Closet do futuro: como a moda circular e colaborativa deve engolir o mercado

Acelerado pela pandemia, o recommerce de moda, principalmente de luxo, cresce e traz novas formas de comprar e de se relacionar com as roupas. O armário passa a ser visto como um acervo inteligente, com valor de revenda e, acima de tudo, sustentável. Marie Claire investiga como a moda circular e colaborativa deve passar de mercado paralelo para parte do motor central da indústria

Closet do futuro (Foto: Colagem: Mariana Simonetti)
Closet do futuro (Foto: Colagem: Mariana Simonetti)

Em 2018, mais de US$ 37 milhões em roupas e cosméticos da Burberry viraram fumaça. Literalmente. Incinerar o excedente para evitar que a marca perca seu valor, sendo vendida a preços mais baixos em liquidações e mercados paralelos, é, ainda, uma prática relativamente comum no luxo. É também um paradoxo: para manter a presença em pontos de venda e acelerar a expansão, é necessário produzir mais, mesmo que a mercadoria vá para a fogueira. Naquele ano, a ira do público fez com que a Burberry anunciasse prontamente o fim da incineração de excedentes e uma revisão de seus processos que incluiu um experimento que se tornou emblemático: numa parceria com o The RealReal, uma das maiores plataformas de consignação de artigos de luxo do mundo, os clientes que revendessem um produto da marca no site ganhariam um desconto para adquirir um novo.

Mesmo que tangente, a entrada da Burberry na economia circular não representa apenas o luxo tentando se adequar às exigências dos novos tempos. É uma questão de sobrevivência. Segundo uma pesquisa realizada pela ThredUp, maior plataforma de venda de roupas de segunda mão do mundo, e pela GlobalData, em 2019, o mercado de revenda cresceu 25 vezes mais rápido que o varejo tradicional e movimentou mais de US$ 28 bilhões. Em 2028, a expectativa é de US$ 64 bilhões.

O que antes eram os brechós de luxo online – uma cria da recessão de 2008 e do avanço das redes sociais que gerava renda extra de um lado e bons negócios de outro –, hoje são marketplaces prontos para engolir o varejo: a StockX, plataforma especializada em resale de tênis e streetwear, em 2019, alcançou o status de “unicórnio” (termo usado para descrever uma startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão). No mesmo ano, o TheRealReal abriu seu capital. Se na pré-pandemia a expectativa era de que o mercado de revenda de moda dobrasse em pouco tempo, agora esse crescimento pode acelerar ainda mais, justamente no mesmo cenário em que floresceu: na crise. Com as pessoas passando mais tempo em casa e querendo gerar novas fontes de renda, o guarda-roupa se torna uma fonte de possibilidades. “Todas as previsões já anunciavam o fim do excesso e o crescimento do mercado de segunda mão. A pandemia massificou, em dois meses, tendências para daqui dois anos”, explica Julia Faria, head de novos negócios do bureau de tendências WGSN.

Além da crise econômica, o mercado surfa, claro, na onda da economia circular, bandeira das novas gerações. “Diferentemente dos millennials, a geração Z, que está entrando no mercado de trabalho agora, viu os pais perderem os empregos e os efeitos da recessão de 2008. Neles, as questões do custo-benefício e da inteligência de compra são muito mais apuradas, além de serem a geração que nasceu no digital e nas redes sociais”, detalha Julia. Não à toa, a plataforma preferida é o Depop, aplicativo peer-to-­peer com uma interface parecida com a do Instagram e do TikTok. “É uma turma que gosta de garimpar, customizar e está cansada da massificação do fast fashion. Nessa lógica, o vintage é único e serve ao propósito sustentável, valor que cobram intensamente do mercado”, completa. E as pressões não vêm apenas do público. “Investidores estão atentos ao movimento e esperam soluções sustentáveis da indústria têxtil, que ainda não produziu uma resposta massificada e efetiva para as diversas nuances do seu impacto ambiental. Ações como upcycling e participação na economia circular são saídas que tocam em uma deles: os resíduos pós-consumo”, explica o professor Heiko Spitzek, diretor do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral. 

O Brasil hoje se apresenta como um mercado em expansão e cheio de possibilidades. Há players de longa data no mercado como a Pretty New, plataforma de resale de produtos de luxo fundada em 2014. Em junho, a atriz e modelo Fiorella Mattheis lançou a Gringa, site de consignação de bolsas. Em agosto, o grupo Arezzo lançou um serviço dentro de seu novo e-commerce, o ZZ Mall, onde clientes podem vendar peças pre-owned de suas marcas (como Schutz e Alexandre Birman). No mesmo mês, o Shopping Cidade Jardim inaugurou dentro do CJFashion.com o Take Me Vintage, um sessão de produtos de luxo de segunda mão com curadoria de Ana Piva e Melissa Moraes, que começaram o negócio vendendo pelo Instagram. “A consumidora que ama moda reconhece o valor criativo agregado à peça, independentemente da data em que ela foi lançada. Não há atitude mais contemporânea do que misturar o vintage com o novo”, crava Bruno Astuto, CCO do Grupo JHSF, dono do shopping.

E o pulo do gato dos serviços de revenda não está apenas em fazer uma ponte entre compradores e revendedores e tirar uma porcentagem da transação, mas também em atrair as próprias marcas de moda com dados sobre consumidores que elas não estão atingindo, como comportamentos de compra, preferências, taxa de retorno, além de expertise em logística reversa e gestão de estoque para empresas que precisam dar vazão a coleções paradas. Essa dinâmica foi uma das apostas que Isabel Braga Teixeira fez em 2009, quando lançou o ClosetBoBags, site de aluguel e revenda de moda de luxo. Ela explica que o futuro do consumo estará na fusão das esferas física e online, com produtos de segunda mão e novos, de diferentes marcas e pessoas, com compra e aluguel, uma empreitada que, inclusive, deve lançar em breve. “Com a pandemia, muita gente entendeu a necessidade do online e reviu o custo de manter um espaço físico. O Bo Market é uma plataforma omnichannel de resale e aluguel em que pessoas e marcas poderão deixar seus closets, itens de decoração e coleções novas ou antigas para serem alugados ou vendidos. Para as marcas é interessante, pois podem testar itens antes de produzi-los em larga escala, proporcionando uma manufatura mais inteligente.”

E o boom do resale não muda apenas como consumimos, mas também nosso feed. “O mercado de influenciadores se transformará. Os revendedores passarão a ser os novos influencers. Vamos segui-los não só por desejo do que eles têm para vender, mas para saber quais marcas aquela pessoa consome e por quê”, explica Julia. Com isso, o post patrocinado também cai por terra. “Como esses novos influencers vão ocupar esse espaço organicamente, a tendência é de não perder a essência vendendo espaço como um outdoor”, completa.

Um dos desafios da moda circular, no entanto, segue sendo o de trazer mais pessoas para o hábito. “A mulher sempre foi valorizada mais pelo consumo repetido do que por sua inteligência de compra. Estamos entendendo, ainda aos poucos, que nosso guardaroupa é um asset valioso”, finaliza Isabel. [FERNANDA MOURA GUIMARÃES]

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