O que as cotas para negros nas universidades podem ensinar ao Nubank

Por Alexandre Rodrigues

Cristina Junqueira, uma das fundadoras do Nubank: pedido de desculpas após repercussão de declaração sobre dificuldades para contratar executivos negros Crédito: Divulgação

Uma das fundadoras do Nubank, Cristina Junqueira publicou nas redes sociais um pedido de desculpas por ter dito no programa Roda Viva, da TV Cultura, que tem dificuldades de contratar executivos negros por falta dos requisitos técnicos que julga necessários.

Questionada se a alta exigência não é a barreira que a separa de talentos negros, respondeu que a empresa “não pode nivelar por baixo”. No vídeo de desculpas, agradeceu a “todo o feedback” que recebeu após a repercussão negativa “porque todo mundo tem o que aprender”. E, desarmada de seu rigor, admitiu: “falar de diversidade racial, gente, não é fácil”.

De fato, não é fácil atuar num mercado altamente competitivo como o financeiro. E é preciso aprender muita coisa para fazer a diferença numa empresa movida a inovação. Mas para alguém encarar esse desafio, é preciso oportunidade.

Um dos principais argumentos contra as cotas raciais adotadas em universidades públicas a partir de 2012 era o de que colocariam em risco a excelência acadêmica “nivelando por baixo”. Em 2018, pretos e pardos passaram a ser mais que 50% dos alunos. Segundo dados do Enade 2019 divulgados na terça-feira, somente 6,3% dos cursos de graduação avaliados tiveram nota máxima, mas 80% deles estão nas instituições públicas.

Os universitários negros não ameaçaram a qualidade da universidade pública. Ao contrário, são hoje parte do diferencial. No entanto, ainda não chegaram às salas de reuniões de empresas como o Nubank.

Essa dissonância faz do mercado de trabalho o novo campo de batalha das ações afirmativas. Em vez da busca incessante por profissionais perfeitos, um atributo muitas vezes contaminado pelo viés racial, empresas interessadas em cabeças diferentes precisam aprender com as universidades sobre a importância do acesso.

Ações afirmativas no ensino superior ou nas empresas são instrumentos de aceleração da diversidade, mas que não prescindem de melhorias na educação dos negros. Enquanto isso não vem, compensar uma ou outra deficiência dentro da empresa não dá prejuízo. Segundo evidências no próprio mundo corporativo, pelo contrário.

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