Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife

Entidades lamentam demolição ‘às escondidas’ de projeto assinado por Delfim Amorim, um dos expoentes do modernismo no Brasil

Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife (Foto: Reprodução)
Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife

Uma das casas modernistas de maior valor arquitetônico de Pernambuco virou pó. A construção histórica no Recife, que por muitos anos serviu como sede da Agência Estadual de Meio Ambiente, antiga Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos (CPRH), foi demolida entre o último sábado (03) e domingo (04). De acordo com a imprensa local, a ação foi rápida e mobilizou operários com com retroescavadeiras e caminhões caçamba.

Encomendado em 1958 por Miguel Vita, dono da fábrica de refrigerantes Fratelli Vita e ex-presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), o imóvel foi projetado pelo arquiteto Delfim Fernandes Amorim (1917 – 1972), expoente da arquitetura moderna brasileira ao lado de nomes como Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy. Nas últimas quatro décadas, a propriedade também foi usada pelo governo estadual como repartição pública.

Segundo informações do coletivo Marco Zero Conteúdo, a sede da Agência Estadual de Meio Ambiente teve seu endereço alterado em janeiro de 2019 para um condomínio empresarial no mesmo bairro. A mudança teria acontecido por conta de um desacordo entre os herdeiros de Miguel Vita, que se recusaram a renegociar o contrato de aluguel e priorizaram a venda para uma construtora. 

Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife (Foto: Reprodução)
Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife (Foto: Reprodução/Docomomo Brasil)

Avaliada em R$ 15 milhões, a casa localizada na esquina das ruas Sant’anna e Astério Rufino Alves era tida como atração turística nos anos 60, atraindo visitantes curiosos para contemplarem os traços grandiosos e raros da arquitetura moderna em Recife. 

A demolição da antiga casa de Miguel Vita causou revolta entre entidades ligadas à arquitetura e preservação de patrimônio. A Comissão de Patrimônio Cultural do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento Pernambuco (IAB-PE) emitiu uma nota de repúdio.

Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife (Foto: Reprodução)
Máquinas trabalham na limpeza do terreno onde antes ficava a casa modernista (Foto: Reprodução/Docomomo Brasil)

No texto divulgado em seu site oficial, a entidade questiona “a legitimidade de uma ação de demolição que ocorre em tempo recorde, em um final de semana, sem placa de obra e sabendo-se que o imóvel em questão havia sido indicado por professores da UFPE, especialistas em arquitetura moderna, para classificação como Imóvel Especial de Preservação (IEP), previsto na (Lei nº 16.176/1996).” 

“Concebido como residência particular, pertencente ao industrial pernambucano Miguel Vita, o imóvel reunia significativos atributos dos traços modernistas, com estruturas em balanços e coberta em empenas do tipo asas de borboleta”, lamenta o órgão. “Projetado pelo arquiteto Delfim Amorim, que também nos brindou com obras arquitetônicas consideradas ícones de nossa memória arquitetônica, reunia elementos em muito exaltados pelos profissionais da área, pelos admiradores da nossa cultura local e pela sociedade, em geral.”

Marco da arquitetura modernista é demolido em Recife (Foto: Reprodução)
Projeto assinado pelo arquiteto Delfim Amorim

A nota, entitulada “Mais um para o obituário arquitetôncio”, é assinada também pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE; curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicap; Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano; Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE; Núcleo Pernambuco do ICOMOS Brasil; Núcleo Pernambuco e Direção Nacional do DOCOMOMO- Brasil e Núcleo Pernambuco e Direção Nacional da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas.

O projeto da casa consta no livro Guia do Recife, arquitetura e paisagismo, de Alberto Sousa e Edileusa da Rocha. Publicada em 2004, a obra apresenta a construção de Delfim Amorim como “edificação de alto luxo com garagem para dois carros, fato raro em sua época”. Ao menos no papel, sua memória será preservada. 

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