Trevor Paglen examina a história da fotografia e sua relação com a vigilância estatal

Mostra de Paglen faz das tecnologias contemporâneas seu conceito central, mas grande parte das obras olham para o passado
Sophie Haigney, The New York Times – Life/Style

O artista americano Trevor Paglen em Berkeley, Califórnia. Foto: Aubrey Trinnaman/The New York Times

Em uma pequena galeria no Carnegie Museum of Art, em Pittsburgh, há um cubo de acrílico repleto de peças de computador. A caixa tem cerca de 40 cm de lado, uma reminiscência da caixa de Donald Judd, atualizada para a era digital. É também um hotspot de Wi-Fi aberto com a qual é possível conectar o celular.

Mas antes que o seu telefone se conecte com a internet, ele determina o tráfego por meio da rede do Projeto Tor, que torna o seu celular anônimo, assim como localização e atividade. Quando se conectar, você poderá andar pelo museu sem que seja possível localizá-lo. Esta escultura, intitulada Autonomy Cube, é o tipo de objeto pelo qual Trevor Paglen, de 45 anos, se tornou conhecido, como um dos principais artistas que chamam a atenção para o poder e a ubiquidade da tecnologia de vigilância.

“Ele faz parte de uma série à qual eu me refiro como objetos impossíveis”, diz ao se referir à sua mais recente obra em uma entrevista por telefone. Ele lançou também uma escultura de um satéliteno espaço que descreveu como “um espelho gigantesco no céu, sem valor comercial ou científico, unicamente de valor estético”.

Ele enviou também uma cápsula do tempo com 100 imagens de toda a história humana, em uma órbita perpétua, micro-esculpida em um disco em uma concha folheada a ouro. Estes objetos devem ser considerados “impossíveis” porque não há nenhum incentivo à sua criação em um mundo em que o desenvolvimento tecnológicofoi comercializado, em que a vigilância já se tornou comum e onde o espaço continua em grande parte militarizado.

Sua produção seria, então, um ato de otimismo? “Eu não usaria a palavra ‘otimismo’, mas o que você quer dizer com aquela palavra está ali”, disse Paglen. “São muito contraditórias entre si e contraditórias em relação aos sistemas em que se encontram”. O Autonomy Cube está instalado no Carnegie Museum em uma mostra da obra de Paglen intitulada Opposing Geometries.

Organizada como parte da Hillman Phtography Iniciative 2020, uma incubadora de pensamento inovador sobre fotografia, a mostra poderá ser visitada até março. Como quase toda a obra de Paglen, a mostra faz das tecnologias contemporâneas o seu conceito central, mas grande parte das obras aqui olham para o passado, também.

A exposição, sobre fotografias, demonstra principalmente que embora hoje “vigilância”, “visão computadorizada” e “aprendizado das máquinas” tenham se tornado termos da moda, eles têm uma longa história interligada à fotografia. A mostra inclui imagens da série They Took the Faces From the Accused and the Dead… que reúne milhares de fotos de um banco de dados do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, um arquivo de retratos falados que foi usado para testar os primeiros programas de software de reconhecimento facial sem o consentimento dos envolvidos.

Nas versões de Paglen, partes dos rostos dos envolvidos são bloqueadas, deixando estranhos buracos quadrados que constituem ao mesmo tempo uma referência das suas identidades roubadas e também um meio de devolvê-las ao anonimato. “A mostra olha formas históricas de fotografiae a relação entre essas formas de fotografia e diferentes tipos do poder da polícia ou do poder do Estado”, disse Paglen. “O que é essa relação entre a fotografia e o poder?”.

Autonomy Cube já passou por diversos museus no mundo e agora pode ser visto em Pittsburgh, nos EUA. Foto: Twitter @trevorpaglen

A multiplicidade de significados na obra de Paglen faz parte do seu apelo a tecnólogos e pensadores. “Há muita retórica a respeito de como a Inteligência Artificial (IA)mudará o mundo, e as pessoas não se dão conta de quanto a tecnologia já mudou o mundo, e depois delas perceberem isto, muitas vezes reagem com pavor ou se sentem impotentes”, disse David Danks, professor de filosofia da Carnegie Mellon University, cuja obra versa sobre ética tecnologia e que faz parte da equipe de criação da Hillman Photography Iniciative. 

