Um livro para formar jovens mais tolerantes

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Uma conversa com as autoras de ‘Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil’
POR RITA LISAUSKAS

As histórias de refugiados como Prudence Kalambay, Drágica Stefanovic e Abdulbaset Jarour estão em ‘Valentes’, com ilustrações de Rafaela Villela.

As crianças não enxergam diferenças de raça, religião, nacionalidade até que um adulto chegue e as aponte, geralmente de modo depreciativo. Também não veem problema quando notam que as pessoas podem ter diferentes opiniões políticas, orientações sexuais ou identidades de gênero até que alguém mais crescido diga algumas são ‘certas’, já outras são ‘erradas’. “Elas não têm essas questões todas, preconceito, xenofobia, racismo estrutural”, opina a jornalista curitibana Aryane Cararo, uma das autoras de “Valentes – Histórias de pessoas refugiadas no Brasil”, obra escrita a quatro mãos com outra jornalista, a paulistana e ativista de direitos humanos Duda Porto de Souza. A dupla decidiu escrever uma obra dedicada ao público jovem sobre pessoas refugiadas e imigração, um dos assuntos mais importantes da segunda década do século XXI e onde as notícias falsas (também) prosperam. “A gente dedicou todo um capítulo logo no início do livro para combater essas fake news”, conta Duda. “A principal mentira que a gente mais ouviu é que os refugiados vão ‘roubar o emprego das pessoas ‘ ou que vão ‘roubar a vaga da creche’, porque ‘eles vão ter benefícios’, ‘vão ser os favoritos’ na hora de conseguir assistência social. E a verdade é que não existe nada disso”, conta Aryane. As duas, que também são autoras de “Extraordinárias, mulheres que revolucionaram o Brasil”, conversaram com o blog sobre o lançamento de “Valentes”.

Blog: Vocês publicaram há alguns anos o “Extraordinárias”, que conta a história de mulheres que em muitos casos a história apagou e que, por isso, muitas  crianças e jovens não conheciam. Agora vocês voltaram com o “Valentes – Histórias de pessoas refugiadas no Brasil”. Por que agora contar a história de pessoas anônimas, por qual motivo escolheram esse tema?

Aryane Cararo: Eu acho que tudo faz parte de um grande arco narrativo que eu e a Duda viemos trabalhamos que é o de direitos humanos e das pessoas que sofrem de alguma forma esse apagamento, seja histórico ou no próprio presente. Em “Extraordinárias” a gente quis contar a história daquelas mulheres que, por um motivo ou outro, sumiram da nossa história, ou que de protagonistas viraram coadjuvantes. E, com o “Valentes” a gente quis ouvir essas histórias, porque a gente acredita que ouvir e depois contar é fundamental para que você crie empatia, para que você entenda o outro e consiga algo que falta muito hoje que é a alteridade. Então a gente queria que elas pudessem aparecer de alguma forma, porque hoje em dia quando se fala de refugiados nos meios de comunicação ou nas grandes redes de Whats App, aparece também muita desinformação, estereótipos e muita fake news.

Blog: Por que contar essas histórias?

Duda Porto de Souza: O que a gente fala na introdução de “Extraordinárias” é que as mulheres que estão ali retratadas não são mais ou menos importantes do que as pessoas que têm o livro em mãos. Para gente a coisa mais importante é entender que esses livros podem ser ferramentas de sensibilização e de transformação para a nova geração, a gente queria que esses livros chegassem às salas de aula.  Em “Valentes” agora, a gente conta a história de pessoas refugiadas e a imigração é um dos assuntos mais importantes da segunda década do século XXI, a gente vive hoje a maior crise de refugiados desde a segunda guerra mundial, em 2020 o número de pessoas deslocadas à força chegou a cem milhões no mundo e o Brasil em suas proporções continentais acolhe um número ainda muito pequeno de refugiados, mas a gente tem um aumento de 112% de matrícula de alunos estrangeiros nas escolas. Para esse livro, dedicado a um público infanto-juvenil, a gente trabalhou muito próximo do ACNUR, a agência da ONU para refugiados e outras organizações nessa construção. O livro vem preencher uma lacuna para esse público, porque a imigração é um assunto muito forte na academia, você tem muitos livros para crianças, para um público mais infantil, mas para esse público mais jovem você não tem nada. E para lidar com esse assunto, que é resultado do mundo em que a gente vive hoje que ‘produz’ refugiados, a gente tem milhões de deslocados à força no nosso próprio país, isso precisava chegar nas salas de aula.

As jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza. Foto: Divulgação

Blog: A Aryane agora mora em Portugal e Duda já morou em vários países e voltou recentemente ao Brasil. Como conhecer a história desses refugiados mexeu com vocês que já estiverem nesse lugar de expatriadas, obviamente não como refugiadas?

