O que está em jogo para as famílias LGBT+ nas eleições americanas

Em artigo, colunista do New York Times afirma temer que um segundo mandato de Donald Trump traga ainda mais retrocesso e uma revisão de direitos já adquiridos
Jennifer Finney Boylan, do New York Times

Talvez algumas pessoas pensem que a igualdade LGBT+ é fato consumado. Talvez sejam pais e mães brancos heterossexuais que moram nos subúrbios e imaginam seus filhos homossexuais seguros agora que a guerra cultural que os ameaçava é coisa do passado Foto: NYT

Foi o pior momento; o pior momento. Sou otimista de nascença, mas houve períodos este ano em que tentar ver o lado bom pareceu mais um ato de sandice. Todo dia eu sentia um peso no peito.

Até que, em uma manhã de agosto, saí andando pela nossa estradinha de terra com a cachorra; a névoa subia do Long Pond. Quando chegamos em casa, encontrei uma pedrinha entre as bocas-de-leão e as raízes-de-cascalho do jardim. Alguém a pintara com as cores do arco-íris e escrevera em uma das faces: “Você é importante.”

Ela acabou sendo a primeira de uma série de pedras pintadas que um anônimo, ou vários, vem deixando no meu bairro. Algumas mensagens são genéricas, tipo “Maine: a vida como ela deveria ser”, mas outras parecem mais específicas aos destinatários. Na frente da casa de uma vizinha que tem vários filhos, a pedra vermelha dizia: “Criança é tudo de bom”; no jardim do vizinho que acabara de se mudar para nossa comunidade minúscula: “Bem-vindo ao lago”; na casa do casal que tem um labrador preto meio desengonçado: “Seu cachorro é fofo.”

A impressão era de que um anjo da guarda surgira entre nós, encarregado de nos dar esperança num momento em que muitos nunca se sentiram tão mal.

Para mim, um lembrete de que minha família, grande e gay, é importante no momento atual, foi mais que uma simples gentileza; foi um recado dos deuses. Afinal, o recado de Donald Trump nos últimos quatro anos tem sido justamente o contrário; para ele, não valemos nada. Deixou bem claro em muitas as ocasiões que acha que seria melhor se sumíssemos.

A coisa vem da primeira semana de seu governo, quando a menção aos direitos LGBT+ desapareceu do site da Casa Branca.

E isso foi só o começo: depois, ele nos tirou do censo 2020 e proibiu pessoas trans nas Forças Armadas. No aniversário do massacre da casa noturna Pulse, anunciou que revogaria as proteções de assistência médica para pessoas trans, criadas por Obama. Proibiu as embaixadas de hastear a bandeira do arco-íris. Em três de seus quatro anos, em junho, não mencionou o Mês do Orgulho – embora uma vez tenha tirado um tempinho de sua agenda corrida para falar do Mês Nacional da Casa Própria.

Seu Departamento de Justiça apresentou uma proposta à Suprema Corte para endossar o direito do empregador de demitir pessoas LGBT+ simplesmente por serem quem são. No fim das contas, até o órgão, de maioria conservadora, julgou a iniciativa improcedente. Mas a ideia de o presidente dos EUA se dar ao trabalho de colocar a mim, e as pessoas como eu, em risco, é assustadora.

Na convenção de agosto, o Partido Republicano de Trump endossou novamente a plataforma de 2016. Vocês sabem, aquela que santifica o “casamento tradicional” e condena a decisão da justiça a favor da igualdade matrimonial. Citando o juiz Antonin Scalia, que votou contra a decisão, descreve o casamento semelhante ao meu como uma “extravagância boba”.

Na semana passada, baseando-se na Primeira Emenda, o governo federal apresentou uma proposta à justiça de Indiana defendendo o colégio católico que demitir o professor gay que se casar – sim, claro, porque perseguir pessoas LGBT+ é uma forma de liberdade de expressão. Assim, tipo cobertura de bolo.

