Tilda Swinton estrela um filme definitivo do lockdown

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Em entrevista, atriz fala sobre a inusitada filmagem de ‘A Voz Humana’ e explica por que está empolgada com os efeitos perturbadores dos serviços de streaming para a indústria cinematográfica
Eleanor Stanford, The New York Times

A atriz Tilda Swinton em Veneza, Itália, 3 de setembro de 2020.  Foto: Susan Wright/The New York Times

VENEZA – Imagine ficar fechado em casa tendo apenas um cachorro com quem conversar, esperando que algo aconteça e ficando cada vez mais perto de ter um ataque de nervos e ficar completamente descontrolado.

Este pode ser um cenário familiar depois dos últimos meses de confinamento que tem se verificado no mundo inteiro, mas é também a premissa do novo curta de Pedro Almodóvar, A Voz Humana, estrelado por Tilda Swinton, que estreou no Festival de Cinema de Veneza na semana passada.

Baseado numa peça com uma única personagem no palco escrita pelo escritor francês Jean Cocteau, o filme de 30 minutos foi rodado em nove dias em Madri, no mês de julho. Nele, Tina Swinton aguarda em seu apartamento uma chamada do seu amante para negociar o fim do seu relacionamento, ingerindo pílulas e usando roupas elegantes saindo da cama. Quando finalmente toca o telefone, ela utiliza AirPods da Apple em vez de um aparelho fixo, como fazem as atrizes quando interpretam essa peça de Cocteau.

O projeto estava pronto antes do lockdown instituído em março por causa do coronavírus, mas a filmagem foi realizada durante a pandemia. A Voz Humana tem uma ressonância particular: segundo Swinton é o “filme definitivo do lockdown”.

Numa entrevista que concedeu, respeitando o distanciamento social, no Festival de Veneza, durante o qual recebeu o Leão de Ouro pela sua carreira no cinema, ela falou sobre a inusitada filmagem e explicou por que está empolgada com os efeitos perturbadores dos serviços de streaming para a indústria cinematográfica. Abaixo, trechos da entrevista.

Para mim, assistir à ‘A Voz Humana’ foi uma experiência catártica. Muita tensão é criada à medida que a sua personagem aguarda a ligação, e então irrompe a violência. Fazer o filme também foi uma catarse?
Foi muito catártico fazer um filme com Pedro porque sonhei com isto basicamente a minha vida inteira. E foi maravilhoso realizar alguma coisa em julho. Foi uma bênção. Ficamos muito felizes em trabalhar e provar para nós mesmos que conseguiríamos fazer o filme.

Em uma entrevista socialmente distanciada no Festival de Cinema de Veneza, Tilda Swinton discutiu a filmagem incomum de seu novo filme e explicou por que está animada sobre os efeitos perturbadores dos serviços de streaming na indústria cinematográfica.  Foto: Susan Wright/The New York Times

Qual foi a sensação de estar de novo num set de filmagem?
Foi como reter a respiração embaixo d’água por um longo tempo. Estou descobrindo que as coisas limítrofes mais traumáticas são aquelas que são similares. Se tudo fosse completamente diferente, poderia ser mais fácil de adaptar, mas quando se trata de algo que você reconhecia antes de março, as coisas ficam confusas e a confusão é muito exaustiva.

Assim, depois de um milésimo de segundo entendendo que haveria membros da equipe que jamais reconheceria sem suas máscaras, nossa abordagem foi rodar um filme da maneira como sempre o fizemos: Algumas coisas vão mudar neste mundo e muitas mais não mudarão.

Você aprendeu alguma coisa inesperada durante o lockdown?
Nada de novo sob o sol. Durante o lockdown – e esta foi a primeira, espero que ocorram mais – surgiu uma oportunidade de refletir sobre tudo o que temos. Meu mantra no momento é de que temos o que necessitamos, é preciso também olhar e ver.

