Mulheres negras lutam, literalmente, pela preservação da vida selvagem em ‘Akashinga’, produzido por James Cameron

Akashinga: guerreiras em nome da preservação da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

“Akashinga” é um termo que significa “corajosa” na língua xona, de origem bantu e falada no norte do Zimbábue. Tal denominação não poderia ser mais pertinente para o trabalho de 170 guardas florestais mulheres que todos os dias saem de suas casas para defender a preservação de animais sob risco de extinção pela caça furtiva, como elefantes e rinocerontes.

A atuação destas guerreiras armadas (e remuneradas) se tornou foco de um curta-metragem documental produzido por ninguém menos que James Cameron, diretor de “Titanic” e “Avatar”. “Akashinga – The brave ones” vai ao ar nesta terça-feira (22), no canal a cabo National Geographic – a versão original, sem legendas em português, está disponível no site nationalgeographic.com ou no YouTube.

A unidade de protetoras da vida selvagem foi fundada em 2017 por Damien Mander, um australiano veterano da Guerra do Iraque. Akashinga é o desdobramento de uma viagem feita por ele oito anos antes ao continente africano, quando Mander criou a International Anti-Poaching Foundation (IAPF), organização com foco no combate à caça furtiva.

Treinamento de guardas do projeto Akashinga, no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts
Treinamento de guardas do projeto Akashinga, no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

No projeto Akashinga, as mulheres recebem não apenas treinamento voltado para a gestão administrativa de áreas de preservação. Elas também são preparadas para possíveis confrontos físicos, com aulas de autodefesa e manejo de armamentos.

Mas se já existia uma entidade voltada para a preservação antes, qual a motivação para criar um braço formado apenas por mulheres?

– As forças predominantemente masculinas são prejudicadas pela corrupção contínua, nepotismo, embriaguez, agressividade para com as comunidades locais – conta Damien Mander – Decidimos inovar, usando uma equipe feminina para administrar uma reserva natural inteira no Vale do Baixo Zmabeze, no Zimbábue, e ficamos surpresos com a transformação e o potencial. Nos primeiros dois anos e meio, Akashinga ajudou a impulsionar uma redução de 80% na caça furtiva de elefantes na região.

Ele pontua que a inspiração para o projeto Akashinga veio da atuação de um grupo feminino atuante na Reserva Natural Balule, na África do Sul. Chamadas de Black Mambas, as patrulheiras cercam o perímetro como monitores ambientais desarmados, apoiando uma unidade armada e privada contra a caça furtiva dentro da reserva.

Armas em punho para a presevração da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts
Armas em punho para a presevração da vida selvagem no Zimbábue Foto: Kim Butts / Kim Butts

A meta de Mander é empregar no Akashinga 1.000 mulheres até 2025, protegendo uma rede de 20 reservas naturais. Ele conta que quando o programa foi inaugurado, foi decidido criar oportunidades para os membros mais marginalizados e vulneráveis da comunidade. As 87 mulheres que passaram pela primeira seleção eram todas sobreviventes de graves agressões sexuais, violência doméstica, órfãs da AIDS, mães solteiras, esposas abandonadas e profissionais do sexo.

– Akashinga é uma maneira diferente de olhar para filantropia, empoderamento, aplicação da lei, desenvolvimento rural, saúde e bem-estar, e gestão de terras na África – analisa Mander – Tudo isso contribui para uma narrativa global mais ampla e impacta a pobreza, as mudanças climáticas e a crise de conflitos.

Da violência domestica à luta pela preservação

Uma das protagonistas desta história é Nyaradzo Auxillia Hoto. Ela tem 28 anos e uma filha de 8, chamada Tariro. Nyaradzo cresceu na vila Huyo, Nyamakate, localizada no Vale do Zambeze, no Zimbábue. Nascida em uma família muito pobre ao lado de oito irmãos, ela era brilhante na escola, mas seus pais não tinham dinheiro suficiente para que ela continuasse seus estudos, o que obrigou Nyaradzo a desistir da escola. Em desespero, ela se casou aos 20 anos, achando que não havia outra opção para sobreviver.

Guerreiras em formação: mais um dia de trabalho no projeto Akashinga Foto: Kim Butts / Kim Butts
Guerreiras em formação: mais um dia de trabalho no projeto Akashinga Foto: Kim Butts / Kim Butts

Presa em um relacionamento abusivo e vítima de violência, ela tomou coragem para se divorciar em 2014, passando a fazer bicos com jardinagem e venda de tomates. Três anos depois, tomou conhecimento do projeto Akashinga. Dali em diante, sua vida se transformou.

– Antes eu não pensava em animais, mas agora tenho uma forte paixão pela vida selvagem e pela natureza. Além disso, adquiri uma carteira de motorista, o que é um grande negócio para uma mulher rural africana – conta Nyaradzo, que também conseguiu comprar um terreno, onde hoje vive com a filha Tariro.

O sorriso de Nyaradzo Hoto, uma das 'rangers' do projeto Akashinga Foto: Reprodução
O sorriso de Nyaradzo Hoto, uma das ‘rangers’ do projeto Akashinga Foto: Reprodução

A “ranger”, como gosta de se autodenominar, também precisa conciliar a vida de guarda florestal com a rotina acadêmica. Nyaradzo voltou às salas de aula e, hoje, cursa Ciências em Vida Selvagem, Ecologia e Conservação na University of Zimbabwe.

Ela conta que sua comunidade, que antes zombava da possibilidade de mulheres se tornarem guardas responsáveis pela preservação de tantas espécies em extinção, agora admira a força do projeto. Um legado importante também para a filha Tariro, que já demonstra a vontade de ingressar futuramente no Akashinga.

– Quero garantir a todas as mulheres do mundo que o céu é o limite. Nenhum trabalho é feito só para homens. Nada é impossível, tudo que você precisa é coragem, comprometimento, caráter e dedicação – prega Nyaradzo – Eu sou forte hoje porque fui fraca antes. Estou destemida hoje porque tive medo antes.

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