Comédia britânica ‘Trying’ faz pensar em por que alguém decide ter filhos

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Série vai bem além dos diálogos espertos e das tiradas engraçadinhas para adentrar em questões espinhosas
Luciana Coelho

No caminhão de séries sobre convívio familiar, aquelas que falam da chegada de um filho e das mudanças que se seguem são quase um subgênero (“Mad About You”, sucesso dos anos 1990, ainda hoje soa atual). Perdas e lutos também têm seu quinhão, como na recente “Servant”, da Apple TV+.

Novidade é dedicar uma série toda à decisão de criar ou não outro ser humano e todas as ondas sísmicas dela iniciadas, como propõe “Trying”, primeira incursão da Apple TV+ em terras britânicas.

A produção da BBC chegou à plataforma de vídeos em maio, e só neste mês ganhou destaque, entre uma leva de produções recém-lançadas como “Ted Lasso” e “Little Voice”. Numa quarentena em que parecemos viver um único dia de horas infindáveis, pesa menos a estreia distante do que o fato de o tema de “Trying” estar aí, no nosso nariz, sem que se tocasse nele.

Comédia simpática, daquelas protagonizadas por um casalzinho descolado com amigos fiéis e uma família coesa, em que pesem as picuinhas, “Trying” vai bem além dos diálogos espertos e das tiradas engraçadinhas para adentrar com graça em questões espinhosas, do tipo que trazem à tona coisas muito primais num ser humano.

A saber: o que significa, hoje, ter um filho? Qual a diferença entre gerá-lo e adotá-lo? O que esperamos dessa criança, e o que esperamos de nós mesmos, inclusive aqueles que optam por não ter filhos, ao virarmos pais e mães?

Nada disso pretende ser respondido pela sitcom, que tem seis episódios de meia hora. O roteiro de Andy Wolton, porém, é um convidativo trampolim para nos botarmos na pele de Jason (Rafe Spall) e Nikki (Esther Smith), um professor de inglês para estrangeiros e uma atendente de locadora de automóveis que, confrontados com um diagnóstico de baixa fertilidade, decidem num impulso tentar a adoção.

Spall e Smith, em suas atuações sutis, logo cativam o espectador, convidado a olhar por uma lupa de tempo dilatado todo esse processo de escolha que, erroneamente, se pressupõe instintivo.

Entretanto, o que faz “Trying” valer a pena é Imelda Staunton, uma atriz londrina de imensa versatilidade que devia ser presença mais constante em premiações de cinema e TV. Fãs de “Harry Porter” vão se lembrar dela como a intragável Dolores Unbridge, mas Staunton foi indicada ao Oscar por “Vera Drake”, filme de 2005, e deve voltar a esse tipo de holofote ao assumir o papel da rainha Eliszabeth 2ª na quinta temporada de “The Crown”, no ano que vem.

É a Penny interpretada por Staunton, uma assistente social que “treina” casais em busca do aval do painel municipal que aprova as adoções, que propõe, entre tiradas sarcásticas e pílulas de experiência, essa discussão sobre o papel de criar uma criança, maturidade, ansiedade, desejo e, vá lá, vaidade.

A segunda temporada já está em vista. Afinal, como disse uma vez um médico ao entregar o bebê recém nascido aos pais, “desejo realizado? Agora é só criar”.

A primeira temporada de ‘Trying’ está disponível na Apple TV+.

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