (We Got the Beat teve a sorte cósmica de sair um mês antes da MTV ir ao ar.) Sua visão a respeito da igualdade de gênero significava não apenas tocar e escrever tão bem quanto os garotos, mas festejar tanto (ou mais) do que eles também. Em sua fase mais festeira, uma das integrantes da Go-Go’s embriagada recebeu a duvidosa honra de ser expulsa do camarim de Ozzy Osbourne no Rock in Rio – uma façanha e tanto.

Alison, de modo louvável, não desvia o olhar das partes mais feias da história da Go-Go’s, como a demissão da baixista fundadora Margot Olavarria, uma punk convicta que se opôs ao fato de a banda ser cada vez mais polida e se preocupar com a melodia. “Não era apenas quanto à música, mas a sensação de ser empacotada para virar um produto”, lembra Margot. “Tudo estava se tornando menos sobre arte e mais sobre dinheiro”.

Palavras proféticas. O que muitas pessoas consideram como mais “empoderador” a respeito da Go-Go’s – as integrantes escrevem suas próprias músicas! – criou, nos bastidores, um complicado desequilíbrio de poder que acelerou o colapso da banda. Como Charlotte, Jane e Kathy eram as principais compositoras do grupo, suas participações nos lucros foram consideravelmente maiores do que as de Belinda ou Gina. Isso é provavelmente o que motivou Belinda a fazer a maior jogada de poder que ela poderia realizar: a carreira solo.

Por que outra banda feminina não alcançou o nível de sucesso no mainstream como o da Go-Go’s? A persistência do machismo e de dois pesos duas medidas são as respostas mais óbvias. Mas talvez as jovens roqueiras que a Go-Go’s inspirou também tenham aprendido com suas angústias e buscaram algo mais ousado e, portanto, menos comprometedor do que o sucesso mundial.

Em um ponto em “The Go-Go’s”, Kathleen Hanna, uma instigadora do movimento punk feminista riot grrrl e líder incendiária da banda punk feminista Bikini Kill, lembra-se de ter assistido a um show da Go-Go’s em 1982. “Quando era jovem”, disse ela, “ir a um espaço onde as mulheres eram donas do palco e o possuíam sem se desculpar, como se tivessem nascido para estar lá – para mim, representou um momento de possibilidade”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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