‘Deus me livre ser perfeita, eu seria insuportável’, diz Cláudia Abreu na véspera dos 50 anos

Morando em Lisboa, atriz estreia em ‘Desalma’, no dia 22, na Globoplay
Carolina Ribeiro

Vestido Wheat & Rose, pulseiras Vangloria Jewelry e anel Rocha Carvão Foto: Daryan Dornelles

Emoldurada por uma parede azul, Cláudia Abreu reage à orientação do fotógrafo (“Fecha os olhos e viaja. Você é uma super atriz”) e diz: “Rola timidez quando a gente é a gente. Não gosto de tirar foto”. Ela reluta em ser a protagonista. No papel de si mesma, habilidosa, transfere os olhares da equipe para um caquizeiro plantado na esplanada do hotel onde foi realizado o ensaio fotográfico, em Lisboa. “Nunca vi um pé de caqui. Aquilo é fruta-do-conde?”, aponta para outra árvore. “É uma magnólia”, informa um funcionário da casa. “Na minha vida normal, quando preciso viver momentos de glamour é ótimo! Mas prefiro a vida simples: ir para o mato, tomar banho de cachoeira, ler meu livro na rede e acompanhar o florescer de cerejeiras, ipês e quaresmeiras.”

A um dia de celebrar 50 anos (“Não vamos fazer disso o foco da matéria, ?”, apela), Cláudia fala sobre a estreia da série “Desalma”, no dia 22, na Globoplay; os três meses de isolamento em Secretário, Região Serrana do Rio; a temporada que vive em Portugal; a regência da orquestra de quatro filhos; os 23 anos de casamento com o cineasta José Henrique Fonseca; a cultura de intimidação que embaça o Brasil; e o luto pelo sogro Rubem Fonseca, que morreu em decorrência de um infarto, há seis meses. “Foi uma porrada. Nós, como tantas outras famílias, vivemos um luto no confinamento. É uma coisa terrível. Quando um vai ficando bem, o outro não fica”, pontua Cláudia, que sinaliza estar numa fase muito sensível. “A gente morava no mesmo prédio, tinha uma relação muito estreita. Ele era uma figura imensa na vida de cada um. O corpo dele podia ter 94 anos, mas a cabeça era atemporal, um homem sem idade.”

Cláudia Abreu veste camisa e calça, ambos Wheat & Rose Foto: Fotos: Daryan Dornelles. Styling: Sara Soares. / Edição de moda: Patricia Tremblais. Beleza: Cris Severo. Agradecimentos: Torel Palace.

O baque ecoou na mudança temporária para Lisboa, onde o projeto é passar um ano. A cidadania portuguesa é parte da herança deixada pelo escritor, cujos pais eram de Vila Real (cidade ao Norte de Portugal). “Tem gente que fica imobilizado diante do luto ou de alguma situação terrível como a pandemia. A gente foi atrás da vida”, reflete. Durante o confinamento, pintou a ideia de a filha mais velha, Maria Maud, de 19 anos, estudar Música na Escola de Tecnologias, Inovação e Criação, instituição que tinham visitado quando passaram o réveillon em Portugal. A primogênita, que já é cantora e toca violão, passou na prova on-line e arrastou a família. “Quero vivenciar de fato a minha experiência europeia e que meus filhos amadureçam e saiam daqui com outra cabeça.” Parte das decisões foi não levar nenhuma funcionária do Brasil. “Não faz sentido você passar uma temporada na Europa e importar o mesmo conforto que tanto questiono de ter sempre alguém trabalhando para a gente.” Há um mês instalada em Lisboa, a atriz se diz mais carioca do que nunca. Gosta de pedalar com a família até a Torre de Belém nos fins de semana e pretende “entrar no circuito da bike power”, no Parque Florestal de Monsanto.

 Cláudia Abreu em Lisboa Foto: Daryan Dornelles / Daryan Dornelles

No Rio ou em Lisboa, para ela, não existe vivência mais fabulosa do que ser mãe de quatro. Além de Maria, Cláudia e o marido são pais de Felipa, de 13, José Joaquim, de 10, e Pedro Henrique, de 9. “Tem uma coisa muito bonita sobre ser mãe de muitos que é como se eu fosse um maestro e eles os instrumentos. Cada um pede uma intensidade, uma cadência. Tem um momento em que você tem que pedir para um ir mais para a vida e outro em que tem que dar uma seguradinha”, compara. Como regente, administra na prática a adaptação dos quatro na faculdade e na escola portuguesa, que desde setembro retomaram as aulas presenciais. “Eu procuro harmonia na minha família e com as pessoas com quem trabalho. Digo para os meus filhos quando misturam a turma no colégio ou agora que estão vivendo uma experiência numa escola diferente que eu mudo de grupo de amigos a cada trabalho que faço”, conta.

Casada há 23 anos com o cineasta José Henrique Fonseca, com quem também tem uma produtora de audiovisual, a Zola Filmes, e acaba de lançar a série “Bom dia, Verônica”, no Netflix, Cacau (para os íntimos) enxerga a relação com “normalidade”. “No momento em que você está tomando um vinho, que poderia não ter a ver com trabalho, já se torna uma conversa interessante que vai desembocar numa troca criativa. E a melhor parte é que a gente tem muitos projetos juntos, seja na vida, na produtora, na construção de uma casa ou na aventura de passar uns meses aqui”, enumera. “Somos iguais a todo mundo. Não trabalhamos tanto juntos. Fizemos um filme só lá atrás e agora temos a produtora. Criamos juntos não necessariamente para executar”, diz. “Quero aproveitar essa temporada no sentido de poder experimentar uma vida diferente. Sempre quis morar fora e nunca consegui, pois trabalho desde muito nova”, comenta ela, que viveu as inesquecíveis Clara em “Barriga de aluguel” (1990), Laura em “Celebridade” (2003) e Helô em “A lei do amor” (sua mais recente novela, em 2016).