“Acho que um aspecto realmente importante da obra de Trevor é o fato de que ela não só implica uma reação, não só educa. Acho que Trevor é muito bom em dar indiretamente indicações às pessoas sobre como elas podem tornar-se autônomas.” Muitas das obras nesta exposição são extensões do constante interesse de Paglen nas relações entre fotografia e inteligência artificial, como a sua ImageNet Roulette, um projeto de arte digital e aplicativo que viralizou no fim do ano passado e permitia aos usuários carregarem seus rostos para ver como a IA poderia rotulá-los.

Frequentemente, os resultados foram racistas, sexistas ou mesmo estereotipados – um choque para os usuários, que solicitaram à ImageNet, um grande banco de dados de imagens, a retirada de meio milhão de imagens. No entanto, em Opposing Geometries, Paglen – que é PhD em geografia e tem mestrado em Belas Artes – medita sobre a história das imagens e sobre o futuro. “Se olharmos para estas histórias de produção tecnológica da imagem, elas são sempre, se não parte de um projeto militar, pelo menos adjacentes a um projeto e alimentadas por ele, por isso, de certo modo, temos estas histórias muito contíguas”, afirmou.

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This is another piece that was supposed to open at @altmansiegel a few weeks ago. This is from a body of work that looks at 19th Century photography in the western US in relation to contemporary forms of computer vision and AI. Trying to think through some of the histories of image-making, technology, extraction, and colonialism that create a thread from contemporary Silicon Valley to 19th Century survey photography. The place is a weird ridge in Nevada that was photographed by Timothy O’Sullivan on the Wheeler “reconnaissance” survey of the west in 1867 – O’Sullivan’s image is one of my all-time favorite photographs ever made. It took me years to find this place – rummaging around the desert over many summers. One time I thought I’d found it. Problem was that it got dark and there was no trail and I only knew that my truck was about 2 miles north of me parked on a dirt road that was perpendicular to the direction I’d hiked. I had to follow the north star (good thing I had to learn how to read the sky from photographing satellites). I have to admit I never actually found the site. I was talking to Bill Fox one day and mentioned my ongoing quest, and he told me he’d been there with Mark Klett. Bill put me in touch with Mark, who very generously gave me the GPS coordinates – Mark had found the site as part of his “Third View” project with Byron Wolf. The image is made with an 8×10 camera, whose film has been scanned and run through the computer vision software that we built in my studio and then printed as a traditional gelatin silver print. Karnak, Montezuma Range Haar; Hough Transform; Hough Circles; Watershed, 2018 Silver gelatin print Triptych, each element: 80 × 39.9 in. (203.20 × 101.35 cm) 81 ½ × 121 in. (207.01 × 307.34 cm) (framed)

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Entre estas histórias entrelaçadas, estão a da fotografia e da colonização do Oeste americano. Enquanto imagens indeléveis de lugares como as do parque Yosemite, tiradas nos anos 1860, há muito tempo fazem parte do tecido dos mitos americanos. Paglen está interessado nelas enquanto primitivas afirmações de controle militar.

O Departamento da Guerra (atualmente conhecido como Departamento de Defesa) financiou inúmeras missões de reconhecimento no Oeste, realizadas nos anos 1860 e 1870, e enviou fotógrafoscomo testemunhas da conquista do novo território. Entretanto, estas fotos sublimes, disse Paglen, eram como “o olhar do Estado sobre um novo território”, tema que ele explora em sua exposição no Carnegie Museum.

Algumas das fotos de Paglen parecem se estranhamente com as primeiras fotografias de Carleton Watkins do parque Yosemite e na realidade foram criadas usando um processo de impressão histórico chamado ‘albumen’. Mas ele também passou as fotografias por algoritmos de visão computacional, que têm dificuldade para identificar os objetos no seu ambiente natural, gerando linhas e formas na superfície das imagens.

As fotosque resultam do processo são ao mesmo tempo hiper-modernas e antigas, ligando passado e presente pela tecnologia. “Há mais imagens hoje feitas por máquinas para máquinas para serem interpretadas do que todas as imagens que existiram para a humanidade”, disse Dan Leers, o curador de Opposing Geometries. “Mas em lugar de levantar as mãos, Trevor faz o caminho inverso da história da fotografia e, em alguns casos, volta a usar especificamente as imagens existentes, e, em outros, admitindo processos históricos na produção destas imagens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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