Róisín Murphy, rainha da disco music, reina na sua própria galáxia e lança novo álbum ‘Róisín Machine’

Em um ano cheio de lançamentos dance-pop, ela volta para dar uma chacoalhada no cenário musical
Elisabeth Vincentelli, The New York Times – Life/Style

‘Róisín Machine’ é o quinto álbum solo da artista. Foto: Reprodução roisinmurphyofficial.com

A cada poucos anos, uma onda disco invade o mainstream: Confessions on a Dance Floor, álbum de Madonna. Mamma Mia!, filme baseado no Abba. Get Lucky, música do Daft Punk. Mas, em 2020, a disco music não é um caso isolado: ela tem saturado quase todos os cantos do universo pop. Dua Lipa e Lady Gaga lançaram álbuns cheios de hinos purpurinados, e Say So, de Doja Cat, alcançou o primeiro lugar no Hot 100. Em novembro, Kylie Minogue vai lançar um LP chamado, sim, simplesmente: Disco.

É um momento privilegiado para a supernova da dance-music irlandesa Róisín Murphy, uma inovadora que há duas décadas vem dando um toque contemporâneo ao som. Nessa sexta-feira, 2, ela lançou seu quinto álbum solo, Róisín Machine, no qual batidas house pulsantes e arranjos de cordas elegantes são intensificados por sua teatralidade atrevida.

“Não queria ser tão simplista quanto uma rainha da disco, porque essa música saiu da disco, do proto-house e do gótico, do Throbbing Gristle, do Cabaret Voltaire e da Donna Summer”, disse a cantora irlandesa sobre seu novo álbum. “Não é só Black music, não é só música alternativa, não é só dance music – são todas essas coisas conflitantes e lindamente fundidas e virando uma coisa que tem a ver com individualismo e liberdade. É disso que precisamos”.

É o tipo de declaração que poderia soar arrogante ou presunçosa vindo da boca de uma estrela pop em formação. Mas, vinda de Murphy, uma espécie de Tilda Swinton cantante que tem uma indicação ao Mercury Prize e um amor genuíno e duradouro pela vida na balada, é uma declaração honesta e apaixonada.

“Ela não tem medo de ser única”, escreveu por e-mail Jessie Ware, fã de longa data que recebeu Murphy em seu famoso podcast Table Manners e lançou seu próprio álbum de disco-heavy. “Acho que ela nunca nem tentou se enquadrar em nada”.

Essa última característica pode ter impedido Murphy, 47 anos, de se tornar uma celebridade global, especialmente nos Estados Unidos. Ela é muito exigente para a euforia e as grandes produções mecânicas da música eletrônica mainstream, muito artesanal para as coreografias ensebadas, as fábricas de composições e os movimentos de carreira cuidadosamente calibrados do complexo industrial do pop.

“Acho que por enquanto não me encaixo no mundo das estrelas pop”, disse ela. “Talvez se eu pudesse ser mais Roxy Music ou David Bowie, aí sim. Mas hoje em dia você tem que se vender para ser uma estrela pop, e não consigo me forçar a fazer isso”. Ela fez uma pausa e acrescentou: “Queria que meu catálogo fosse mais de estrela pop, no fim das contas” (Ela elogiou Billie Eilish, dizendo que é a compositora de hits mais interessante que surgiu nos últimos quinze anos: “Ela apareceu do nada e espero que não nos deixe na mão”).

Hibridizando a precisão da última moda com a espontaneidade inebriante da pista de dança, ela lançou as bases para a chegada de Lady Gaga um ano antes de The Fame.

“Venho da cultura das baladas”, disse Murphy, “mas também cheguei nisso. Sou boa de conceitos”.

Seus shows ao vivo se transformaram em puro delírio. Num show em Nova York, ela usou uma capa houndstooth em forma de cervo feita pelo estilista independente Christophe Coppens e terminou o show na pista, com suas backing vocal, entrando nas brigas de brincadeira em meio ao caos do punk. Quatro anos atrás, no festival de Glastonbury, ela começou a música ‘Overpowered’ com uma jaqueta neon e óculos escuros brutalistas, antes de botar um capacete que parecia um donut de mirtilo. O arranjo musical envolvia um banjo e gorgolejos de sintetizador.

“Ela é seu próprio planeta, tem sua própria linguagem”, escreveram os designers holandeses Viktor & Rolf por e-mail. “Para nós, este é o verdadeiro mistério, um glamour sombrio que não conseguimos entender, mas que nos atrai muito. Hoje em dia é muito raro encontrar essa sensação de mistério”. Os designers mencionaram a performance de Murphy num show de 2010 em Paris, “grávida e cantando ao vivo num pedestal alto. Ela estava ardente”.

A conexão que Murphy constrói entre música e moda é tão forte quanto o vínculo que ela estabelece com o público. Damian Harris, um dos fundadores da Skint, sua atual gravadora, foi às lágrimas num show em Londres no mês de março.

“Vê-la dominando todo o lugar foi simplesmente impressionante”, disse ele pelo Zoom. “É meio assim: ‘estamos todos juntos, venha comigo nessa jornada, vai ser uma explosão, pode acreditar’. Quem não a seguiria?”

O principal co-conspirador de Murphy em Róisín Machine é o produtor DJ Parrot, também conhecido como Crooked Man (nome de nascimento Richard Barratt), que ela conhece desde a adolescência. Eles fizeram a faixa mais antiga do álbum, ‘Simulation’, em 2012, e muitas outras vieram nos últimos meses. No entanto, o registro parece uma peça ao mesmo tempo moderna e atemporal.

“A única coisa de Róisín que realmente nos conecta musicalmente é a compreensão de que uma linha de baixo e algumas batidas podem ter tanto efeito emocional quanto uma orquestra sinfônica, da mesma forma que uma cantora não precisa chorar para você saber que ela está triste”, disse DJ Parrot por e-mail.

Murphy – que, só para constar, de fato brilha na frente de uma grande orquestra – começou a pensar em seu próximo capítulo, indo para trás das câmeras para fazer seus próprios vídeos e os de outras bandas, entre eles um particularmente tumultuado para o grupo de punk britânico Fat White Family, Tastes Good With the Money.

“Eu queria sair do jogo da música quando tivesse 50 anos, para me dedicar ao cinema”, disse ela. O que ela realmente quer fazer é falar sobre sua infância – “o que eu vi e o ângulo de onde vi”, ela explicou e logo em seguida começou a dizer que está cercada de pessoas que tiveram a coragem “de criar a si mesmas, de criar uma nova vida, assumir todas essas coisas, não abrir mão do que é antigo, mas assumir o que é novo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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