A história da iraquiana Mareana Essa que passou por guerras até virar a designer de sobrancelha das famosas no Brasil

Mareana Essa, que viveu dois conflitos armados em seu país natal, reconstruiu a vida no Rio: ‘Passei a amar ainda mais a paz e a enxergar as dificuldades sob outro prisma’
Em depoimento a Marcia Disitzer

Mareana Essa Foto: Ana Branco/Agência O Globo

Nasci no início  de uma guerra. Em 1980, quando cheguei ao mundo, meu país natal, o Iraque, entrou em conflito armado com o Irã.

Foi assim

Mareana Essa, 40 anos

“Este combate sangrento durou longuíssimos oito anos, uma boa parte da minha infância. Eu morava com minha família, de classe média, numa casa, em Bagdá. Era comum caírem mísseis em escolas e hospitais, matando civis. Muitas vezes, eu ia para a escola aos prantos com medo de ser alvo de um desses ataques. Lembro como se fosse hoje o dia em que a guerra acabou: oito de agosto de 1988. Foi nesta data também que fiz a minha primeira comunhão. Porém, infelizmente, a paz durou pouco. Dois anos depois, foi a vez  do Iraque e o Kuwait duelarem. Estava com 10 anos.

De um dia para o outro, tudo parou e deixei de frequentar a escola. Bem parecido com o que está acontecendo aqui no Brasil por causa da pandemia do novo coronavírus. Considero ainda pior o que estamos vivendo agora: numa guerra, é possível ir para outro país e recomeçar. Já a pandemia é mundial, não tem para onde fugir.

“Numa guerra, é possível ir para outro país e recomeçar. Já a pandemia é mundial, não tem para onde fugir”

Durante dois anos, tempo que durou o conflito, eu e minha família, depois de nos abrigarmos no porão de casa, buscamos refúgio numa fazenda. Ficávamos sabendo de vizinhos que iam para a guerra e nunca mais voltavam. Apesar de termos feito tudo para evitar perdas, meu primo foi assassinado em Bagdá. Foi muito, muito triste.

No final da década de 1990, a minha família decidiu deixar  o Iraque e se estabelecer na Turquia. Naquela altura, eu já estava cursando a faculdade de História, que acabei não concluindo. Em Istambul, conheci um amigo iraquiano do meu irmão chamado Vector. Foi amor à primeira vista. Ficamos noivos e nos casamos em 1999. Foi a melhor escolha que fiz em toda a minha vida.

Vector já tinha duas irmãs que moravam no Brasil. Em 2001, decidimos escrever um novo capítulo de nossas vidas na Cidade Maravilhosa. Quando cheguei ao Rio, sofri um verdadeiro choque cultural. A Praia de Copacabana deve estar molhada até hoje com as minhas lágrimas. Eu me sentia extremamente só e morria de saudades da minha mãe, era muito apegada a ela. Também achava o português uma língua superdifícil. Queria voltar de qualquer jeito, mas meu marido dizia ser impossível. Até que um dia, na mesma Praia de Copacabana em que chorava, ouvi uma moça falando árabe e puxei conversa, para espantar a solidão. A tal moça era a marroquina Karima Elmaataoui, que dava consultoria para  a novela ‘O clone’. Conversa vai, conversa vem, ela me convidou para ajudá-la nos bastidores do folhetim. Eu aceitei e nunca mais parei. Lá, conhecei outro marroquino, chamado Said, que me levou para trabalhar num salão de beleza. Todos ficaram encantados com a sobrancelha feita com linha, técnica milenar que aprendi aos 14 anos com minha mãe. Na sequência, saiu uma reportagem no então caderno ELA falando sobre a minha história e o método caiu nas graças das cariocas. Hoje, trabalho no Care Salão, em Ipanema, e tenho clientes fiéis como Marisa Monte, Glória Maria, Gloria Perez e Ingrid Guimarães. Já lancei uma pomada manipulada para pentear sobrancelhas e vou apresentar, até o fim do ano, uma sombra para cobrir as falhas, ambas em parceria com a Dermage. Eu e meu marido também estamos à frente de um restaurante de comida árabe, chamado Baghdad, em Copacabana. Temos dois filhos brasileiros: Ashur, de 10 anos, e Raquel, de 3. Somos felizes.

Pelo fato de ter passado por duas guerras, passei a amar ainda mais a paz e a enxergar as dificuldades da vida sob outro prisma, os problemas do dia a dia me parecem pequenos, entende? Também sempre agradeço muito a Deus por tudo que me aconteceu: Bagdá é minha mãe, mas o Brasil cuidou de mim, é o meu padrinho.”

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