Aryane: A gente costuma falar que “Valentes” é um divisor de águas em nossas vidas porque ele traz uma outra forma de olhar para o mundo, olhar para as pessoas, para o nosso redor e para a gente mesmo, porque a gente não espera que possa estar um dia em uma situação de refugiado. Eu hoje sou uma migrante em uma situação bem privilegiada porque escolhi migrar, mas muitas pessoas não escolhem sair das suas casas, ou essa escolha é quase uma obrigatoriedade frente a miséria, a fome ou outras crises e conflitos. Esse livro começou a ser feito há dois anos e meio, ou seja, eu comecei ele ainda no Brasil, ele atravessou comigo o Atlântico e a gente atualizou o livro quando eu já morava aqui em Lisboa. Isso me deu uma outra perspectiva sobre o meu papel no mundo, o meu papel com as pessoas, a minha missão com as pessoas que é mais que compreender, é de estender a mão, de entender os recomeços, que os recomeços são válidos, que às vezes as pessoas precisam só de uma chance para recomeçar.

Duda: Esse livro é um divisor de águas nas nossas vidas, mas ele fala sobre os resultados e a brutalidade de um capitalismo desenfreado. Uma forma que a gente achou para se comunicar com o público jovem é (questionar): quem produz a nossa comida? O que significa ter um smartphone na mão, qual a história por trás das nossas roupas? Essas são todas questões retratadas nas nossas histórias dessas vidas valentes. Esse livro é sobre boa vizinhança, sobre como você quer ser tratado fora de casa e como você receberia a sua família dentro de casa. Em uma primeira apresentação do livro antes da pandemia, um menino que devia ter uns onze anos virou para mim e falou: ‘Eu entendi tudo sobre esse livro, ele é um livro sobre fazer amigos!’ E é justamente isso, é essencialmente isso, ele é um livro sobre amizade. E eu falo isso hoje totalmente arrepiada: minha vida é muito mais rica, eu fiz muitos novos amigos e não existe nada melhor, não existe sentido melhor para a vida.

Blog: Quando o assunto são os refugiados quais são as mentiras que têm que ser combatidas e que vocês apontam no livro?

Aryane: Antes de começar o livro a gente queria entender o que se falava sobre os refugiados. A principal mentira que a gente mais ouviu é que eles vão ‘roubar o emprego das pessoas ‘ ou que vão ‘roubar a vaga da creche’, porque ‘eles vão ter benefícios’, ‘vão ser os favoritos’ na hora de conseguir assistência social. E a verdade é que não existe nada disso. Se a gente olhar para o número de refugiados no Brasil vai perceber que eles representam uma porcentagem minúscula: antes de a gente considerar os venezuelanos com estatuto de refugiado, a gente tinha pouco mais de 11 mil refugiados, isso era 0,04% dos refugiados do mundo, é nada em um país com as nossas dimensões. E mesmo se a gente considerar os imigrantes, aqueles que vieram com visto de acolhida humanitária, como os haitianos, segundo o último levantamento que a gente teve acesso são 1 milhão e 800 mil imigrantes, também é muito pouco. E essas pessoas não conseguem trabalho, é muito difícil você se recolocar de forma minimamente decente – muitas vezes quando essas pessoas conseguem trabalho, está muito aquém de suas habilidades, suas qualificações, elas têm dificuldades enormes de validar seus diplomas, porque isso é caro, é muito caro. E no caso do refugiado, que implica numa perseguição, a última coisa que você vai pensar em levar com você numa fuga é um diploma,  você só quer salvar a sua vida e de sua família. E quando você chega em um lugar, você não tem a sua trajetória reconhecida. A verdade é que os refugiados e os imigrantes dinamizam a economia, já existem vários estudos que mostram o quanto eles contribuem para o PIB.

Duda: A gente dedicou todo um capítulo logo no início do livro para combater essas fake news. A gente ouviu argumentos além desses sobre a economia, que é o que mais aparece. Dizem, ainda, que ‘eles não se esforçam para falar o português e se integrar’. Uma pesquisa de 2019 do ACNUR mostra que 92% dos refugiados falam português. Ou se você pega, por exemplo, o nível de escolaridade, as pesquisas mostram que os refugiados têm um nível de escolaridade mais alto do que o dos brasileiros.  Então a palavra-chave que é integração: uma coisa é você dar um documento, você receber. Agora integrar é o que a gente trabalha nesse livro, porque faltam oportunidades. Todos nós podemos dar oportunidades para pessoas em situação de refúgio, você pode aprender um idioma com um refugiado, por exemplo. Integrar pode transformar a sua vida como transformou as nossas.

A capa de “Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil”. Foto do Twitter da Editora Seguinte, do Grupo Companhia das Letras

Blog: Vocês acham que conhecer essas histórias pode fazer os nossos filhos se tornem pessoas mais tolerantes?

