Dior, Prada e outros titãs da moda se rendem ao fetiche por estilo Covid

Indústria resolveu apresentar equipamentos próprios de proteção individual para níveis diferentes de preocupação
Pedro Diniz

Desfile da coleção primavera/verão da marca Kenzo na semana de moda em Paris
Desfile da coleção primavera/verão da marca Kenzo na semana de moda em Paris Stephane de Sakutin/AFP

A pergunta que se fazia no início da pandemia, quando o Brasil ainda nem havia registrado casos, era se usar máscara traria alguma proteção. A resposta dos oficiais de imigração de Paris, em fevereiro, era algo entre uma revirada de olhos e um muxoxo de desdém.

Naquela temporada de desfiles invernais, o protocolo mudou num espaço de nove dias, a máscara virou artigo raro, e agora, nesta de verão 2021, terminada há poucos dias, a moda resolveu apresentar equipamentos próprios de proteção individual para níveis diferentes de preocupação.

O maior questionamento das grifes nas passarelas de Milão e Paris, seja aquelas que apresentaram vídeos, seja as que encararam o desafio de aglomerar convidados, não foi a eficácia de suas roupas contra um vírus, mas como elas podem ser úteis num mundo que, mais pobre, está pensando em consumir menos, quer sair de casa o quanto antes e, ainda assim, se sentir protegido em seus trajes.

Como se incorporassem um espírito de consciência, aceitaram haver uma “doença do momento” e que “a epidemia se estende” e “a festa acabou”, que parece ter guiado a maioria das coleções parisienses.

Choveram capas, algumas de chuva, como as de Thebe Magugu, sul-africano vencedor do prêmio LVMH do ano passado, e outras tipo roupão de banho, como a Balenciaga fez ainda imersa no tema apocalíptico.

Houve ainda as versões etéreas da Prada, que na estreia do estilista Raf Simons inventou bolsos traseiros, abriu fendas e apostou num minimalismo menos rígido do que aquele criado para ano passado.

A Loewe viu esse desafio de proteção de uma forma macro, e macro de verdade. As roupas do estilista Jonathan Anderson parecem casulos, onde as pessoas se enfiam ampliando a parte de baixo como se vestissem roupas de palhaço, ou abrindo os ombros em ombreiras de combate.

Há um jogo de pesos nessa roupa protetiva. Ainda que os estilistas imaginem que seus clientes queiram usar muitos panos, parte dessa elite criativa que influi diretamente no varejo mundial quer levar alguma leveza e colorido às ruas.

Por isso, pensar micro por dentro do look e macro por fora foi uma constante nessa resposta da moda ao pedido de proteção. Por debaixo dos casacos pesados e das finas camadas de tule das roupas, como fez Felipe Oliveira Baptista, na Kenzo, houve espaço até para minitops.

Não quaisquer uns, mas nas versões franjadas da Chanel, saturadas de cor da Versace, florais da Dior e esportivas da Miu Miu. Há minicoisas para todo tipo de ocasião, saias, hot pants, casaquetos, afinal, são ideias para dias mais quentes e a pouca roupa às vezes não é uma opção.

Mesmo para uma das marcas que melhor representa o luxo strictu sensu, como é o caso da Hermès, se desnudar foi quase um imperativo.

Por cima dos minitops de tons neutros havia coletes com fechos vinculados ao universo da selaria, jaquetas do tipo bomber de couro mole e trench coats que conseguem levantar com as passadas —é claro que, para essa marca, evitar o contato não é lá muito útil já que seus clientes devem estar protegidos em casas distantes das cidades.

E, antes que alguém revire os olhos, é preciso dizer que parte da moda quer fazer com que os acessórios de rosto façam parte dos looks das cidades. Tem ido para o ralo aquela culpa em fetichizar o EPI que faltou no início da pandemia e, já em maio, causou uma crise de imagem na Osklen quando a marca lançou um modelo de R$ 147.

Ninguém pareceu se importar agora que Marine Serre, a nova queridinha da moda —e também deBeyoncé, de Adele e de toda a alta casta do pop— lançou sua versão de balaclava, ou que a Balenciaga tenha combinado máscara com joias esfuziantes.

Nem se ouviu um pio quando o ícone da juventude desconstruída do fashionismo, o americano Rick Owens, assumiu em sua passarela ao ar livre versões dessa peça combinada com looks que parecem ter sido recortados mirando um futuro (ou seria presente) distópico.

Glamoroso, é verdade, como toda a indústria quis fazer parecer agindo no limite do normal enquanto o mundo assistia a tudo numa tela de computador, mas ainda assim assombroso.

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