Vestido Wheat & Rose, pulseiras Vangloria Jewelry anel Rocha Carvão Foto: Daryan Dornelles

Cláudia Abreu versão 5.0 não romantiza a idade. “Deus me live ser perfeita, eu seria insuportável”, graceja. “Para mim, Cacau vai ter sempre a força e a energia dos 20 anos. Nunca vou esquecer dela dançando numa noite de réveillon que passamos juntas em Teresópolis”, comenta a atriz Renata Sorrah, colega de cena de longa data. Por sua vez, a nova cinquentona do pedaço diz ser compreensiva com os seus limites. “Eu estava melhor antes da quarentena.” Hoje, faz aulas de ginástica on-line e planeja voltar a praticar ioga e meditação. Vai ao dermatologista com frequência, faz tratamentos para tirar manchas, mas está fora de intervenções invasivas. “É bonito envelhecer com suavidade.” Desde os 18 anos, não come carne vermelha e está tentando limar aves e peixes. Se rende, confessa, em ocasiões especiais, como um jantar japonês. “É menos por uma questão estética e mais por consciência”, diz.

A cobrança, para ela, está em outro patamar. “Se você não está fazendo novela, as pessoas acham que não está fazendo nada. Muita gente cobra”, reage Cláudia, que tem dois filmes por estrear, ainda sem data: “O silêncio na chuva”, de Daniel Filho, e “Terapia da vingança” (nome provisório), de Marcos Berstein.Na primeira fila de projetos está a série de suspense sobrenatural “Desalma”, em que divide o elenco com Cassia Kiss e Maria Ribeiro. Ambientada numa cidade fictícia inspirada numa colônia ucraniana, a trama é passada em flashbacks. Cláudia é Ignez, uma mulher que desaba de uma personalidade solar para atormentada a partir da morte de um parente.

“Cláudia vai para camadas que nunca tinha visto em termos de dramaticidade. Ela vive uma personagem que tem alguns problemas psiquiátricos que não são gritantes e evidentes, e é aí que é o mais difícil porque eles estão nas entrelinhas”, analisa a autora da série, Ana Paula Maia. Para a atriz, é essencial falar sobre o estigma da pessoa que faz tratamento psiquiátrico na TV. “Se você tem uma dor física, você vai ao médico e toma remédio para isso. Mas se tem uma dor na alma, você é maluco”.

Vestido Sienna Foto: Daryan Dornelles

Prevista para março de 2021, a gravação da segunda temporada de “Desalma” é a garantia da volta de Cláudia ao Brasil. “Apesar de sentir medo, acho importante que as pessoas possam voltar a trabalhar dentro de um protocolo seguro”, opina a atriz, que elege a palavra “traiçoeira” para caracterizar a Covid-19. “É uma doença que por vezes passa batida por algumas pessoas e por outras têm um desenrolar totalmente trágico. Acho que ninguém está seguro em lado nenhum. Mas em alguns lugares a questão foi tratada de uma maneira mais séria.”

Se o sonho de ter uma vida mais simples no campo parecia irreal, Cláudia o experimentou durante os meses de confinamento ao lado da família e da amiga Drica Moraes (“Responsável pelo departamento de lavanderia”), na sua casa em Secretário. “A gente se reencontrou por uma coincidência no carnaval. Quando deu o lockdown, a gente ficou um mês juntas lá. Vi Cacau cuidando dos quatro filhos, de uma maneira particular com cada um. A relação dela com o Zé é de profunda cumplicidade. E a gente botou em dia a nossa amizade, com papos sobre vida, morte, casamento e família”, conta Drica.

Cláudia Abreu em Lisboa Foto: Daryan Dornelles

O cenário bucólico ajudou a turma a passar pela quarentena, mas não a poupou dos novos desafios. “Nunca imaginei que meus filhos teriam aula on-line. Foi uma vivência rica em família. Mas se você é uma pessoa que tem uma cobrança alta, enlouquece. É difícil virar professora de muitos, lidar com a internet que cai e as demandas da escola” reflete Cláudia, classificando seus sentimentos como “ambíguos e opostos”. “Estava no campo e poderia ter desligado a TV. Mas não tem como ignorar o que está acontecendo, e exagerei de vivenciar de uma maneira muito obsessiva a forma como o Brasil estava lidando com isso”, avalia. Para desanuviar, maratonou os filmes de Ingmar Bergman, devorou livros, biografia, contos, diários e o que viu pela frente de Virgínia Woolf. “Tenho uma identificação com ela que vai além do estilo literário. Me surpreende que alguém que não viveu na minha época, sequer no meu país, ter sentido coisas tão parecidas”, diz. Agora, está escrevendo sobre a autora inglesa, ainda sem saber onde quer chegar, e prestigia amigos que atiraram-se no teatro virtual. “É uma forma de sobrevivência dupla. Não só à Covid como à política cultural”.

Cláudia volta três vezes à pauta do Brasil “para se expressar com as palavras certas”: “Sou a favor do bom senso. Se você se importa com cultura, educação, saúde, ciência, meio ambiente, direitos humanos, diversidade e diplomacia é impossível não se indignar e não se manifestar”. Entre as postagens na sua conta no Instagram, aborda questões como o Pantanal em chamas. Na balança de seu signo, equilibra a falta de pressa de voltar à sua casa no Leblon, no Rio, e a angústia de não parecer que está de costas para o Brasil. Apesar de que… “O Leblon tem envergonhado a gente”, diz Cláudia. A atriz vira os olhos e anuncia o fim da conversa.

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