Bonecas negras ensinam respeito à diversidade

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Criança precisa de brinquedos com vários tipos de representatividade, diz psicóloga
Marcella Franco

Jaciana Melquiades com as bonecas negras da sua loja, Era uma Vez o Mundo, no Rio – Suzane Santos/Divulgação

Era uma vez uma princesa que toda vez que se olhava no espelho não conseguia enxergar o próprio reflexo. Este começo para um conto de fadas seria muito triste, certo? Imagine, então, quando a gente descobre que esta história se passava na vida real, repetidas vezes, até bem pouco tempo atrás.

Muitas meninas negras se esqueceram do quanto eram especiais porque, antigamente, não havia bonecas negras no Brasil. Sem essa referência, não se reconheciam –como em um espelho defeituoso. Aos poucos, o mercado de brinquedos passa a reconhecer a importância de um catálogo mais diverso, e a vida das princesas modernas pode, enfim, ser mais feliz.

Jaciana Melquiades, 36, teve duas bonecas na infância, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. A primeira era um bebê loiro, presente da sua avó. A segunda, uma Barbie, que a menina insistiu muito até ganhar.

“Foi um processo de apagamento da minha imagem. Passei a infância inteira brincando de botar uma toalha na cabeça, representando. Eu sonhava em ser aquelas pessoas que eu via na TV, em ser aquela boneca, em fazer transformações estéticas em mim quando fosse grande”, conta.

Por desejar que seu filho tivesse uma experiência diferente da sua, a empresária formalizou em 2013 uma ideia que já tinha fazia anos: a de uma loja de bonecos e bonecas com um recorte racial.

“Pensei em quais referências ele teria quando nascesse”, conta a mãe de Matias, hoje com nove anos. “Tive muita dificuldade em encontrar brinquedos, produtos e roupas que se parecessem com ele, ou que tivessem personagens negros”.

Hoje, todo o catálogo da Era uma Vez o Mundo, no Rio de Janeiro, é inspirado no menino —especialmente o personagem Super Black Power. São livros de pano e bonecos, como Pequeno Príncipe Preto, Zambi e Dandara, uma menina personalizável com vários looks ou fantasias de bailarina e sereia.

“Consumidores mandam agradecimentos de crianças que se sentem melhor na escola ao levar uma boneca negra porque não há no colégio nenhuma boneca com a qual ela se pareça. A gente percebe um impacto muito rápido na autoestima ao criar um espelho positivo”, diz Jaciana.

De acordo com a psicóloga Eunice Porto, especializada em arte integrativa, “o mundo é branco na escola, com bonecas brancas e com livros e filmes de princesas brancas. Esse é um universo em que a criança negra não consegue se reconhecer ou entender, fazendo que se questione silenciosamente”.

“Temos em nossa cultura uma enxurrada de bonecas brancas, com cabelos lisos e olhos verdes. Dentro dos kits de acessórios sempre existe um ‘pentezinho’ para pentear esse tipo de cabelo. Entretanto, sabemos que esse acessório não representa a realidade de um cabelo enrolado ou crespo”, afirma a psicóloga.

Na quarentena, a loja de Jaciana passou por maus bocados. Focada nas vendas presenciais em suas duas unidades (um quiosque no metrô e uma loja coletiva em um shopping), ela não registrou nenhuma venda em três meses.

Depois de desabafar no Twitter e ter seu post amplamente compartilhado, em apenas três dias foram registradas 300 vendas, o que tornou possível manter o quadro de sete funcionários. “A gente tem um público grande que é branco, é quase meio a meio, mas ainda pende mais para pessoas brancas. São geralmente pessoas que se preocupam com uma educação antirracista”, conta Jaciana.

Segundo a psicóloga Eunice Porto, “quando uma criança tem bonecos com vários tipos de representatividade, ela aprende a não excluir a diferença, e sim aceitá-la desde cedo. Ao ser apresentada pelos pais a um boneco negro, a criança vai manifestar inocentemente o que ela se acostumou em ouvir do adulto”.

Ao se dar conta de que as duas bonecas da sua filha, Rita, eram brancas, a escritora e roteirista Tati Bernardi comprou um bebê negro de brinquedo. “Ela fica cuidando da boneca, dá mamadeira, tira febre, dá banho, coloca para fazer xixi”, diz Tati, que também é colunista da Folha.

Quando perguntada se gosta da sua boneca, que chegou há quatro meses, Rita, de dois anos, comenta: “Ela quer a mamãe.”

A professora de educação física Queili Isabel de Souza teve sua primeira boneca negra aos 25 anos, comprada em uma viagem à Disney. Quando engravidou da filha Larissa de Souza, hoje com 8 anos, Queili, 46, já começou a comprar bonecas negras para a menina.

“Os negros são mais de 50% da população brasileira e não são representados pela mídia e não aparecem nos produtos”, critica a professora.

“Já que eu não tenho irmão, eu falo que as bonecas são minhas irmãzinhas”, conta Larissa, que gosta de fazer chá e reuniões com os brinquedos.

​“Assim como é feito tradicionalmente com as bonecas brancas, é preciso que a criança negra também se reconheça numa Barbie Negra e num Ken negro, ou numa executiva negra”, diz a psicóloga Eunice.

Mais cientes de que é preciso manter catálogos diversos e afinados com a realidade, grandes fabricantes de brinquedos se preocupam em oferecer bonecos negros.

É o caso da Mattel, com alguns itens da Barbie Fashionistas, e da Brinquedos Estrela, que já tem versões negras na linha Berçário, Meu Bebê e Nenezinho, e agora lança o Bebê Surpresa com variações na cor da pele, e uma edição especial negra do Falcon, a Expedição na Montanha Olhos de Águia.

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