Bruce Springsteen transforma saudade dos que já se foram em canções empolgantes de disco e filme

Cantor e compositor lança álbum com a lendária E-Street Band; ‘Letter to you’ traz 12 composições e documentário com os bastidores da gravação
Sérgio Luz

O cantor e compositor americano Bruce Springsteen, que lança o disco 'Letter to you' Foto: Divulgação/Danny Clinch
O cantor e compositor americano Bruce Springsteen, que lança o disco ‘Letter to you’ Foto: Divulgação/Danny Clinch

De seu amplo estúdio caseiro, em Nova Jersey, Bruce Springsteen aparece na tela da entrevista coletiva virtual aparentando pelo menos um par de décadas a menos que seus 71 anos recém-completados. E o vigor de sua aparência bronzeada é refletido em “Letter to you”, seu 20º disco autoral, que chega ao streaming no dia 23, acompanhado por um documentário com os bastidores da gravação, dirigido por Thom Zimny, na Apple TV.

O lançamento marca o segundo pacote de disco e filme lançado pelo cantor e compositor americano em pouco mais de um ano — o álbum solo de folk-country “Western stars” e seu contemplativo longa homônimo, também assinado por Zimny, saíram no meio de 2019. Primeiro CD de Springsteen com a sua lendária E-Street Band completa desde “Working on a dream” (2009), “Letter to you” reúne 12 canções com a sonoridade que marcou os grandes sucessos do artista, um rock vibrante de apuro pop e pegada radiofônica.

— Não havia escrito canções para a banda fazia uns seis ou sete anos. Me envolvi com diversos projetos, mas sempre tinha em um canto da cabeça a vontade de fazer um disco com o grupo, e, se eu pudesse, um disco de rock. Para mim, é o tipo de música mais difícil de compor — confessa Springsteen. — Esse desejo fica no ar, mas é necessário algo para acender a fagulha de uma maneira criativa.

Gravado ao vivo em estúdio com os oito integrantes da E-Street Band, da qual participa sua mulher, a cantora Patti Scialfa, “Letter to you” teve sua chama acesa quando o músico ganhou o violão de um fã e perdeu um velho amigo de infância.

— Eu fui visitá-lo mais ao sul, onde ele vivia. Além de mim, ele era o único sobrevivente da minha primeira banda (The Castiles). Quando ele morreu, só eu sobrei. É um sentimento estranho pensar em sua juventude e na partida de todas as pessoas que foram importantes para você naquele período. Então eu escrevi “Last man standing”. Quando compus essa, a represa arrebentou e todas as outras canções surgiram nos dez dias seguintes. E fiz tudo com o violão que um garoto me deu na saída da Broadway.

Além das novas faixas, a reflexão sobre a morte e a preocupação com o legado de sua obra geraram trabalhos em diferentes formatos nos últimos anos. O registro audiovisual da produção do álbum, com narração do próprio artista, é seu quarto projeto autobiográfico, seguindo o livro de memórias “Born to run” (2016), o espetáculo teatral “Springsteen on Broadway” — que ficou em cartaz em Nova York por 14 meses, entre 2017 e 2018 — e “Western stars”.

— Eu trabalhei pesado para poder verbalizar minha vivência. Bem, eu faço análise há 30 anos. Isso ajuda bastante! — diverte-se. — A tarefa do artista é passar o tempo examinando a própria vida. Ao fazê-lo, você acaba escrevendo um pequeno mapa para seus ouvintes examinarem suas experiências. É nisso que eu sempre foco.

As novas composições abordam temas sempre presentes na discografia de Springsteen, como solidão (“Last man standing”), amizade e união (na faixa-título), e perda e redenção (“Ghosts”). Apenas três músicas não são da nova safra: “Janey needs a shooter”, “If I was a priest” e “Song for orphans”, todas sobras da época de seu disco de estreia, “Greetings from Asbury Park, N.J.” (1973).

— Escolhi essas três casualmente, senti que funcionariam bem agora — conta Springsteen, que relembra as comparações com Bob Dylan por conta de sua poesia verborrágica no início de carreira. — Bem, eu escrevia letras selvagens quando tinha 22 anos, eram bem escritas e bastante divertidas. Mas me afastei desse estilo quase imediatamente por causa dessa comparação. Me arrependo um pouco disso. Olhando para trás, eu tinha um jeito original ao compor daquele jeito.

Um arrependimento
Um dos artistas mais conhecidos e amados dos EUA nos últimos 50 anos, Springsteen não tem a mesma fama abaixo da linha do Equador. E ele culpa a si mesmo por isso:

— Um dos meus maiores arrependimentos é não ter ido e ficado tempo suficiente na América do Sul para construir um público como fizemos na Europa e nos EUA. Foi uma tremenda oportunidade perdida.

Em 2013, em sua última passagem pela América Latina, contudo, ele agradeceu aos fãs tocando versões com letras originais para músicas de artistas de cada país. No Brasil, em São Paulo e no Rock in Rio, ele abriu os shows com uma versão apimentada por naipes de metais de “Sociedade alternativa”, clássico de Raul Seixas e Paulo Coelho.

— Conversei com pessoas locais sobre suas canções favoritas. Depois passei um tempo trabalhando meu péssimo talento com idiomas para interpretar da melhor maneira possível essas músicas. Me diverti muito.

Apesar de ter posicionamentos progressistas e assumir seu apoio ao Partido Democrata — ele tocou na posse de Barack Obama e endossou recentemente a campanha de Joe Biden à presidência dos EUA —, Springsteen não falou das eleições. Mas comentou sobre um tema importante no debate político americano após pergunta de um jornalista mexicano.

— A comunidade latina é hoje uma profunda parte do tecido do nosso país. Minha cidade natal, Freehold, estava morta há 20 anos. Se você for lá agora, há lojas e restaurantes mexicanos, todo tipo de negócios que os latinos trouxeram. São parte essencial dos EUA. Escrevi um disco sobre essas histórias, em 1995, quando morava na Califórnia, “The ghost of Tom Joad”. Até hoje é um dos meus álbuns favoritos.

Antes de encerrar a coletiva, ele ainda revela sua música predileta do novo trabalho, “House of a thousand guitars”, cuja introdução traz um (característico) exagerado riff de piano de Roy Bittan:

— Essa canção é o coração e a alma de todo o disco, uma metáfora para esse corpo de vida e experiência que tenho dividido com meu público. Nós entretemos, esperamos que você dance com nossas músicas, que encontre conforto nelas. É isso que continuo tentando fazer.

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