Aryane: A gente fez esse livro pensando muito nisso, nessa nova geração. É claro que ele não é só para as crianças, para jovens e adolescentes, ele pode ser lido por todas as pessoas. Mas a gente acredita que precisa focar nessa nova geração para trazer um pouco mais de empatia, tolerância, a gente vive discursos de ódio muito inflamados, e eu acho que só a boa informação é capaz de combater esses discursos, é capaz de quebrar essas correntes de mentira. E são as crianças que podem trazer esse novo olhar. Elas não têm essas questões todas, preconceito, xenofobia, o racismo estrutural. E eu acho que a gente precisa combater isso nessa fase da vida, a gente precisa dar informações para elas, dar valores que mostram que não existem brasileiros, venezuelanos, cubanos, uruguaios. Existem pessoas, um grande mundo. E com a Covid isso ficou ainda mais claro: o que acontece do outro lado do mundo afeta a gente e não podemos ficar de olhos fechados para essas realidades, até porque os nossos filhos vão conviver cada vez mais com imigrantes e refugiados. Tem uma projeção da ONU que fala que até 2050 vai haver um bilhão de refugiados pelas mudanças climáticas, então a gente precisa falar sobre esses assuntos com eles, e não só porque esse vai ser um mundo que eles vão conhecer, enfrentar, mas que eles precisam estar preparados para lidar com isso com amor, empatia.

Duda: O mundo não é conectado por causa da globalização, ele é conectado porque a gente vive no mesmo organismo vivo – e claro que a gente tem milhares de temas transversais que afetam pessoas de diferentes formas, mas a gente vem construindo um diálogo muito próximo de alunos nas salas de aula, o lançamento do livro é recente, para entender as ferramentas, como comunicar isso. Se eu virar refugiado amanhã, o que me protege?  Esse livro tem essa capa dourada e aos poucos esses jovens vem falando para a gente ‘nossa, esses são meus novos super-heróis favoritos’. Quando a gente voltava às escolas a gente sempre preguntava ‘qual a sua Extraordinária favorita?’– e era sempre o universo da Marvel, o universo norte-americano e daí eu lembro dessa menina que falou, ‘a minha extraordinária favorita é a Dorina Nowill, eu adorei a história dela, e eu vou dizer que para seu livro ser verdadeiramente extraordinário ele precisa sair em braile!’ E é justamente isso que a gente quer, a possibilidade de fomentar esse pensamento crítico, e isso para a gente é o melhor resultado dessa construção, que não se encerra aqui, ela só vai começando a partir da entrega de cada livro.

Blog: E qual a sua ou seu ‘Valente’ favorito?

Aryane: Essa pergunta é sempre muito cruel, na verdade. É como eu falo em “Extraordinárias” – eu tenho dias de Dorina Nowill, tenho dias de Anita Garibaldi, dias de Chiquinha Gonzaga. Porque são tantas histórias, com temas tão transversais, que dialogam com a gente nas nossas mais variadas facetas. E com “Valentes” é um pouco isso, são temas que tocam tanto a gente e de tantas formas, que é difícil escolher. Mas o que eu sempre fico mais tocada com as histórias que envolvem crianças, por ser mãe. Quando a gente é mãe se coloca em um outro lugar de sentir todas as dores de todas as crianças do mundo e de todas as mães. E as crianças são metade desses grandes deslocamentos, elas sofrem tanto quanto os seus pais, elas estão ali enfrentando um mundo que já é tão desumano com elas, mesmo sendo tão pequenas.

Duda: São histórias que atravessam a infância em algum momento, se a pessoa não fez essa travessia na infância, ela atravessa outras infâncias em algum período. E são sempre histórias que se aproximam da gente, é dilacerante, é devastador. E que nada aplaque a nossa fúria de mudar isso, achando que são histórias distantes de nós, elas não são. É muito difícil escolher um Valente preferido. E olhando para a minha vida pessoal, tem duas mulheres lésbicas no livro e eu, sendo uma mulher lésbica, vejo nelas uma profunda inspiração. Tem a Juanita, que é da Colômbia, que aqui no Brasil conseguiu falar mais abertamente sobre isso, viver e entender esse universo e se assumir como mulher lésbica, ela fala no livro que talvez na Colômbia, como uma sociedade mais conservadora ela não teria conhecido. Tem também a Lara Lopes, que é moçambicana, que foi perseguida por essa questão e sempre sonhou em ter um filho e conseguiu realizar esse sonho com a companheira dela aqui no Brasil – e eu que sempre adotar desde criança eu pensar que eu posso adotar e um dia a minha filha, ou filho, possa brincar com a filha delas é algo absolutamente extraordinário, é realmente muito especial mesmo.

(Escute trechos da entrevista com Aryane Cararo e Duda Porto de Souza no site da Rádio Eldorado.)

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