Com Letitia Wright, Mangrove abre o Festival de Londres, politiza e emociona

Diretor de 12 Anos de Escravidão, Steve McQueen marca os 50 anos da marcha dos Nove do Mangrove
PATRÍCIA DANTAS

Nada de tapete vermelho, coletivas de imprensa ou chá da tarde com os cineastas. Para quem está acostumada a cobrir o Festival de Cinema de Londres, que deu início à sua 64a. edição na última quarta-feira, o formato de 2020 é bem diferente dos anos anteriores. Em tempos de pandemia, a maior parte dos filmes está sendo exibida virtualmente na plataforma do British Film Institute, com apenas alguns títulos disponíveis em cinemas selecionados no Reino Unido para o público.

Porém, apesar de sentir falta de sentar na sala de cinema e encontrar com meus colegas jornalistas entre uma sessão e outra, nem tudo parece incomum no evento deste ano. A começar pelo filme de abertura do festival, Mangrove, de Steve McQueen. Vencedor do Oscar de Melhor Filme com 12 Anos de Escravidão em 2014, o diretor britânico é habitué do festival, onde abriu a edição de 2018 com seu As Viúvas.

Mangrove faz parte de uma antologia assinada pelo cineasta, intitulada Small Axe, que vai ao ar a partir de 15 de novembro na BBC e 20 de novembro no Amazon Prime Video com cinco filmes originais baseados em experiências reais da comunidade das Índias Ocidentais em Londres. Especificamente em Mangrove, a trama se passa entre as décadas de 60 e 70 em Notting Hill, na região Centro-Oeste da capital, bairro charmoso que nem sempre foi palco de comédias românticas e ainda tem ruínas evidentes da época do Pós-Guerra.

Há 50 anos, a área, repleta de moradias precárias, atraía imigrantes, incluindo descendentes de ex-colônias britânicas do Caribe, também conhecidos como geração “Windrush”, a viver em Notting Hill pelo aluguel barato. (Quando Caetano Veloso canta em “Nine out of Ten” que frequenta o Electric Cinema e passeia pela Portobello Road ao som do reggae, é da Notting Hill dos anos 70 que ele fala.) Dado o contexto, a partir de então, o filme conta a história verídica de Frank Crichlow (Shaun Parkes), cujo restaurante caribenho, Mangrove, acaba se tornando um centro comunitário animado em Notting Hill, para moradores, intelectuais, artistas e ativistas.

Embora ressalte que ali “é um lugar de respeito onde se vende apenas comida apimentada”, Frank é alvo constante de batidas policiais e acusações de atividades ilegais. Em uma tentativa de acabar com a discriminação e a destruição de sua base comunitária, Frank e seus amigos decidem sair às ruas em um protesto pacífico ocorrido em 1970, e o filme lida com a reação violenta da polícia a essa iniciativa, e se transforma numa história de tribunal quando os detidos – conhecidos como “Os nove de Mangrove”, incluindo Frank e a líder do
Movimento British Black Panther, Altheia Jones-LeCointe (Letitia Wright) – são julgados pelo protesto no Old Bailey Court, a mais alta corte de justiça do Reino Unido.

Algumas cenas do filme são realmente poderosas, pelo apelo emocional, especialmente em tempos de Black Lives Matter: uma delas é quando Altheia diz a Frank para não ceder ao sistema e não se declarar culpado das acusações. Quando Frank se emociona ao ouvir o veredito para cada membro do “Mangrove 9” é outro momento forte do filme, de causar arrepios.

Ao marcar os 50 anos da marcha de protesto, Mangrove ensina que, apesar das adversidades e da vontade de desistir às vezes, a resiliência pode levar a recompensas realmente valiosas. O filme de McQueen abre o Festival de Londres com esse tom político evidente, em sintonia com o Black Lives Matter e outros movimentos que reivindicam o protagonismo das narrativas negras suprimidas há séculos, e a essa altura de 2020 isso seria até incontornável.

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