Mafalda feminista: livro com tirinhas de Quino sobre o tema sai no Brasil em dezembro

Publicado na Argentina em 2018, ‘Mafalda: feminino singular’ será lançado no país pela editora WMF Martins Fontes
Ruan de Sousa Gabriel

Tirinha estrelada por Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino Foto: Quino / Reprodução

SÃO PAULO — Nos últimos anos, Mafalda, a menina sabichona e progressista criada pelo cartunista Quino, morto nesta quarta-feira (30), passou a ser vista com um lenço verde na cabeça em manifestações em defesa do direito ao aborto na Argentina. O próprio Quino autorizou a convocação de sua personagem. Não é de hoje que Mafalda flerta com pautas feministas. A menina nunca se conformou que a mãe desperdiçasse a vida cuidando da casa. Em 2018, o selo argentino Ediciones de la Flor publicou “Mafalda: feminino singular”, reunião de tirinhas nas quais a personagem questiona os espaços ocupados e os papéis desempenhados pela mulher no mundo. A edição Brasileira, preparada pela WMF Martins Fontes, chega às livrarias em dezembro.

— As tiras reunidas no livro tratam de temas que estamos discutindo ainda hoje em relação ao feminismo e também à criação das meninas — disse ao GLOBO Luciana Veit, editora da WMF Martins Fontes. — Por que ao se elogiar uma menina se fala primeiro da beleza e não da inteligência? Você vê a Mafalda irritadíssima com isso, querendo tratar da paz mundial ou ser a presidenta nas brincadeiras com os meninos. E o trabalho doméstico, a discussão que voltou com essa pandemia, está lá, nas tiras, personificado na mãe da Mafalda.

“Até parece que a Mafalda não falaria das mulheres!”, escreve escritora Patricia Kolesnicov no prefácio à edição argentina, que será reproduzido na versão brasileira. “Como passaria despercebido que ela não pode ser presidenta (e o Manolito, sim, pode); que sua mãe não tem vida própria – o famoso ‘o que você queria ser se estivesse viva?’ – porque casa e trabalho são a mesma coisa; que o futuro que ela vê, olhando no fundo de bobes de cabelo, começa com o amor romântico e termina na cozinha? Como ela não perceberia isso, se ela é uma garota dos anos 60 e, à sua volta, estão os Beatles e o Vietnã e, de repente, a ‘tendência’ é a metralhadora?”

Mafalda, a personagem contestadora criada pelo argentino Quino Foto: Quino / Reprodução

Patricia aponta que Quino não se furtava a apontar o machismo de seus personagens, como Miguelito, que berra com Mafalda (“Você é igual a todas as outras!”) quando descobre que ela tem outros amigos, Felipe, que diz não gostar de “discutir mecânica com mulheres”, e até Susanita, que sonha com um príncipe encantado. “Atento a momentos de mudança social, Quino tem a inteligência de ver o lugar das mulheres, o dos homens, o da família. Como todos os grandes, prediz não por ser vidente, mas porque lê com precisão o mundo que o rodeia. E agora, o futuro chegou.”

No prefácio escrito especialmente para a edição brasileira, a escritora Maria Clara Carneiro descreve Mafalda como uma “feminista em formação tenta emancipar seu corpo dos papéis atribuídos a seu gênero” e afirma que “essa menininha ainda tem revoluções importantes a nos incitar, e nos formar”.

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