Estudantes do Complexo do Alemão criam marca de cosméticos naturais e sustentáveis

Kurandé foi ideia de Felipe Garcia e Claudio Marques, moradores da comunidade
Talita Duvanel

Claudio Marques (à esquerda) e Felipe Garcia, criadores da Kurandé Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

RIO — Foi na cozinha da casa onde vivem, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, que os estudantes Felipe Garcia e Claudio Marques fizeram seus primeiros sabonetes em meados de 2019. Apesar de a produção, para os dois, ser inédita, o hábito de lavar o corpo, as mãos e as louças com o produto artesanal era ancestral. “Cresci com a minha avó fazendo saboaria. Desde pequeno, me perguntava: ‘Como ela usa a gordura que sai da panela para limpar essa mesma panela?”, relembra o paulistano Claudio, de 26 anos, que veio morar no Rio para cursar Letras e depois História da Arte na UFRJ. Felipe, de 23, estudante de Biologia da mesma instituição e namorado de Claudio, também lembrou de sua bisavó usando banha de porco para fazer produtos de limpeza.

A soma desse saber com a vontade de consumir mais artigos naturais e de ter um negócio próprio fez o casal colocar a mão na massa. Nascia assim a marca de cosméticos Kurandé. Os produtos são todos formulados a partir de plantas e ervas tropicais nativas (muitas das quais Felipe fora apresentado por sua mãe e avó, quando ainda morava em Japeri, na Baixada Fluminense). “É rotineiro as mães de periferias usarem o saber preto ou indígena para tratar uma dor de cabeça ou no corpo, por exemplo”, diz Felipe. “Na Kurandé, foram esses conhecimentos que começamos a aplicar, uma bagagem de vivência, pensando na ciência indígena e africana, muitas vezes desvalorizadas.”

Hoje, a Kurandé já tem um portfólio robusto: além dos sabonetes, há xampu e condicionador sólidos, desodorante, máscara facial, óleo e musse corporal, tudo embalado em papelão ou papel reciclável e vidro, porque sustentabilidade é um dos esteios do negócio. As fórmulas ficam a cargo de Felipe, que investiu grande parte de seu tempo em cursos de bioquímica e cosmetologia. O setor administrativo é a praia de Claudio, dono da veia empreendedora mais forte. A dupla ainda recorre a Rita de Cássia, mãe de Claudio, que ajuda na produção diretamente de sua casa no litoral paulista. “A demanda foi crescendo tanto que não estávamos mais conseguindo fazer, embalar, entregar. Aí, conversei com a minha mãe. O que demorávamos duas horas para concluir, ela resolvia em 20 minutos”, conta o paulistano.

Como sabe todo microempreendedor, a pandemia deu uma freada nos negócios. O primeiro mês foi de medo, eles confessam. Mas já no segundo, começaram a ver uma retomada do crescimento, principalmente porque investiram tempo e dinheiro no domínio do universo digital. O que antes era hit de vendas em feiras ao ar livre, hoje é badalado no e-commerce kurande.com.br e no Instagram @kurandecosmeticos.

Apesar do sucesso, os rapazes fazem parte da imensa massa de empreendedores negros que têm crédito negado por bancos sem justificativa (segundo levantamento do PretaHub, publicado no fim de 2019, isso acontece com 32% dos empresários pretos e pardos). O CEP, eles dizem, dificulta ainda mais as coisas. “Para você conseguir uma linha de crédito, você precisa de patrimônio ou algo para garantir o pagamento. Se você mora num contexto de favela, o que tem para comprovar?”, critica Claudio. “Na estrutura em que vivemos, toda a população negra e favelizada é marcada para não entrar nesse universo.”

Remando contra a maré, a marca hoje está num projeto de aceleração empresarial promovido pelo Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS) e pela Shell para que eles consigam investidores. Independentemente da altura do voo, sair da comunidade não é uma opção. “Nossa pretensão é expandir dentro do Complexo, promover oferta de emprego para os moradores. Pensamos em fortalecer nosso território.”

Como bem diz a descrição da página da Kurandé no Instagram: do Alemão para o mundo.

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