Estudo inédito conclui que pandemia de coronavírus desencadeou uma crise global na saúde mental das mulheres

Mulheres de 40 países mencionam preocupações sobre manutenção da renda, dificuldades para comer e ter acesso a cuidados de saúde, além da sobrecarga com as responsabilidades de cuidado
Maya Oppenheim, do Independent

Estudo mostra que as mulheres têm quase três vezes mais probabilidade de dizer que sua saúde mental piorou após a pandemia Foto: Arte de Clara Brandão

O coronavírus desencadeou uma crise de saúde mental para mulheres em todo o mundo, concluiu um estudo inédito. As mulheres têm quase três vezes mais probabilidade de dizer que sua saúde mental piorou após a pandemia, descobriram os pesquisadores.

A pesquisa foi feita pela Care International, uma agência humanitária global que entrevistou 10 mil pessoas em 40 países sobre as repercussões da crise de saúde pública e descobriu que 27% das mulheres relataram um aumento nos problemas ligados à saúde mental, em comparação com apenas 10% dos homens.

As mulheres citaram preocupações sobre a manutenção da renda, dificuldades para se alimentar e ter acesso a cuidados de saúde e maiores responsabilidades de cuidado como fatores que levam à deterioração da saúde mental.

Os pesquisadores descobriram que 55% das mulheres relataram perda de renda como um dos maiores efeitos da emergência da Covid-19, em comparação com 34% dos homens.

Cerca de 41% das mulheres entrevistadas disseram que não tinham comida suficiente no período da pandemia, enquanto 30% dos homens relataram o mesmo. Os pesquisadores alertam que essa lacuna de gênero decorre de “desigualdades de gênero profundamente arraigadas” nos sistemas alimentares locais e globais — dizendo que as mulheres geralmente “comem menos e por último”.

A maioria das pessoas entrevistadas participou dos programas da Care International — o que significa que estão entre as camadas mais pobres da sociedade.

— Seis meses atrás, a Care soou o alarme de que a crise global de saúde apenas aumentaria a diferença de gênero e reverteria décadas de progresso na saúde, nutrição e estabilidade econômica das mulheres. E depois de seis meses ouvindo mulheres e registrando suas histórias, nosso alarme está tocando mais alto do que nunca. Nossos dados devem ser um apelo à ação para toda a comunidade global para montar uma resposta mais eficaz e equitativa à Covid-19 — disse Emily Janoch, principal autora do relatório.

Situação na América Latina
As mulheres entrevistadas tinham quase duas vezes mais probabilidade de relatar problemas no acesso a serviços de saúde de qualidade. Os pesquisadores alertam que os problemas de saúde mental das mulheres durante a crise do coronavírus estão provocando aumento da ansiedade, dificuldades para dormir ou comer e deixando-as incapazes de realizar as tarefas diárias.

Na América Latina, 16,7 milhões de trabalhadoras domésticas estão enfrentando o difícil dilema de escolher entre ficar em quarentena com seus empregadores para ganhar dinheiro ou ficar em casa para cuidar de suas famílias, sendo demitidas com acesso zero a benefícios de desemprego.

Cerca de 95% das crianças na região não estão na escola devido à emergência de saúde pública — com os pesquisadores dizendo que o aumento das responsabilidades de cuidado não remunerado afeta as mulheres de maneira desproporcional, pois as normas culturais patriarcais consideram o cuidado das crianças seu domínio.

Um importante relatório do Institute for Fiscal Studies (IFS) descobriu que o caos da Covid-19 piorou as desigualdades de gênero existentes na saúde mental, com o bem-estar das mulheres desproporcionalmente afetado pela pandemia.

Os pesquisadores descobriram que as mulheres jovens estão se saindo pior, enquanto os homens mais velhos são os menos afetados — com a saúde mental geral das mulheres entre 16 e 24 anos estando 11% pior do que antes da crise de saúde pública.

A saúde mental da população geral está sendo impactada pelo surto de Covid-19, com mais 7,2 milhões sofrendo com algum problema de saúde mental “muito mais do que o normal”. A extensão do declínio da saúde mental durante a pandemia é de uma “magnitude diferente de tudo” que a sociedade testemunhou nos últimos anos, alertaram os pesquisadores, e o impacto para as mulheres é ainda maior.

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