A nova polarização: como viagens durante a pandemia viram motivos de briga

Scroll down to content

Nos EUA e no Reino Unido, decisão de pegar a estrada acaba em críticas e discussões entre amigos e familiares
Tariro Mzezewa / 2020 / The New York Times

Fla-Flu turístico: viagens durante a pandemia têm causado brigas e discussões entre amigos e familiares Foto: Annelise Capossela / The New York Times

Michael Huxley vem tomando muitas broncas ultimamente. Seu pecado? Viajar durante a pandemia. Ele saiu de Liverpool, onde mora, rumo à Espanha há algumas semanas, e já esteve em um punhado de cidades no próprio Reino Unido desde o início da crise do coronavírus, incomodando amigos, familiares e até estranhos, que acham que ele deveria ficar em casa para diminuir os riscos de contrair e espalhar o vírus.

—  Venho recebendo críticas em nível profissional e pessoal também. Alguns levantam o ponto de vista ético, dizendo que eu não devia estar viajando e espalhando a doença para todo lado, mas tem aqueles que apelam para o emocional, tipo “você não devia viajar porque pode matar minha avó” —  conta o blogueiro responsável pelo “Bemused Backpacker”.

A decisão de viajar ou ficar em casa virou foco de conflito este ano, com as pessoas definindo quais tipos de viagens são aceitáveis — se é que há algum — e em que condições.

Há quem diga que sair de casa, só em caso essencial; e há os que afirmam que pode ser a lazer, desde que as distâncias sejam curtas e se possa ir de carro. Há também aqueles, como Huxley, para quem viajar não tem nada de mais, contanto que a lavagem das mãos seja frequente, o ambiente seja mantido limpo e haja distanciamento social. O fato é que as várias definições do que é certo e errado estão criando desavenças entre amigos e familiares.

— Foi mais fácil tranquilizar a família, que sabe que sou enfermeiro, viajo há mais de 20 anos pelo mundo e sei me cuidar, mas tentar explicar a conhecidos e desconhecidos que avalio primeiros os riscos e tento reduzi-los ao máximo, mas ainda assim prefiro viajar, é realmente impossível — diz.

Huxley conta que viajou durante outras crises mundiais, incluindo os surtos de Sars e Mers (a síndrome respiratória do Oriente Médio) e o período pós-ataques de 11 de Setembro. Além disso, estava no Egito durante a revolução de 2011.

— Não vejo o que está acontecendo como algo diferente desses eventos. Há surtos, pandemias e ataques terroristas, mas a vida continua. E as viagens também — considera.

A mãe de Erin Niimi Longhurst, escritora e diretora de uma agência digital em Nova York, a tratou com frieza durante várias semanas depois que esta fez uma viagem a Londres, há alguns meses — raridade entre as duas, que geralmente se falam várias vezes durante o dia. A nipo-britânica foi à capital inglesa para acompanhar o parceiro e seus parentes, magoando assim a mãe que mora no Havaí e não está saindo por nada. A excursão durou três meses, antes da volta a Nova York, onde também mora sua irmã, que acabou de dar à luz.

— Minha mãe queria muito visitar minha irmã, mas optou por não ir; em sua cabeça, se ela não podia sair, por que eu deveria? “Se todo mundo agisse como você, estaríamos em uma pior”, foram suas palavras. Ela ficou superpreocupada comigo, mas furiosa também —  conta Niimi Longhurst.

E sua mãe não é a única frustrada; tanto no Twitter como no Instagram, o pessoal vem desabafando sobre familiares, amigos e colegas que fizeram ou estão fazendo viagens não essenciais, gerando discórdia nos relacionamentos.

No Twitter, uma mulher contou que sua mãe insistia em sair de Oakland, na Califórnia, onde mora, para visitá-la em Portland, no Oregon, e que tinha avisado que não a deixaria entrar se o fizesse. “Eu lhe disse não, de jeito nenhum. Não ia vê-la! Podia ficar batendo na minha porta, eu não ia me importar, nem ia deixá-la entrar”, escreveu.

Outra fez o mesmo, só que com a irmã, recusando terminantemente sua visita: “Eu disse NEM PENSAR! Eu ia querer que ela entrasse no avião, pegasse Covid e trouxesse o vírus para minha casa? Ela ficou doida, mas não quero saber. Sou do grupo de ALTO risco e não vou ceder.”

A terceira explicou, também no Twitter, que em breve o enteado chegaria à cidade com a namorada. “Se fosse MEU filho, eu diria não, mas imaginem o drama se eu sugerisse ao enteado que adiasse a viagem”, suspira.

Jill Locke, professora de Ciências Políticas de uma faculdade de Minnesota, e a irmã caçula, Jennifer, que mora na Califórnia e é diretora executiva de uma vinícola, a princípio não conseguiam chegar a um acordo a respeito da visita aos pais, ambos octogenários, em Seattle, neste verão. Trocaram várias mensagens e telefonemas, mas só Jennifer defendia a visita.

— Tínhamos visões completamente díspares. Sob vários aspectos, eu achava que não era a coisa certa a fazer, por mais que quisesse ver nossos pais; já ela não pensava da mesma forma —  explica Jill.

Antes da pandemia, Jill pretendia ir a Seattle de avião com o marido e os filhos, mas, com a disseminação do coronavírus pelos EUA, achou melhor alugar um trailer e ir por terra. Entretanto, não demorou a perceber que o custo dessa opção seria altamente proibitivo, e achou que alguns estados entre Minnesota e Washington não estavam levando as medidas de prevenção muito a sério. No fim, as duas decidiram ficar em casa:

— Na hora de pesar todas essas contingências, fiquei pensando no que poderia levar para meus pais, mesmo agindo da forma mais responsável possível. Trocamos muitas mensagens, e nós duas acabamos irritadas e frustradas.

Já Jennifer garante que estava levando a perspectiva de uma viagem muito a sério, tanto que não saíra de casa desde o início da pandemia; por outro lado, porém, achava importante ver os pais idosos o mais rápido possível.

— Na época eu pensava: “Se não virmos nossos pais agora, quando vai ser?” É isso que acaba com a gente, não saber a resposta. A sensação era a de que poderíamos estar perdendo uma oportunidade preciosa — desabafa Jennifer.

Lindsay Chambers, articulista e editora de 41 anos que vive em Nashville, no Tennessee, se diz surpresa com as justificativas usadas pelas pessoas para sair de férias este ano, incluindo as que não podem deixar passar uma oferta imperdível de passagem barata e as que se recusam a remarcar festas de despedida de solteiro.

Ela conta que praticamente não sai de casa desde fevereiro, mas tem acompanhado os noticiários e visto as imagens do povo reunido em bares e pontos turísticos no centro de Nashville.

— Os turistas não mostram um pingo de consideração com os outros — constata.

E ficou chocada ao saber que seus próprios amigos estavam indo para a praia no verão:

— Tive de me segurar para não gritar com eles, quando disseram que iam “quarentenar na praia”. Viajar para outro estado e ficar em um condomínio alugado, no meio de uma pandemia? Não é assim que funciona o confinamento. Não mesmo.

Ela também se confessa confusa e chateada com a reação de muita gente, como se fosse ela a exagerar por obedecer às recomendações dos médicos sobre saúde e segurança.

— Pode até ser um pouco de paranoia da minha parte, mas nem que você me pagasse eu entraria em um avião hoje. Sério mesmo, existe algo do tipo cuidado exagerado em plena pandemia? Para mim, mil vezes pecar pelo excesso de cuidado que pela omissão — conclui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: