Pequenas marcas de cosméticos dão exemplo sustentável de ponta a ponta

Desde a escolha da matéria-prima, de fontes renováveis, até a entrega do produto, para garantir destino das embalagens, empreendedores veem alta nas vendas com busca por mais saúde na pandemia
Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

AhoAloe
Larissa Pessoa e Rodrigo Lanhoso, fundadores dessa marca AhoAloe, de produtos naturais, que acaba de abrir loja em Pinheiros. Foto: Felipe Rau/Estadão

Óleo corporal de calêndula para problemas de pele e inflamações, suavizador vegano de olheiras com alecrim e olíbano, água micelar orgânica com extrato de aloe vera, gel dental com carvão vegetal, óleo de hortelã-pimenta e tea tree. Se poucos anos atrás produtos naturais como esses pareciam incomuns e difíceis de encontrar no mercado, hoje eles estão cada vez presentes nas prateleiras de banheiro e mesas de cabeceira do consumidor brasileiro. 

De acordo com um levantamento feito em janeiro de 2019 pela consultoria Grand View Research, o Brasil já é o principal mercado de cosméticos orgânicos e naturais da América Latina. A previsão é que esse nicho movimente mundialmente US$ 25,11 bilhões até 2025. E a preocupação vai muito além da beleza e dos benefícios para o corpo.

O estudo Global Consumer Trends 2019 apontou que o consumo responsável e a redução de plástico são duas das principais tendências para as próximas décadas, de olho numa retomada verde da economia. O consumidor está mais criterioso e atento ao impacto dos cosméticos na própria pele e no ambiente.

Pequenas marcas sustentáveis têm surfado a onda da mudança nos hábitos de consumo, com a preocupação de desenvolver um ciclo ambientalmente responsável em cada etapa do processo, da escolha de matéria-prima (com itens renováveis e menos química, como os citados no começo desta reportagem) ao descarte adequado da embalagem.

“É nítida uma movimentação, principalmente do público millenial (geração Y, nascidos entre 1981 e 1996), tanto nas redes sociais quanto no nosso e-commerce, interessado em nossas iniciativas, posicionamento e produtos”, relata a empreendedora Caroline Villar, fundadora da Souvie, que cria cosméticos orgânicos para todos os ciclos da vida.

Com a chegada da pandemia, a marca teve que fechar os quiosques de shopping, mas observou um aumento significativo nas vendas por meio do site. “O que nós percebemos é que o consumidor, no período de isolamento social, voltou o olhar aos seus cuidados e rituais de beleza, começou a questionar os ingredientes das fórmulas e ver quais eram as composições dos cosméticos que usa.”

A escolha de matérias-primas e fornecedores da Souvie é feita de acordo com uma lista fornecida pela certificadora Ecocert Greenlife. As embalagens e frascos são de alumínio ou vidro e a empresa participa do programa “Dê a mão para o futuro” da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), que recicla materiais na mesma proporção em que saem da fábrica, beneficiando cooperativas e catadores de papel. 

Em relação aos dejetos fabris, foi construída uma estação de tratamento dos efluentes que vêm da lavagem dos reatores. “Como a grande maioria das nossas matérias-primas é de origem vegetal e natural, conseguimos tratar todo esse efluente lá mesmo e isso volta já tratado para a rede pública de esgoto”, explica Villar. 

PET biodegradável 

Com as vendas direcionadas principalmente a lojas especializadas, a AhoAloe, fabricante de cosméticos naturais, orgânicos e veganos à base de aloe vera, teve que mudar a estratégia durante a pandemia do coronavírus para alavancar as vendas no site. Em junho, os pedidos online já tinham crescido 700% e o faturamento saltou 200% entre junho e agosto. 

Assim que o comércio pôde reabrir, o casal de sócios Larissa Pessoa e Rodrigo Lanhoso inaugurou sua primeira loja física em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. A dupla prevê um crescimento de 500% nas vendas até o final do ano.

Certificada pelo IBD, a marca usa garrafas e frascos de PET reciclado e biodegradável, que não gera resíduo ou intoxica o ambiente durante a decomposição. “Esse material recebe o complemento de uma enzima pró-degradante derivada do óleo de coco da palmeira”, afirma Larissa. “Nas condições ideais, a biodegradação total é alcançada de 4 a 10 anos depois e os subprodutos gerados, como água, gás carbônico e biomassa, são reintegrados à terra como fertilizante.” 

Eles têm também o selo da eureciclo, certificadora oficial do Sistema de Logística Reversa do Estado de São Paulo, que faz a compensação dos resíduos plásticos colocados pela marca no mercado pagando de maneira justa cooperativas de reciclagem.

