São Paulo Fashion Week com cotas raciais busca novos caminhos para a moda

Em temporada moldada pela pandemia, evento terá desfiles online e projeções pela cidade
Pedro Diniz

Coleção da marca Aluf apresentada na 50ª São Paulo Fashion Week Guilherme Muniz e Giulia Braide/Divulgação

SÃO PAULO – Num dos anos mais dramáticos da história recente, falar sobre roupas poderia soar esdrúxulo.

Mas, para parte das grifes que compõem o novo calendário da São Paulo Fashion Week, que começa nesta quarta-feira (4) e se estende até o domingo (8), é a hora de mostrar como a moda pode se desgarrar dos rótulos de que seria um setor acéfalo, racista e que prega o consumo desmesurado dos recursos naturais.

Para a maioria das marcas, produzir os vídeos que serão exibidos virtualmente nos canais online do evento e em projeções pela cidade foi um desafio sem precedentes. Muitas coleções foram costuradas antes da pandemia de Covid-19, algumas pensadas para a edição da SPFW que ocorreria em abril e que foi cancelada na esteira da proibição de grandes eventos no país.

Uma das estreias da programação oficial, a Aluf, da estilista Ana Luisa Fernandes, usou a matéria-prima que tinha à mão da coleção que havia desenvolvido para o início do ano e a recriou em uma outra, para a qual artistas criaram imagens que traduzem elementos de cor, forma e luz das peças.

A marca é reconhecida na moda por defender atitudes sustentáveis, como a defesa de um pensamento menos descartável sobre as roupas produzidas.

“Muitas marcas estavam desenvolvendo coleções para um outro momento de mundo. Conseguimos remanejar o que tínhamos dentro do nosso propósito em vez de fingir que nada daquilo havia sido criado”, afirma Fernandes.

É o mesmo pensamento que teve Juliana Jabour em seu retorno ao calendário com uma coleção na qual convergem em estampas esportes como beisebol, basquete e futebol americano.

Os temas têm a ver com a parceria com a marca de bonés New Era, que completa cem anos e patrocinou tanto o desenvolvimento da coleção quantos os vídeos em que quatro modelos mostram cerca de 40 looks.

“Quando paralisamos tudo pela pandemia, todos as pessoas que colaboram comigo ficaram sem trabalho. Então, mais do que nunca, o desfile é necessário, porque ele também está relacionado a essa cadeia de moda que depende das marcas, dos desfiles, dos estilistas”, diz Jabour.

Ela adaptou parte das peças que estavam prontas, retirou peças mais pesadas para o desfile ter a cara mais de verão dos meses que se aproximam e manteve as características do punkvinculadas à sua história.

Olhar para dentro do sistema, repensar formatos de apresentação e reafirmar os próprios códigos estéticos que explicam os porquês de uma marca existir deverá ser a capa visível desta SPFW.

Oestilista Isaac Silva, expoente da nova geração de designers que investigam a cultura brasileira sob o prisma da diversidade racial e das origens da cultura afro-brasileira, chamou sua própria equipe para vestir as peças de sua coleção no vídeo a ser exibido no domingo (8).

As criações prestam homenagem a Iemanjá, rainha dos mares no sincretismo religioso, e também à sua avó, Jacira, que morreu neste ano e foi decisiva para o entendimento de Silva sobre a moda.

“É uma coleção de agradecimento por tudo que passei nestes meses de isolamento, quando não sabíamos o que esperar do futuro e a marca estava no amarelo, sem fluxo de caixa”, explica.

Nessa homenagem, que estará repleta de alfaiataria suntuosa, malharia e também flores, se destacam as colaborações com a artista plástica Jacqueline Paes e a designer Neon Cunha, ativista da luta por reconhecimento de transexuais no país. Ela criou uma estampa aplicada num tecido de jacquard alinhavado com fios ecológicos.

Do ponto de vista social, a SPFW exibirá em sua programação um documentário do Projeto Ponto Firme, que mostra o processo de produção de peças de crochê por 20 detentos da penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos.

Dirigido pela jornalista Laura Artigas, o filme mostra os meandros do projeto idealizado pelo estilista Gustavo Silvestre, que por anos desfilou no evento de desfiles Casa de Criadores —de onde, aliás, saiu boa parte da renovação deste ano, agora com as estreias de Martins e Renata Buzzo.

