Produtores desabafam sobre filmes parados na Ancine, que aprovou um projeto em 10 meses

Entidade foi questionada pelo Ministério Público sobre o baixo número de aprovação de obras para captação de recursos através do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual)
Pedro Willmersdorf

Em protesto na frente da sede da ANCINE, em dezembro de 2019, manifestantes colaram cartazes de filmes brasileiros em muro do Palácio Gustavo Capanema, no Centro Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

RIO — Era começo de 2019 quando Alex Levy-Heller participou de um edital da Ancine com o intuito de captar recursos do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) para o lançamento de “A delicadeza é azul”, um documentário sobre autismo. Com o valor de R$ 100 mil aprovado pela agência, o dinheiro chegou ao diretor em julho, três meses antes do lançamento, que seria realizado pela sua produtora, Pipa Pictures.

— Passamos por todos os trâmites. Mas às vésperas de lançar o filme, recebemos um ofício dizendo que a Ancine tinha cometido um erro e que o projeto não havia sido aprovado no processo de análise complementar — relata Alex, que afirma ter usado parte dos recursos. — O restante do dinheiro está congelado na nossa conta. A última resposta que eu tive foi que o projeto estava esperando uma reavaliação da Diretoria Colegiada.

Atrasos e dívidas

Na semana passada, a Ancine foi questionada pelo Ministério Público Federal por causa de um vácuo identificado na quantidade de projetos aprovados pela agência. No ofício emitido pelo MP, o procurador Sérgio Suiama argumenta que a Diretoria Colegiada da Ancine, entre agosto de 2019 e maio de 2020, deliberou apenas um projeto para recebimento de recursos do FSA.

Foi dado um prazo de 15 dias para que a agência esclareça os questionamentos feitos por Suiama. Ao GLOBO, a Ancine preferiu não responder sobre o assunto.

Enquanto isso, vão se acumulando outros projetos na fila de pendências eternas que se perdem pelas veias burocráticas da entidade. É o caso de “Apopcalipse segundo Baby”, documentário com direção de Rafael Saar e produzido por Eduardo Cantarino, sobre vida e obra da cantora Baby do Brasil.

Desde 2008 rodando cenas do filme, Cantarino conta que, há dois anos, o projeto foi aprovado em um edital de longas documentais para captação de recursos que viriam 100% do FSA. Mas, desde então, ninguém viu a cor do dinheiro.

— No fim de 2019, o filme entrou finalmente na fase de análise complementar, que precede a liberação dos recursos. Desde então o tempo foi passando e ficamos respondendo a algumas diligências pequenas, sendo que a última foi em setembro de 2020. Agora a gente espera alguma novidade.

Baby do Brasil, personagem de documentário aprovado em edital da Ancine, mas que ainda não recebeu o aporte financeiro prometido Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Baby do Brasil, personagem de documentário aprovado em edital da Ancine, mas que ainda não recebeu o aporte financeiro prometido Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Há também casos de projetos que, mesmo sem receber os recursos aprovados pela Ancine, foram lançados. É o caso do documentário “Dentro da minha pele”, de Toni Venturi, chegou ao Globoplay em agosto e tem estreia internacional marcada para novembro, no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, na Holanda.

Realizador de títulos como “Latitude zero” (2002) e “Cabra-cega” (2005), Venturi conta que “Dentro da minha pele” foi aprovado em um edital do FSA em setembro de 2019. O diretor afirma que ainda tem mais dois projetos engarrafados dentro da agência há mais de dois anos.

— Estamos devendo às pessoas e nada de contrato — desabafa Venturi. — Era pra Ancine ser a nossa casa, o nosso motor de propulsão, o nosso espaço para a edificação de um projeto democrático de cinema, industrial e independente, diversificado, de mercado e periférico. No que ela se transformou? Numa inimiga?

Toni Venturi e a equipe do documentário 'Dentro da minha pele' Foto: Divulgação
Toni Venturi e a equipe do documentário ‘Dentro da minha pele’ Foto: Divulgação

Assim como Venturi, a produtora Iafa Britz tem mais de um projeto perdido nos labirintos burocráticos da agência: são cinco, entre obras para cinema e TV. Responsável por programas como o “220 volts”, do Multishow, e a série “Matches”, da Warner, Iafa reclama das respostas vagas dadas pela Ancine.

— Nunca conseguimos um retorno sobre prazos, não sabemos exatamente em que lugar dentro da agência cada projeto está — diz a produtora. — E todas as diligências que chegam nós respondemos rapidamente, não há nada pendente. Isso tudo acaba gerando um problema grande para a indústria do audiovisual como um todo.

Tubarões se blindam

Felizmente, se assim é possível dizer diante de tantas reclamações, há os que conseguem driblar a retranca da Ancine e tocar a vida de alguma forma. Cacá Diegues, por exemplo, conta que rompeu relações com a agência em 2017, quando teve um projeto refutado pela entidade.

Tratava-se do longa “O último imperador do Brasil”, com roteiro assinado pelo professor José Murilo de Carvalho e Nelson Pereira dos Santos, sobre o golpe antiabolicionista praticado pelas Forças Armadas, pelos senhores de terras e por políticos conservadores contra D. Pedro II, e que resultou na proclamação da República.

— Enviei para a Ancine o projeto do jeito que ele havia sido entregue a mim por Nelson, já desenganado, pouco antes de morrer. Foi negado sem maiores explicações — conta Cacá. — A partir daí decidi não mais recorrer à Ancine, como fiz agora com meu próximo filme, “Deus ainda é brasileiro”. Espero, depois desse, realizar finalmente “O último imperador do Brasil”. Sem Ancine, é claro.

Quem também afirma não ter mais vínculos com a agência é a 02 Filmes, de Fernando Meirelles.

— A produtora não trabalha mais com dinheiro público. Estamos blindados — diz o cineasta — Temos o selo Ancine-free.

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