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Produtos da marca Ahoaloe, marca de cosméticos orgânicos, naturais e veganos.  Foto: Felipe Rau/Estadão

O desafio maior, de acordo com a empresária, é atender a todas as exigências legais, logísticas, operacionais e tributárias que envolvem a fabricação e distribuição de cosméticos naturais. “Sabemos, vivemos e superamos diariamente os desafios de ter uma indústria 100% legalizada e certificada para a produção”, diz, ressaltando que a fábrica possui todas as licenças para funcionamento.

Legalização e economia inteligente

“As exigências da Anvisa com relação à legislação são bem rigorosas, além de caras e demoradas”, afirma a química Letícia Souza, fundadora da mineira Vegah, que tem um laboratório próprio e já iniciou o processo de regulamentação dos primeiros produtos no órgão.

Com a expectativa de lançar oito novos cosméticos nos próximos meses e crescer 30% até março de 2021, a marca tem o selo eureciclo, usa somente matéria-prima de origem vegetal e fez parceria com uma empresa júnior da Universidade Federal de Uberlândia para o tratamento dos resíduos gerados na produção.

Outra que pratica sustentabilidade de ponta a ponta é a vegana Oleum Artesanal, com linhas completas de skincare, produtos para corpo e cabelos e proteção solar. “Priorizamos ingredientes brasileiros, de pequenos produtores, empresas referência em desenvolvimento sustentável e com responsabilidade ambiental”, conta a fundadora Renata Porto. 

Além de ter selo eureciclo, a marca buscou uma cooperativa para fazer o descarte correto dos resíduos da manipulação e dá especial atenção à economia de água. “Criamos uma miniestação de tratamento para possibilitar o reúso da água para a limpeza dos equipamentos de laboratório”, conta. “Mas o mais importante é conscientizar o nosso colaborador da importância de não haver desperdício em nenhuma etapa da produção.”

Ela também sublinha a necessidade de as autoridades terem outro olhar para o processo de legalização, principalmente no que se refere ao produtor artesanal. “Esse olhar já acontece na Europa, com o intercâmbio entre os órgãos reguladores e o produtor”, exemplifica.

Ajuda para destinar os resíduos

Liderada pelos empreendedores Fábio Silva e Maria Thereza Alpoim, a Reciclo Beleza Sustentável nasceu para ajudar as marcas de saúde e beleza, perfumaria e cosméticos a dar uma destinação ambientalmente adequada às embalagens e resíduos pós-consumo. Por meio da parceria com cooperativas de coleta seletiva da região metropolitana de São Paulo, em especial nos territórios da zona leste e da zona sul da cidade, a empresa faz a coleta, a triagem e a comercialização dos resíduos. 

Além de ajudar a ampliar a renda e a sustentabilidade financeira das equipes de catadores e cooperados, a empresa possui uma certificação e um selo que atestam que as marcas estão comprometidas com a questão ambiental. “As marcas de cosméticos naturais, orgânicos ou veganos são as mais interessadas, pois já nascem com este DNA de sustentabilidade e preocupações ambientais”, afirma Silva. 

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Produtos da Ervaria das Luas, marca que estimula clientes a reutilizarem os frascos de vidro dos óleos. Foto: Rafael Mollica

Sustentabilidade ambiental e social

Do cultivo ancestral de rosas iniciado pelo avô da educadora e empreendedora Estefânia Verreschi ao estudo dos benefícios da aromaterapia nasceu a Ervaria das Luas. “Apesar de os óleos vegetais e essenciais terem resultados no corpo físico e beneficiarem a pele, a alma do que faço está no acesso ao corpo vibracional”, diz. 

Enraizada em Cunha, cidade do interior paulista, ela mesma planta e colhe boa parte do que será usado no preparo dos produtos, feitos todos a mão, um a um. “Prezo pelo zelo que meus fornecedores têm com a questão, eles precisam estar alinhados com esse propósito”, diz ela, que tinge os sacos de tecido utilizados em algumas embalagens com plantas do jardim e usa fita de goma para fechar as caixas de papel, além de dar ideias e receitas para que os clientes reutilizem os frascos de vidro quando as essências acabam.

A noção de sustentabilidade da marca se estende ao social. “Como Cunha é a cidade da cerâmica e tem um histórico das mulheres paneleiras, tenho ido até elas para que produzam copos de barro que transformo em velas aromáticas”, conta Verreschi. Foi a forma que encontrou de agregar visibilidade a essas mulheres, gerando renda. “Por meio desse trabalho a gente traz também uma sustentabilidade humana, de ser.”

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