Desejo de mudança: como a indústria da moda está se reinventando em plena crise

O ativismo do jovem consumidor e a expansão das mídias sociais colocam o conservadorismo da moda contra a parede, mas as barreiras que impedem a inclusão são sistêmicas e estruturais. A mudança precisa vir de dentro
MARIA RITA ALONSO

Modelo no desfile de Rick Owens (Foto: Divulgação)

Da homogeneidade racial nas passarelas e dos flagrantes de apropriação cultural ao movimento ligado ao antirracismo, à diversidade e à inclusão. Há uma mudança em curso na moda hoje, embora feita de maneira lenta e gradual. Nos últimos cinco anos, a moda abraçou discursos em prol da diversidade e da quebra de padrões de corpo, gênero, idade e beleza de maneira ampla e inédita, abrindo espaço para modelos idosos, transexuais, gordos e portadores de deficiências. Nas campanhas e editoriais de moda, o pluralismo de etnias e tipos físicos deixa claro que a era das modelos muito brancas e muito magras já acabou. Belezas inatingíveis não criam identificação e não ecoam nas redes sociais. Por isso mesmo, perderam encanto.

O movimento que vinha ganhando manifestações pontuais em desfiles como os de Rick Owens e Vêtements, em Paris, e de Ronaldo Fraga e Fernanda Yamamoto no Brasil, dá novos passos para ajustar sua forma de operar e incorporar a inclusão além do discurso falso e vazio. O estilista francês Simon Porte Jacquemus, por exemplo, brilhou ao fotografar sua avó Liline em campos de lavanda em Provence, no sul da França, durante a pandemia. As fotos são de uma espontaneidade e uma afetividade tão palpáveis que, apesar de parecer algo improvável para uma marca de luxo, naturalmente, viraram sucesso imediato nas redes sociais. Conclusão: audiência tocada, interatividade total, chuva de likes e corações no Instagram.

Coluna Maria Rita - desfile da pyer moss, marca norte-americana cujo pilar principal são a  representatividade e a construção de narrativas negras (Foto: Getty Images)
Desfile da Pyer Moss, marca norte-americana cujo pilar principal são a representatividade e a construção de narrativas negras (Foto: Getty Images)
Coluna Maria Rita - Kerby-Jean Raymond, estilista da Pyer Moss (Foto: Divulgação)
Kerby-Jean Raymond, estilista da Pyer Moss (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita -à frente da moncler e valentino, pierpaolo piccioli convocou castings de maioria negra para apresentações recentes (Foto: Divulgação)
À frente da Moncler e Valentino, Pierpaolo Piccioli convocou castings de maioria negra para apresentações recentes (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita - desfile de  verão 2021 da jacquemus (Foto: Getty Images)
Desfile de verão 2021 da Jacquemus (Foto: Getty Images)

 Pierpaolo Piccioli, diretor criativo da Valentino, convocou para apresentar a coleção de alta-costura um casting de 48 modelos negras retintas, em um desfile maravilhoso e solene, que foi uma declaração antirracista. “Ter uma marca de Roma representada pela beleza negra vai contra toda a xenofobia que há na Itália”, disse o estilista. Lembrando que, em 2015, a marca foi duramente criticada por apropriação cultural ao fazer um desfile sobre a África contando com apenas oito negras em um total de 87 modelos. Ou seja, muita coisa mudou de lá pra cá.

Dados compilados pelo The Fashion Spot mostram que a proporção de campanhas publicitárias com modelos de ascendência africana, árabe e oriental aumentou de 15% na primavera de 2015 para 35% na de 2019, só nos Estados Unidos. As passarelas de Londres, Nova York, Paris, Milão e São Paulo passam por uma mudança semelhante.