Desfile do Projeto Ponto Firme na São Paulo Fashion Week de 2018, com peças foram desenvolvidas e produzidas por artesãos que cumprem pena – Roberto Casimiro – 21.abr.2018/Fotoarena/Folhapress

Da mesma forma que ocorre em diversas semanas de moda mundo, como as de Milão e Paris, que passaram a pôr em primeiro plano a sustentabilidade e a inclusão racial e de gênero, a São Paulo Fashion Week se prepara para uma nova fase que, orquestrada pela organização junto ao coletivo de modelos Pretos na Moda, quer fazer com que os desfiles se tornem um ambiente diversificado e financeiramente mais justo para modelos.

Este jornal adiantou na sexta-feira (30), com base num documento distribuído às marcas participantes, que a partir de agora metade dos modelos nas passarelas deverá ser negra, indígena ou afrodescendente, sob pena de exclusão do evento por descumprimento dessa determinação.

A nova regra surgiu a partir de um projeto mais amplo de inclusão e reconhecimento desses segmentos historicamente apagados nas passarelas.

chamado “tratado moral” foi assinado por nomes importantes do mercado de agências, casting e styling, que devem ajudar a disseminar essa ideia entre os clientes. Esse compromisso pode ser lido como um passo inédito de uma uniformização de pensamento sobre raça e pagamentos justos aos modelos dessa indústria, embora não esteja claro ainda quais seriam penas aplicadas em caso de descumprimento.

Pouco antes de sua divulgação, no sábado (31), a reportagem obteve uma versão inicial do texto, que ainda não acrescentava as taxas das agências sobre os valores cobrados pela participação dos modelos, estipuladas entre R$ 300 e R$ 800. Na versão final, o documento afirma que a norma sobre os valores está sujeita a alterações nas temporadas seguintes.

O tratado, em sua essência, toca num tema premente da indústria cultural de “eliminar as barreiras de raça e desencorajar a tendente divisão racial”.

No cinema, por exemplo, o debate chegou à Academia, que instituiu a regrade que, a partir das cerimônias de 2022 e 2023, os longas que queiram concorrer ao Oscar de melhor filme deverão dar visibilidade a não brancos, LGBTs, latinos ou pessoas com deficiência.

No caso da moda, esse olhar vai depender não só das boas intenções nos bastidores, mas também de um olhar mais amplo por parte dos donos de grifes. Afinal, recomendar e sugerir mudanças é um primeiro passo, mas quem detém o poder de escolher e pagar pelo trabalho dará a palavra final.

Também por isso outros coletivos surgiram para discutir formas de melhorar a representatividade no mercado, como o Célula Preta, formado por estilistas do evento de desfiles Casa de Criadores como Weider Silveiro, Jal Vieira e Diego Gama, e Periferia Inventando Moda, do estilista Alex Santos, que promove profissionais de moda e coletivos da periferia de São Paulo.

Talvez uma das estreias desta São Paulo Fashion Week que promete resumir todas essas mudanças no sistema da moda numa única apresentação é a Misci, do estilista mato-grossense Airon Martin.

O designer de formação abriu há pouco mais de dois meses o primeiro ponto de sua marca em São Paulo e lançará na semana de moda a coleção “Brasil Impúbere”, por meio de um vídeo gravado no distrito de Atafona, em São João da Barra, no Rio de Janeiro, que vem sendo engolido pelo mar.

O lugar serve de metáfora do descaso com o meio ambiente e também de extremos no discurso político nacional.

Nas cenas, protagonizadas pela modelo paraense de ascendência indígena Emilly Nunes, se destacam o verde e amarelo da bandeira nacional e as roupas feitas com matéria-prima brasileira. Uma delas é a seda rústica produzida em Maringá, no Paraná, de onde vêm os fios considerados pela indústria do luxo os melhores do mundo e que, exportados, são pouco conhecidos no país.

As coleções de Martin ainda se desdobram em itens de mobiliário, que ganham relevância devido ao fato de que, assim como parte de suas roupas, carregam o espírito funcional aliado ao estético.

“O papel da moda hoje é trazer o usuário para a reflexão, sobre essa moda e esse país que precisa de amadurecimento, de se reconhecer e, a partir disso, evoluir.”

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