Ainda na semana passada, o presidente divulgou uma lista de indicados à Suprema Corte para seu segundo mandato, todos anti-LGBT+ e anti-direitos civis. O próprio diretor jurídico da Lambda Legal, organização que luta contra os direitos legais da nossa comunidade, descreveu a relação como “assustadora”. Uma das apontadas, Allison Jones Rushing, tem ligação com um grupo chamado Alliance Defending Freedom, que defende a ideia de criminalização da homossexualidade. O Southern Poverty Law Center se refere a ele como grupo de ódio.

Pois assim tem sido o verão. Pandemia. Incêndios apocalípticos no Oeste. Colapso econômico. Convulsão nacional contra o racismo sistêmico. E quase toda semana uma nova mensagem do homem mais poderoso do mundo para dizer que minha família – que inclui um casal de pessoas do mesmo sexo e uma jovem trans – é “menos”. Menos o quê? Menos que igual.

Vocês ficariam chocados ao saber, então, que o presidente se gaba de ser o chefe do Executivo que mais apoia os LGBT+ da história? Em um vídeo feito em agosto, Richard Grenell – um gay que foi embaixador na Alemanha e assumiu a direção interina da agência de inteligência nacional por um curto período – diz que “o presidente Trump fez mais em três anos para garantir os direitos de gays e lésbicas do que Joe Biden em mais de 40 anos em Washington”.

Ao assistir a esse vídeo, a única coisa que me veio à mente foi o bordão da Sylvia, protagonista da antiga tirinha: “Essa mulher deve estar usando drogas.”

Não é que eu não aprove a indicação de uma pessoa abertamente gay para um cargo no alto escalão do governo; sem dúvida, é sinal de progresso, mas a ideia de que isso pesa mais que o ataque incessante às famílias LGBT+ é simplesmente absurdo. A Log Cabin Republicans, organização cujos membros são LGBT+, defende o presidente dizendo que a redução fiscal que ele promoveu “beneficia as famílias LGBT+, ajudando a colocar comida na mesa delas”. E também se mostra entusiasmada com as “zonas de oportunidade” – áreas nas quais o investidor se depara com uma taxa fiscal menor – e a “linha dura da política exterior”.

Escutem aqui, Log Cabin Republicans, fico feliz com o fato de vocês estarem satisfeitos com os cortes de impostos, mas devo admitir que, sob vários aspectos, a ideia de meu casamento ser considerado uma “extravagância boba” e dar ao empregador o direito de me demitir por eu ser o que sou diminui um pouquinho meu entusiasmo.

Talvez algumas pessoas pensem que a igualdade LGBT+ é fato consumado. Talvez sejam pais e mães brancos heterossexuais que moram nos subúrbios, e imaginam seus filhos homossexuais seguros agora que a guerra cultural que os ameaçava é coisa do passado.

Pois eles estão enganados.

A boa notícia é que os LGBT+ podem fazer diferença nas próximas eleições, se formos votar. E esse “se” é uma condição crítica, pois se calcula que 20 por cento dos homossexuais adultos não têm registro eleitoral. Como me disse Sarah Kate Ellis, presidente da Glaad, em entrevista recente: “É essencial levarmos nossa voz da rua para as urnas.” Para famílias como a minha, a luta está longe de acabar – e, se não agirmos, é quase certo de que ainda pode ser perdida.

Na semana passada, saí de manhã cedinho para sentir o primeiro vento frio do outono soprando sobre o lago. As folhas dos bordos tinham começado a avermelhar. O inverno vem aí.

Olhei no jardim. A pedra pintada com o arco-íris tinha desaparecido tão rápido como apareceu.

Jennifer Finney Boylan é professora de Inglês no Barnard College e escreve para a coluna de Opinião do “The New York Times”. Seu livro mais recente é “Good Boy: My Life in Seven Dogs”, sem tradução no Brasil

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