Exposição ‘Revoada’, da artista Flávia Junqueira, traz cenografia lúdica

Exposição da artista reabre o Farol Santander e traz cores para os paulistanos em lúdica coreografia
Por Leila Kiyomura

O lustre no hall é uma atração histórica à parte no Farol Santander, que sedia a exposição Revoada, da artista Flávia Junqueira -Foto: Divulgação

Revoada de sonhos entre balões coloridos e muitas histórias para lembrar. Com uma cenografia lúdica, a artista Flávia Junqueira reabre a programação cultural do Farol Santander, em São Paulo, e trava o desafio de iluminar o cotidiano da cidade nesta época de covid-19.

O título da exposição de Flávia, Revoada, é um convite à leveza e à esperança. Com a curadoria sensível e competente de Paulo Herkenhoff, o público é envolvido, logo na entrada, por 70 balões de 90 a 40 centímetros, que, apesar de serem de vidro e suspensos por cabos de aço, causam a sensação de estarem voando. Deixam o público no ar e, ao mesmo tempo, imerso nas suas memórias de infância.

Depois, no 24o andar, o visitante se depara com outra obra inédita da artista, Território Espelhado, com paredes e tetos cobertos por folhas e papel metalizado. Como espelhos, refletem os balões de festa por todo o espaço. A instalação, com produção de Angela Magdalena e Julia Brandão, é uma volta à infância. Remete a um parque de diversões com a alegria e luzes de um carrossel.

Parque de diversões para lembrar a infância – Foto: Divulgação

Em conversa com o Jornal da USP, a artista paulistana – mestre pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e doutoranda pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – conta como foi surgindo a montagem de Revoada. “Após a flexibilização, voltei a fazer algumas fotos encenadas, principalmente em espaços que ficaram mais isolados, o que de certo modo facilitou a produção do trabalho, porque sempre registro os espaços vazios”, explica. “Expor em um momento tão difícil é lidar com um desafio novo todo dia, tanto na produção como na montagem. Com todas as limitações, também temos que lidar com a própria fragilidade da vida neste momento.”

É gratificante trazer para o público o poder de transformação da arte, que, sobretudo neste confinamento, vimos o quanto é essencial e importante para todos.”

Balões coloridos deixam os visitantes com a sensação de estar flutuando no ar – Foto: Divulgação

Com uma trajetória movimentada por várias ideias e diversas exposições, Flávia Junqueira tem 35 anos e vai amadurecendo uma pesquisa sobre arte que sugere a reflexão do ser e da vida. “É gratificante trazer para o público o poder de transformação da arte, que, sobretudo neste confinamento, vimos o quanto é essencial e importante para todos”, comenta. “A exposição Revoada tem como elemento principal o balão colorido da nossa infância, que atualmente carrego como uma espécie de protagonista que contém muitas metáforas políticas, sociais e afetivas dentro dele.”

A artista destaca as impressões do curador Paulo Herkenhoff. “É um balão que acalenta nossa fantasia de voar. Quem nunca encheu um balão? Nossa memória corporal disso reafirma que ali está o ar de nossos pulmões, metáfora do sopro da vida e da alma.”

Observar o público e as suas reações é um incentivo para a artista. “Os visitantes têm reagido com muita emoção e alegria. Muitos estão saindo do confinamento pela primeira vez.” Flávia sente a responsabilidade da arte que traz uma janela para o isolamento. “Tenho recebido, todos os dias, muitas mensagens de agradecimento. Eu me sinto contente e forte por ver a arte exercendo seu papel, cada vez mais presente.”

“A exposição é também um elogio à contemplação e à imersão. As camadas de entrada no trabalho podem ser completadas pouco a pouco, a partir de uma sensação inicial de estar presente.”

Na exposição de Flávia Junqueira, os cavalos do carrossel encantam o público – Foto: Divulgação

Ver o público caminhando entre os balões com total liberdade completa o trabalho da artista. “As pessoas ficam à vontade para achar o que é mais relevante, deixando-se transbordar dentro dos espaços imersivos.” Flávia compartilha sua arte. “A exposição é também um elogio à contemplação e à imersão. As camadas de entrada no trabalho podem ser completadas pouco a pouco, a partir de uma sensação inicial de estar presente. Feito isso, o espectador procura o texto, as histórias por trás das fotos e completa sua percepção.”

Paulo Herkenhoff observa: “Flávia Junqueira eleva nosso olhar para encontrarmos balões flutuantes ou revoadas de formas e cores no Farol Santander. Suas ingênuas bexigas de encher povoam seu Brasil de norte a sul, inserem conotações políticas, filosóficas, linguísticas e psicológicas. Elas fogem de casa para prédios tombados e espaços públicos. Cada balão é um ato pictórico que introduz cor, sentidos e significações”.

Farol Santander: com 161 metros de altura, edifício já foi a maior estrutura de concreto armado da América do Sul – Foto: Divulgação

O Farol Santander foi inaugurado em janeiro de 2018. O prédio com a fachada tombada pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico – foi toda restaurada exatamente como era em 1947.  Merece uma atenção à parte. Foram restauradas quase 47 milhões de pastilhas e 850 esquadrias, além da restauração do célebre lustre de 13 metros de altura e 1,5 tonelada exibido na entrada. Desde sua abertura, já recebeu mais de 750 mil pessoas, com 15 exposições nos eixos temáticos. As atrações ocupam 18 dos 35 andares do edifício de 161 metros de altura, que, por um longo período, foi a maior estrutura de concreto armado da América do Sul.

Do segundo ao quinto andar os visitantes podem conhecer a história do prédio e da cidade no espaço Memória, com mobiliário original feito pelo Liceu de Artes e Ofícios. No quarto andar, há uma instalação permanente e exclusiva do Farol Santander: Vista 360º, desenvolvida pelo artista brasileiro Vik Muniz. As visitas começam pelo hall do térreo e seguem até o mirante do 26º andar.

O Farol Santander segue os protocolos de segurança e saúde dos funcionários e do público. Há medição de temperatura e tapetes sanitizantes e secantes para ingresso no prédio. Com dispensadores de álcool em gel disponíveis no edifício e sinalizações para garantir o distanciamento de 1,5 metro.

A exposição Revoada, da artista Flávia Funqueira, fica em cartaz até 10 de janeiro de 2021, de terça-feira a domingo, das 13 às 19 horas, no Farol Santander (Rua João Brícola, 24, centro, São Paulo, próximo à estação São Bento do Metrô). Ingressos: R$ 25,00. Mais informações estão disponíveis no site do Farol Santander.

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