Lovecraft Country vai de Nós a Faça a Coisa Certa em episódio desconcertante

Pegada de horror slasher acelera as coisas neste começo de clímax da temporada
MARCELO HESSEL

De todos os eventos históricos citados em Lovecraft Country, e que frequentemente surgem com efeito paradidático para contextualizar o espectador, nenhum parece mais crucial do que o assassinato de Emmett Till. Em 1955, o negro de 14 anos foi preso em Money, Mississippi, acusado de ofender uma mulher branca, e terminou linchado e assassinado por dois policiais. Emmett saíra de Chicago e estava de viagem pelo Sul dos EUA; seu funeral foi testemunhado por milhares de pessoas na cidade natal e virou um dos estopins da batalha por direitos civis no país.

1955 é também o ano em que se passa a série, e desde o princípio o espectro do adolescente ronda Lovecraft Country, porque a viagem de Tic, Leti e George pelo “território racista” no episódio de estreia evoca silenciosamente o assassinato e poderia ter terminado da mesma maneira. Se a Guerra da Coreia parece ter um peso circunstancial sobre Tic, eventos como o homicídio de Emmett Till se acumulam para moldar a realidade dos personagens de forma mais definitiva.

Não por acaso, logo no começo deste oitavo episódio, Tic diz que o fato de sua jovem prima testemunhar o funeral é importante como um rito de passagem. Pois é justamente isso que “Jig-a-Bobo” faz com Diana “Dee” Freeman – a mulher escolhida da vez para ser a protagonista de seu próprio episódio – numa vertiginosa história de formação. O evento histórico não serve apenas de contexto e está intrinsecamente ligado à jornada de Dee, que era amiga de Emmett no universo ficcional da série e responde ao assassinato com a desorientação raivosa que se esperaria de uma adolescente que, agora, acumula três lutos na sequência depois da morte do pai e do desaparecimento da mãe.

Produtora principal da série, Misha Green assume pela primeira vez a cadeira de diretora, e conduz “Jig-a-Bobo” com a urgência que a circunstância pede, num exercício virtuose que casa a fotografia estilizada com escolhas arrojadas de trilha sonora, a começar com a entrada de “Cruel Summer”, uma canção de 1983 que logo de cara soa anacrônica em 1955. Hit do trio feminino inglês Bananarama, “Cruel Summer” fala das pressões sobre a adolescência no calor do verão e se popularizou na trilha de Karatê Kid em 1984. Em Lovecraft Country, a opressão do “verão cruel” ganha uma outra conotação, sem deixar de ser sobre as dores da juventude.

Se o caldeirão da tensão racial sob “o dia mais quente do ano” evoca o Spike Lee de Faça a Coisa Certa, o anacronismo da canção escolhida ajuda a traçar essa paralelo com os anos 1980 de modo mais imediato. Green mal deixa essa impressão assentar, porém, e já emenda outro salto no tempo, até 2019, em uma reminiscência de Nós, de Jordan Peele, quando associa Dee às pickaninnies de A Cabana do Pai Tomás, o romance de 1852 que sedimentou caricaturas raciais como essa das crianças negras mirradas porém joviais (que a palavra “pickaninny” seja uma variação de “pequenino” diz muito sobre a dominação portuguesa na história do tráfico de escravos africanos). A escrava Topsy do livro não vira exatamente uma doppelgänger de Dee no seriado (inclusive ela parece ser duplicada no episódio justamente para evitar essa interpretação de que é literalmente um duplo de Dee), mas é inevitável pensar em Nós, e em Peele, que afinal é um dos produtores de Lovecraft Country.

A impressão que fica, então, depois desses saltos vertiginosos que conectam 1852 a 1955 a 1983/89 a 2019, é que as questões de opressão da América negra se repetem ciclicamente como um pesadelo, do qual é impossível despertar. O formato de pesadelo slasher deste oitavo episódio reforça essa impressão: Dee não vai se livrar facilmente do feitiço de que foi alvo porque, afinal, é como se estivesse fadada a essa sina desde o nascimento. Sua vitória não é desfazer o feitiço mas sim se posicionar politicamente diante da proposta de negociar uma derrota. São um par de cenas muito fortes, uma fala catártica (“fuck you pig” também evoca 2019/2020), e pronto: com seu vestido de missa e seu boné de beisebol, Dee está no jeito para inspirar a fantasia oficial do Halloween deste ano.

De resto, o calor delirante que impõe a velocidade de marcha cinco (com jump cuts nas cenas de Dee e uma mudança sempre imprevisível entre os núcleos de Tic, Leti e Christina) ajuda demais a construir este início de clímax de Lovecraft Country, no seu antepenúltimo episódio. É como se “o dia mais quente do ano” forçasse à resolução todos os conflitos que se colocavam até aqui (Tic/Montrose, Tic/Christina, Ji-Ah/Leti, Leti/Ruby, Ruby/Christina) de forma mais ou menos autônoma. A confluência é vertiginosa e Misha Green pega o espectador no contrapé com visível prazer, ao brincar com convenções de scifi e fantasia, como na cena que menciona viagem no tempo de uma forma absurdamente desafetada.

No geral, é como se o seriado tivesse passado sete episódios testando formatos, discursos, para então juntá-los nessa apoteose que, acima de tudo, refina os formatos e os discursos. A misoginia que se percebia antes, por exemplo, é colocada em contexto e as cenas de violência contra a mulher são usadas como catalisador de algo e não apenas como válvula de sensacionalismo. Até o próprio fan service que se esperava acontece de forma orgânica, e não como muleta dramática, quando Tic cita as mudanças que foram feitas por Misha Green na adaptação do romance de Matt Ruff.

Para Dee, que termina sentindo o racismo literalmente na pele, o assassinato de Emmett Till é um evento fundador como foi o massacre de Tulsa em Watchmen. Com um oitavo episódio irrepreensível, Lovecraft Country também finca raízes, numa combinação que transcende história real, ficção e metalinguagem.

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