Coluna Maria Rita - à frente da moncler e valentino, pierpaolo piccioli convocou castings de maioria negra para apresentações recentes (Foto: Divulgação)
À frente da Moncler e Valentino, Pierpaolo Piccioli convocou castings de maioria negra para apresentações recentes (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita - apresentação da oscar de la renta (Foto: Divulgação)
Apresentação da Oscar de La Renta (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita - desfile da pyer moss, marca norte-americana cujo pilar principal são a  representatividade e a construção de narrativas negras (Foto: Divulgação)
Desfile da Pyer Moss, marca norte-americana cujo pilar principal são a representatividade e a construção de narrativas negras (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita - Liline, avó de Simon porte jacquemus, posou para a campanha do neto (Foto: Divulgação)
Liline, avó de Simon Porte Jacquemus, posou para a campanha do neto (Foto: Divulgação)
Coluna Maria Rita - Jane Fonda estrela a primeira coleção sustentável da Gucci (Foto: Divulgação)
Jane Fonda estrela a primeira coleção sustentável da Gucci (Foto: Divulgação)

Após anos de complacência, a indústria da moda começa a sentir a pressão da nova geração de consumidores que busca identificação de estilo de vida e propósitos com tudo o que consome. A tempestade perfeita para as mudanças armou-se durante as manifestações antirracistas nos Estados Unidos, quando ficou claro que o ativismo do jovem consumidor e a expansão das mídias sociais colocam o conservadorismo da moda contra a parede.

Isso me faz lembrar uma conversa que tive há uns anos com Emicida. Ele me disse que tinha o pé atrás com a questão de as grandes marcas de moda apostarem na diversidade, destacando em suas coleções elementos da cultura negra, pelo fato de que elas, muitas vezes, se apropriam de determinado signo, mas excluem determinado grupo. A questão girava em torno do hip hop.

Essa dinâmica resume o momento da moda contemporânea, que vive entre a boa e a má-fé, a vontade real de transformação e de inclusão e os interesses comerciais que tratam de questões culturais e sociais sérias e urgentes como oportunidade de marketing.

Coluna Maria Rita - desfile de  verão 2021 da jacquemus (Foto: Getty Images)
Desfile de verão 2021 da Jacquemus (Foto: Getty Images)
Coluna Maria Rita - Campanha da marca norte-americana tibi  (Foto: Getty Images)
Campanha da marca norte-americana Tibi (Foto: Getty Images)
Coluna Maria Rita - campanha de beleza da Gucci (Foto: Divulgação)
Campanha de beleza da Gucci (Foto: Divulgação)

Antigamente, um pequeno grupo de grandes marcas funcionava como imperadores que determinavam padrões, valorizando a hegemonia branca e ditando as regras do vestir. A informação também era dominada por poucos grupos de comunicação, a TV não tinha nem dez canais e a diversidade de produtos nas vitrines era restrita.

Há menos de dez anos, também quase não havia modelos negras ou indígenas no Brasil. Um absurdo! A discussão na SPFW girava em torno de uma ação do Ministério Público Estadual que previa 10% de modelos negras, afrodescendentes ou indígenas nas passarelas. Na época, muitos estilistas chiaram. Mas aquilo era uma semente de mudança. Sem dúvida, o sistema de cotas no Brasil foi e é altamente benéfico.

Agora, a pressão enfrentada pelas empresas de moda para operar de forma mais inclusiva traz um novo paradigma: as barreiras que impedem a inclusão são sistêmicas e estruturais. Por isso a transformação só ocorrerá se for esquematizada; tem que vir de dentro, com a inclusão da diversidade nos times criativos e também na coordenação de empresas, marcas, revistas etc. O império da moda perdeu a força e tem que se transformar. As minorias não querem mais ser invisibilizadas, mas sim ser representadas, empoderadas, festejadas, valorizadas. Esse é o momento vivido na sociedade.

Em um cenário disruptivo como o atual, em que a tecnologia transforma radicalmente as grandes indústrias, é inútil pensar que antigas regras darão conta de responder a novos anseios. E a moda é sobretudo um ensaio para saciar desejos humanos. Para existir, ela precisa gerar e atender desejos.

Maria Rita Alonso é jornalista e consultora de moda. Para ela, falar de moda é falar de como as pessoas vivem, se posicionam, se reúnem e se expressam.

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