E o que mais sentiu falta?
Todo mundo sente falta do cinema na telona de uma maneira que vimos apenas no tocante a poucas coisas. Isto foi, e ainda é, algo no qual temos de nos concentrar.

Esse apetite aguçado pela tela grande. Sentir que decorrerão meses antes de termos a chance de estar numa sala de cinema de novo, isso tem sido realmente doloroso. Essa dependência é opressiva.

Isso parece quase um vício!
Bom, para alguns de nós é isto mesmo. O que vem ficando claro é que não tem a ver com o que está na tela. É a própria tela e você fazer parte do público.

O Festival de Berlim anunciou recentemente que vai retirar as categorias divididas por gênero no caso dos prêmios de atuação no próximo ano. Não haverá mais prêmio de Melhor Ator e Melhor Atriz, apenas Melhor Desempenho Principal e Melhor Desempenho Coadjuvante. O que acha disto?
Óbvio. É o que venho dizendo há 30 anos, mas essas coisas levam tempo. Estamos lentamente nos dando conta da realidade.

Acho que tem a ver com identidade. Sou uma pessoa otimista e acredito na inteligência, acredito que as pessoas estão começando a compreender como a identidade tratada como uma commodity, compartimentalizada, funciona na sociedade – como a questão do gênero – e isto tem de ser combatido.

Esse tipo de compartimentalização não é a nossa condição original. É algo que aprendemos e temos de ir além disto, por isto um gesto como o feito por Berlim, que sem dúvida será adotado em todos os lugares, vai nesse sentido. Pequenos gestos aqui e ali, fazer pequenos ajustes.

Acho que vai ser como à época em que foram instituídos os cintos de segurança compulsórios nos carros no Reino Unido, quando muitas pessoas ficaram indignadas, entendendo que estavam violando suas liberdades civis. E então no dia seguinte à promulgação da lei, todo mundo colocou seu cinto e permaneceu com ele, e ficou tudo bem.

Quando você aceitou seu prêmio pela carreira em Veneza, disse que estava apenas começando. Qual será o próximo trabalho?
Estava trabalhando num filme-ensaio sobre aprendizado, mas voltamos à estaca zero porque era algo relativamente esotérico, um tema de nicho, sobre “como deveria ser uma escola?”, algo que todo mundo vem indagando neste momento sobre o ensino em casa, ou que as pessoas estão privadas de ir à escola.

Por meio da minha experiência na escola que ajudei a fundar (cujo modelo é de um aprendizado conduzido pelo aluno e ao ar livre), percebo que não precisamos mais de uma escola para compartilhar informação. Você consegue se educar por meio do seu telefone, e assim a pergunta é esta: o que as crianças perderam no tocante à escola durante o lockdown, o que a escola vale para elas? Esta é uma oportunidade de realmente mudar as coisas radicalmente, e estou contente com o fato de o filme levantar essas questões.

Cate Blanchett, presidente do júri de Veneza, e Alberto Barbera, diretor artístico do festival, usaram seus discursos para alertar que a ascensão dos serviços de streaming, especialmente durante o lockdown, é uma ameaça ao cinema. Você concorda?
Na verdade, não. Significa apenas que temos de ser flexíveis e ágeis. E o cinema consegue isto. Sou partidária da ideia de que a necessidade é a mãe da invenção. E na verdade, essa ascensão me empolga. Manda ver!

Venho observando as pessoas preocupadas há alguns anos com a vinda do streaming, mas então na pandemia algo muito interessante acontece. De um lado, essas preocupações aumentaram, mas ao mesmo tempo, veja, todo mundo está sonhando em ir ao cinema. Acho que jamais veremos um tempo em que as pessoas não mais terão vontade de ir ao cinema e se sentar naquele grande espaço no escuro.

O problema, com tanta coisa que vem sucedendo no momento, tem a ver com dinheiro e capitalismo e o financiamento de filmes. As pessoas vão ter de ser mais imaginativas, arregaçar as mangas e solucionar esse problema.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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