Como o feminismo deve tratar o abuso sexual? Uma batalha na França patriarcal

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, 61 anos, e a recém-eleita vereadora da capital francesa Alice Coffin, 42, ilustram o embate entre a tradição do feminismo universalista francês com uma nova onda do movimento, que tem no centro de sua atuação o combate à violência contra a mulher
Norimitsu Onishi, do New York Times

Anne Hidalgo, prefeita de Paris, fotografada em seu gabinete (17/09/2019). Um caso de abuso sexual colocou feministas em lados opostos na França, país onde o movimento #MeToo anda a passos lentos Foto: Andrea Mantovani/The New York Times

PARIS – Elas pareciam aliadas naturais. Ambas são mulheres no mundo dominado pelos homens da política francesa. Ambas parceiras na aliança de esquerda que governa Paris. Ambas feministas. Mas as duas mulheres chegaram a definir as tendências concorrentes do feminismo francês de diferentes gerações e recentemente se encontraram em extremos opostos de uma briga política antiquada.

Anne Hidalgo, 61, prefeita de Paris regularmente mencionada como uma futura candidata à presidência, incorpora uma tradição do feminismo francês que luta pelos direitos das mulheres dentro da estrutura legal de acordo com os valores universalistas do país, como igualdade e liberdade.

Alice Coffin, 42, uma vereadora recém-eleita e ativista feminista de longa data, faz parte da mais nova onda de feminismo da França, que coloca a questão da violência contra as mulheres no centro do movimento e não tem medo de enfrentar um poderoso e entrincheirado establishment masculino.

Alice Coffin, conselheira na cidade de Paris e parte de uma nova onda feminista na França. Um caso de abuso sexual colocou feministas em lados opostos na França, país onde o movimento #metoo anda a passos lentos

Alice Coffin, conselheira na cidade de Paris e parte de uma nova onda feminista na França. Um caso de abuso sexual colocou feministas em lados opostos na França, país onde o movimento #metoo anda a passos lentos Foto: ANDREA MANTOVANI / NYT

O ponto mais recente desse embate envolveu foi Christophe Girard, um temido e poderoso corretor em Paris, que era o vice da prefeita para a cultura e se tornou um foco de controvérsia este ano por seu apoio de longa data a Gabriel Matzneff, o escritor celebrado por uma parte da elite francesa, apesar ser abertamente conhecido que ele tinha relações sexuais com meninas adolescentes e meninos pré-púberes.

Para Coffin, tirar Girard do poder estava no cerne de seu feminismo. Durante meses, Hidalgo defendeu Girard, mesmo depois que Coffin e outras feministas o pressionaram a deixar o cargo de vice-prefeito no final de julho, distanciando-se apenas depois que o New York Times relatou novas acusações de que ele havia abusado sexualmente de um adolescente anos atrás. Girard negou as acusações e agora está sob investigação do Ministério Público.

O caso reacendeu um debate acirrado sobre o feminismo na França, um país onde o movimento #MeToo demorou a decolar, mas onde mulheres como Coffin deixaram outras feministas cada vez mais inquietas ao procurar confrontar publicamente os homens suspeitos de abuso.

— Nosso alvo são homens poderosos, o que não dá certo na França.É uma nova etapa, é diferente do feminismo que era praticado antes — disse Coffin.

Os tweets da prefeita — defendendo seu vice e destacando Coffin e outra vereadora para críticas — levaram a uma avalanche de ameaças contra Coffin e ela acabou sendo colocada sob proteção policial por 15 dias.

Hidalgo recusou os pedidos de entrevista feitos pela reportagem do New York Times.

— O caso Girard foi um ponto de cristalização — disse Camille Froidevaux-Metterie, uma importante filósofa feminista. Em sua opinião, o embate dramatizou a principal divisão no feminismo francês hoje: “as tensões entre feministas que fizeram da luta contra a violência sexual o verdadeiro cerne de sua luta” e um estabelecimento político feminista que exibiu “surdez relativa” a essas aspirações.

Inspiradas pelo movimento #MeToo, feministas mais jovens lideraram o ataque contra Girard, que, para elas, representava uma velha ordem que autorizava ou pelo menos fazia vista grossa aos abusos de mulheres. Para elas, as feministas tradicionais às vezes eram cúmplices.

— Um pilar do feminismo hoje é ouvir as vítimas e questionar a impunidade dos agressores ou possíveis agressores, e como o sistema de justiça os trata — disse Chloé Deschamps, uma estudante de 18 anos que acompanhou de perto o caso envolvendo Girard.

Na França, as feministas negras e muçulmanas entraram em conflito especialmente com as feministas tradicionais — a maioria mulheres brancas mais velhas que, de acordo com os ideais universalistas da França, tendem a se opor a uma forte identificação racial e étnica.

Em 2017, Hidalgo se envolveu em uma rixa com um grupo feminista negro chamado Mwasi depois que ela ameaçou encerrar sua conferência porque alguns dos painéis eram restritos a mulheres negras — ou, como ela descreveu em um tweet, “proibido para brancos.”

Fania Noël, uma líder de Mwasi, disse que não compartilhava da visão feminista da prefeita. Mas ela encontrou “pontos de convergência” com Coffin, que expressou sua admiração pelas feministas negras.

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