Sonho americano é virado do avesso em série com Kirsten Dunst

Série chegou à Globoplay na semana passada com todos os dez episódios disponíveis e uma segunda temporada já prevista
Luciana Coelho

A atriz Kirsten Dunst, que estrela “Como se Tornar uma Divindade na Flórida” – Valerie Macon/AFP

Há um lado pantanoso do “sonho americano”, a ideia de que qualquer um é capaz de prosperar com base no próprio esforço até obter um padrão de vida confortável. A série de humor negro “Como se Tornar uma Divindade na Flórida”, com Kirsten Dunst, leva esse simbolismo ao pé da letra.

Produzida pela plataforma americana Showtime, a série passou nos Estados Unidos há um ano sem maior barulho, embora tenha rendido a Dunst uma indicação ao Globo de Ouro (perdeu para Phoebe Waller-Bridge). Chegou à Globoplay na semana passada com todos os dez episódios disponíveis e uma segunda temporada já prevista.

Em “Como se Tornar”, a personagem de Dunst, Krystal, ascende em uma empresa de suprimentos de papel e limpeza do tipo pirâmide, na qual a meta é cooptar mais gente e assim arrecadar parte dos lucros dos tutelados.

No topo, como sempre, fica o guru que enriqueceu com o método e enriqueceu os asseclas mais próximos, legando ao pessoal da base, não raro, miséria e desgraça.

A história é similar ao episódio real documentado em “The Vow”, em exibição na HBO, sobre uma empresa de autoajuda que se tornou uma quase-seita nos EUA dos anos 2000.

Em “Como Se Tornar”, contudo, não há espaço para sutileza. Se no documentário a promessa do enriquecimento espiritual ou pecuniário se torna intrigante porque pode enredar qualquer um, na ficção da Showtime só caem no conto os mais desprovidos.

Krystal é o que os americanos chamam, pejorativamente, de “white trash”, ou lixo branco, aquela parcela da população do país que escapa do racismo, mas não de outras armadilhas que impedem a meritocracia de realmente funcionar.

Com menos educação e menor acesso a bons empregos e informação, não tem bens e vive soterrada por um pilha de dívidas que vão de excessos de consumo a contas criadas por um sistema de saúde voraz, no qual o atendimento gratuito existe em poucos estados.

Diante das dívidas e de uma filha bebê para alimentar, resta a Krystal, funcionária de um parque aquático decadente, assumir como negócio a razão de vida de seu marido, Travis (um irreconhecível Alexander Skarsgård, de “Big Little Lies”): recusar membros para a FAM, empresa que alista associados para alistarem mais associados em uma pirâmide infinita e, assim, repassar seus produtos de baixa qualidade.

Diferentemente de Travis, porém, Krystal é cínica, sabe onde está se metendo e não liga de tragar outros com ela.

Mais interessante que a personagem de Dunst, à qual falta alma, é se entreter com os que orbitam à sua volta, como os vizinhos Ernie e Bets (Mel Rodriguez e Beth Ditto, a vocalista da banda Gossip) e seu ingênuo “mentor”, Cody (atuação impressionante do jovem ator canadense Théodore Pellerin –eis aí alguém para ficar de olho).

Ao pintar os iludidos como gente tão simplória, “Como se Tornar” oscila: ora diverte, ora é simplista.

‘Como se Tornar uma Divindade na Flórida’ está disponível no Globoplay

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