Medo da opinião alheia, denominado FOPO, invade as redes sociais

Cultura do cancelamento amplifica sintoma, que já havia sido ‘classificado’ na vida real, e postar ou não postar se torna uma questão
Marcia Disitzer

Ambiente reativo provoca medo de postar Foto: Shutterstock

O termo que vem à baila lembra FOMO (sigla em inglês para o “medo de estar perdendo alguma coisa”), síndrome do mundo moderno antes da pandemia, em que todos estavam lindos e felizes em fotos fartamente distribuídas nas redes sociais. Agora outra sigla parecida ganha espaço por detectar um comportamento. Chama-se FOPO (“fear of other people’s opinion” ou medo das opiniões alheias). Foi cunhado pelo psicólogo americano Michael Gervais e se refere a um receio que pode virar uma “obsessão irracional”. O sintoma agora se expande, contagia as redes sociais e o postar ou não postar vira uma das principais questões contemporâneas. E não é para menos: estamos vivendo uma era, potencializada pela pandemia, em que atitudes individuais — como, por exemplo, a festa promovida pela influenciadora Gabriela Pugliesi em plena quarentena — podem ganhar imensa (e negativa) repercussão. O pavor de ser “cancelado” acaba comprometendo o discernimento e até o “correto”, sob a lente do medo, corre o risco de parecer equivocado.

André Carvalhal Foto: Chico Cerchiaro
André Carvalhal Foto: Chico Cerchiaro

O consultor de moda e escritor André Carvalhal vem questionando o assunto. “Vale se perguntar se a pessoa que deixa de fazer uma determinada publicação on-line, por não ter segurança ou para ser socialmente aceita, está, de fato, repensando suas ações no mundo real”, explica. “Por exemplo, tem um monte de gente indo a festas durante a pandemia. Elas não postam o que estão vivendo, como fariam em outros períodos, mas seguem na aglomeração, sem questionamento algum”, dispara Carvalhal. 

Luiza Brasil Foto: Leandro Tumenas
Luiza Brasil Foto: Leandro Tumenas

Segundo o consultor, o FOPO é resultado de tudo que a web intensificou. “Até pouco tempo, o ‘cancelamento’ vinha da imprensa, daqueles que eram chamados de formadores de opinião e faziam a curadoria do que era ou não válido. Hoje, a pirâmide se inverteu”, observa. “E aí entra o medo da opinião dos outros e o consequente receio de expressar a sua, já que todos podem fazer julgamentos a respeito”, continua. Para ele, a novíssima geração já emergiu sob esses novos códigos, e está mais preparada do que os “millennials antigos”.

De acordo com o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, a reflexão a respeito das publicações na internet está em curso e é mais do que bem-vinda. “Estamos aprendendo a ocupar esse espaço”, analisa. “O indivíduo pensar antes de postar e investigar o significado do post para si e para os outros é sinal de que está desenvolvendo consciência crítica”, acredita.

Kika Gama Lobo Foto: Renan Oliveira
Kika Gama Lobo Foto: Renan Oliveira

Com 98 mil seguidores no Instagram no perfil @mequetrefismos, a influenciadora Luiza Brasil acredita que a pandemia da Covid-19 deixou as desigualdades sociais ainda mais latentes e transformou o sentido do verbo postar. Ela diz estar tendo ainda mais cuidado neste momento. “Por estarmos todos em casa, surgiu o questionamento do quanto da minha intimidade devo revelar. Percebi que também posso silenciar”, afirma. “Tudo isso está provocando uma mudança de mentalidade. Muitas vezes, eu me pergunto: ‘Preciso mesmo postar isso ou é melhor viver?’”, avalia. Antes da pandemia, existia a vangloriação do lifestyle. “Hoje o que conta é como você está conduzindo a sua vivência, ser mais educativa e empática”, emenda. Luiza acredita que esta reflexão deveria avançar mais algumas casinhas. “O tribunal vazio da internet faz com que as pessoas sintam medo, mas, na maioria das vezes, não altera a conduta nem o caráter do indivíduo. O papo deveria ser outro. São poucos os que investigam a origem do real problema simbolizado no receio de ser ‘cancelado’.”

Carvalhal — que no fim do mês vai lançar o livro “Como salvar o futuro” — diz que todo o processo de postar ou não postar deveria ser utilizado como ferramenta de autoconhecimento. “Procuro pensar no que a dúvida diz sobre mim e não sobre os possíveis comentários negativos”, explica.

Para a antropóloga Carol Delgado, o FOPO tem a ver com a evolução das redes. “Principalmente por causa do confinamento, o virtual tornou-se ainda mais parte do real”, analisa. Porém, ela não crê que este ‘sintoma’ mobilize a população brasileira, e destaca o poder das fakes news no país como prova disso. “A sociedade do Brasil é organizada para ser cara de pau. Não acho que exista uma orientação pautada pelo medo e, sim, pelo medo de passar vergonha”, ressalta.

Medo de passar vergonha é exatamente o que não tem a criadora de conteúdo digital Kika Gama Lobo. À frente do Atitude 50, ela conta que a vida inteira foi julgada pelas opiniões bélicas. “A minha voz sempre precisou sair e rapidamente entendi que pagaria um preço por isso”, observa Kika, que diz ter sido constantemente “patrulhada” no mundo e na web. Nos últimos tempos, ela — que criou, em 2009, a hashtag #riodemerda para chamar atenção para os problemas da cidade — confessa ter ficado mais atenta. “O FOPO não me inibe na hora de postar, mas passei a pensar com cuidados nas palavras que utilizo. Eu me preocupo em não ferir ninguém”, explica. “Continuo rebelde, mas penso mais no outro. Existe uma nova etiqueta e procuro encontrar um meio-termo”, admite. Mesmo assim, volta e meia, ela recebe mensagens de conhecidas falando para ela ser mais “cordata” para conseguir contratos. “Dizem que sou louca por misturar maturidade com boletos e política.”

O professor de Filosofia Renato Noguera aponta o debate pouco qualificado das redes sociais como uma das possíveis causas para o FOPO. “Muita gente prefere se manter reservada para não correr o risco de ser mal interpretada e virar alvo dos haters”, pondera. Ele acha que ainda é cedo para avaliar o fenômeno. “É preciso analisar caso a caso. Existe a influência do politicamente correto, que é a celebração da democracia, mas também pode revelar um moralismo ideológico. Há sim um grau de pressão, mas vamos ter que esperar um tempo para entender melhor.” A conferir.

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